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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Construir a web que temos envolveu a todos nós, e agora cabe a todos nós construir a web que queremos ‘para todos’”. (T.J.B-Lee)

 Após dezenas de tentativas para criar o dirigível aéreo, realizadas nos anos iniciais do século XX, Santos Dumont foi reconhecido na Europa como o maior aeronauta do mundo e inventor do aeroplano (https://pt.wikipedia.org/wiki/14-bis).

Agosto de 1914, a França e a Alemanha estão em guerra e aviões começam a ser usados, empregando metralhadoras e lançando bombas nos combates. Foi aí que começou o pesadelo de Santos Dumont ao ver seu sonho transformado em meio assassino. Teve origem a doença nervosa que culminou com sua trágica morte anos depois.

É comum inventores se arrependeram do que criaram, dado o destino desvirtuado de suas obras que não mais podem controlar.

Está acontecendo o mesmo com o pai de uma jovem bastante ousada, o físico britânico, cientista da computação e professor do MIT, Timothy John Bernes-Lee. Ele está preocupado com a sua filha pródiga – já não tão adolescente assim, afinal completou 28 anos – e que anda aprontando.

Foi ele quem, em 1989, fez a proposta para a criação da rede mundial de computadores (www – World Wide Web) e a implantou em 25 de dezembro de 1990, com a ajuda de Robert Cailliau, e desde então ficou conhecido como “o pai da internet”.

Berners-Lee está muito preocupado com as estripulias de sua “filha”, sobretudo devido a três aspectos específicos:

  • a facilidade com que se difunde informação falsa na rede;
  • o domínio das redes sociais sobre nossas informações pessoais e
  • a ausência de qualquer regulamentação da propaganda feita por políticos na internet.

A amargura de Lee é a de que é facílimo qualquer informação deturpada se espalhar pela internet, especialmente porque está consolidada a forma das diversas plataformas distribuírem os boatos. “Assim, uma informação errônea, ou notícia falsa, pode se espalhar como incêndio florestal”, afirma.

Conceder dados pessoais ficou comum para ter acesso a serviços gratuitos online. Poucos percebem, que as grandes empresas de coleta de dados controlam essas informações. Para Lee, o efeito colateral desse armazenamento de dados é a forma como os governos “observam cada vez mais os movimentos online”.

No terceiro desafio ele aponta como a propaganda política está sendo usada de “maneira antiética” na rede e se tornou uma indústria sofisticada e direcionada, com base em enormes bancos de dados   planetários.

De lá pra cá, a moça cresceu e se emancipou. O sexagenário pai é diretor do World Wide Web Consortium (W3C) e desde 2009 supervisiona o desenvolvimento continuado da Web. O magnânimo, Berners-Lee deixou sua ideia disponível livremente, sem patente nem royalties. Escolheu não se beneficiar financeiramente de sua criação e preferiu orientar a sua vida para o acompanhamento rigoroso da sua invenção. Não se arrepende da decisão, que poderia tê-lo tornado bilionário, mas tem expressado preocupações sobre o comportamento de sua filha, aliciada por criminosos, governos e empresas, além de pessoas mal-intencionadas.

Timothy manifestou a opinião de que os provedores devem fornecer “conectividade sem restrições” e não deveriam nem controlar nem monitorar as atividades dos navegadores dos clientes sem o seu consentimento expresso. Ele defende a ideia de que a neutralidade da rede é uma espécie de direito humano.

O Grande Irmão (Big Brother) de George Orwell agora tem outro nome: Google, Facebook e Amazon, que selecionam e controlam o conteúdo a ser exibido aos internautas baseados em algoritmos que “aprendem” com a coleta de dados pessoais fornecidos – e armazenados em servidores de empresas – para ter acesso a serviços gratuitos online.

Fora do controle das pessoas, elas deixam de ter domínio direto sobre seus dados e assim não escolhem quando e com quem compartilhá-los.

Mas afinal, estar conectado o tempo todo pode ser considerado bom ou ruim? A internet é o mal ou o bem do século?

A internet trouxe mudanças gigantescas na vida dos indivíduos. E isso inclui algumas consequências desastrosas também. As redes sociais aumentaram o convívio (social-virtual) e por certo afetaram a vida das pessoas e seus relacionamentos, que no presencial se distanciaram.

O mundo está online, virtual, globalizado. Todos conectados a uma rede, com milhões de informações, entretenimento, bate-papo, chats; sites de relacionamento, jogos e lojas, ainda engatinhando no mundo das comunicações, sujeito a novidades, tempestades virtuais, hackers do bem e do mal, sequestrando informações pessoais, arrombando individualidades e privacidades de toda sorte, dos ingênuos e dos nada ingênuos.

O que ela nos reserva para os próximos 5, 10 ou 20 anos? Seremos reféns diante da tela, dentro de casa, sujeitos e expostos a todo tipo de barbárie virtual que nenhum código penal conseguirá alcançar? Como preparar o espírito e a inteligência da juventude, ávida por descobertas, a qualquer preço, a qualquer risco ainda que sob alto grau de contaminações que podem derrubar qualquer sistema ou PC doméstico, perpetrado por gente sem consciência, pudor, escrúpulo, ética ou civilidade?

Pouca gente sabe que existe uma Delegacia de Meios Eletrônicos onde trabalham hoje dezenas de investigadores e escrivães para controlar o lado de abusos da internet. Só em São Paulo, todo mês são instaurados aproximadamente 100 inquéritos, pois 70% dos crimes passam pela rede. Sempre há uma equipe de plantão para atender as cerca de 50 pessoas que aparecem lá por dia. Casos de pedofilia são prioritários, mas não são maioria, há também muita pornografia, estelionato e crimes contra a honra, que formam a maior parte das queixas.

O Facebook divulgou recentemente uma tabela com os 282 mil temas mais debatidos em toda a rede social. As palavras-chaves mais comuns, com mais de um bilhão de interações são Tecnologia; Entretenimento; Produtos eletrônicos; Compras e modas; Esportes; Redes sociais; Música e Sexo.

Não precisa ter doutorado em estatística para adivinhar que a pornografia é um dos temas mais acessados na internet, conforme informação da Revista Vip, baseada em dados compilados na revista americana The Week e pelo site francês Stimuli Curieux et Insolites:

  • 12% dos sites são pornográficos, o que em 2014 representava 76,2 milhões

  • 25% em pesquisas de busca envolvem sexo, o que representava 750 milhões de consultas diárias

  • 35% dos downloads são pornográficos

  • 8% dos e-mails enviados diariamente têm conteúdo sexual

  • 89% de toda a pornografia é criada nos EUA

  • 20% dos homens disseram que veem pornografia durante o expediente de trabalho

  • 70% dos jovens de 18 e 24 anos visitam estes sites uma vez por mês

  • Domingo é o dia preferido para a visualização

  • Uma entre quatro pessoas que entram nos sites pornôs é mulher

  • Chineses, japoneses, americanos e sul coreanos são os que mais consomem pornografia na web

  • 266 novos sites deste tipo surgem em cada dia

  • 6,7 bilhões de dólares são gerados com a webporn em 1 ano só nos EUA

Os números são alarmantes e, mesmo para não infringir a primeira preocupação do Bernes Lee, penso que se fizéssemos uma redução de 75% nos números o pai da web poderá ter o mesmo destino de Santos Dumont.

Existem muitas informações relevantes na Internet, mas as que viciam são justamente as sem valor. O que nos faz indagar sobre como o gênero humano é complicado mesmo.

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