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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Dar dinheiro não é uma solução. É uma forma de mascarar a miséria. Você deixa de ver o problema, porque as pessoas conseguem sobreviver, comer, se divertir. Parece que está tudo bem, mas não está, porque o dinheiro não é delas. Então, a doação de dinheiro é uma solução temporária e não permanente. Para termos uma solução permanente, as pessoas têm de cuidar de si mesmas. Só assim elas podem se tornar agentes ativas de mudança”. (Muhammad Yunus)

É filme de faroeste americano da década de sessenta: uma pequena cidade estava estagnada havia anos, ninguém tinha trabalho e a miséria era total. Um bandoleiro, acompanhado por sua turma, entra à noite na estalagem humilde do lugar e coloca um saco em cima do balcão. Aos berros, ele grita para a medrosa recepcionista: “Olha moça, quero que você guarde no cofre este saco de dinheiro. São 60 mil dólares que virei apanhar daqui a quatro dias. Se faltar um dólar, eu mato sua família”. A jovem apavorada guarda o dinheiro e, de medo, nada fala ao pai quando este veio cumprir seu turno. Ao abrir o cofre, surpreso, ele pensa imediatamente em saldar seus débitos com os fornecedores, pois estava à beira da falência. Mais tarde, quando a filha explica que o dinheiro era do bandido a família apavora-se. Mas vêm os dias seguintes e, como a pensão também era credora, pouco a pouco o dinheiro ia retornando. Quando o gangster veio apanhar o saco, ele estava intacto. Só que um milagre acontecera na cidade, todos estavam trabalhando e felizes.

É a segunda vez que conto aqui esta história, para mostrar o efeito desenvolvimentista do dinheiro novo ao entrar em circulação em qualquer lugar e para falar de Muhammad Yunus, o pioneiro fundador do Grameen Bank, nascido em Bangladesh em 1940 e ganhador do Nobel da Paz de 2006. Em 1965, o professor Yunus recebeu uma bolsa para estudar economia na Universidade Vanderbilt, nos EUA, obtendo em 1969 o título de Ph.D. Em 1972, ele retornou a Bangladesh como presidente do Departamento de Economia da Universidade de Chittagong.

Diz a lenda que o jovem Yunus, tinha no bolso US$ 27 e que dividiu a importância entre 42 mulheres que ele sabia estarem endividadas, vivendo abaixo da linha de pobreza na vila de Jobra. O compromisso do “empréstimo” foi que elas devolveriam os valores o mais rápido possível, sem juros nem qualquer correção.

Essas moradoras viviam em um ciclo de miséria. Com o empréstimo realizado, puderam pagar suas dívidas e começar pequenos negócios. A experiência teve um surpreendente efeito: os empréstimos foram pagos, gerando novos empréstimos e a vida da população de Jobra começava a mudar.

Inspirado pela experiência positiva e percebendo quanto impacto podia ser gerado com uma pequena quantidade de dinheiro, Yunus fundou o Grameen Bank, com a finalidade de emprestar dinheiro (microcrédito) para pessoas que não teriam acesso a capital em bancos comerciais tradicionais. O banco cresceu e se tornou um grande sucesso, permitindo que um número enorme de pessoas – partícipes agora do negócio social – saísse da pobreza.

Em 1983, seu banco tornou-se oficial e hoje tem mais de 8,4 milhões de mutuários, 97% dos quais são mulheres, e desembolsa mais de 1,5 bilhões de dólares por ano. A ideia se espalhou por quase todos os países do mundo, incluindo países desenvolvidos e industrializados.

Grameen é a palavra bengali para “aldeia” e, portanto, descreve o próprio caráter da filosofia de negócios sociais – que começam em pequena escala. Considerado um trabalho em rede, a partir dele, fizeram-se parcerias de forma a fortalecer e ampliar o impacto da atuação do negócio; combater o trabalho escravo, forçado ou infantil; cuidar da cadeia produtiva (seleção e avaliação dos fornecedores); gerenciar o impacto ambiental e articular a iniciativa com políticas públicas.

Além de ser viável economicamente, esse tipo de negócio existe para buscar solução a uma questão social. Seu eixo principal é causar um impacto positivo e sustentável em uma comunidade, ampliando as perspectivas de pessoas marginalizadas pela sociedade, aliada à possibilidade de gerar renda compartilhada e autonomia financeira para os indivíduos de classe baixa.

A atividade principal deve beneficiar diretamente pessoas com faixa de renda mais baixas, as chamadas classes C, D e E, que, normalmente, são a expressiva maioria, sobretudo em países subdesenvolvidos e emergentes. Portanto, viabilidade econômica e preocupação social e ambiental possuem a mesma importância e fazem parte do mesmo plano de negócios.

A grande força motriz dos negócios sociais está assentada em condições incomuns porque combina o melhor do business tradicional – dinamismo e eficiência -, com o melhor do setor público e filantrópico – consciência e solução de problemas sociais.

Sua motivação de existir é, primordial ou exclusivamente, por uma causa socioambiental. Os negócios sociais mostram que não há conflito entre ambição social e econômica.

Não dependendo de doações, ao contrário de ONGs ou de programas de governo, o negócio social é financeiramente autossustentável. Suas receitas cobrem seus custos e mexe com mais dimensões do ser humano do que apenas fazer dinheiro. Ao contrário do business tradicional, o negócio social não tem o objetivo de maximizar o valor para os acionistas. Tem, isto sim, significado e propósito, por isso é altamente motivador e libertador de todo o potencial criativo humano, resultando em grandes inovações.

Por que fomos buscar este exemplo do Yunus? Porque para atender às classes menos privilegiadas economicamente, que precisam fazer seus estudos superiores, não podemos ficar na dependência dos humores das equipes ministeriais que se sucedem no MEC. Até com boa vontade para tentar solucionar os problemas de financiamento, mas sem a mínima criatividade para encontrar a solução.

E, para não culpar só o Governo, o que de prático podem fazer os mantenedores e suas Associações? Será que entre as dezenas de milhares de especialistas de alto nível que atuam em suas organizações não há “gente iluminada” capaz de dar solução ao financiamento estudantil para substituir o Fies?

Neste alvorecer da terceira década do século onde a educação brasileira depende praticamente da iniciativa privada, ela para sua própria sustentabilidade vai precisar encontrar solução inovadora para que essa imensa legião de jovens que está chegando às portas das faculdades possa prosseguir seus estudos.

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Uma resposta para “Uma lenda chamada Yunus para inspirar uma solução para o Fies”

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