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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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Estudo recente encomendado pela nêmese[i] do Google – o Facebook – apontou que já em nossos dias seu algoritmo é mais eficiente do que amigos, pais e cônjuges como juiz de personalidades e de comportamentos humanos. (Yuval Noah Harari)

Já citei neste espaço, por mais de uma vez, o manifesto de Mark Zuckerberg (o criador do Facebook), que descreve o futuro da humanidade. Texto impactante que busca um mundo perfeito. Um futuro sem pobreza, sem guerra, sem angústia, sem solidão. E, conforme ele, para atingir esse ideal é necessário mobilizar os bilhões de internautas que usam o Facebook.

O manifesto, se levado a profundas reflexões, pode estar sinalizando que alguns cenários serão possíveis, em breve. Pode levar 5, 10 ou mais anos, porém já é algo factível em parte. Zucker não é um visionário, ao contrário, é um astuto empresário.

Com o advento da internet, a sociedade moderna foi criando novos hábitos de relacionamento e de consumo. Inovações tecnológicas ampliaram as possibilidades de conexão, o número de dados na rede cresceu, assim como as facilidades de acesso, de produção de conteúdo e de diversidade de ideias.

Com a proliferação de dados, surgiram dispositivos para analisar e conhecer o que pensam e o que desejam os usuários da rede. Essa é a origem dos agentes inteligentes – softwares desenvolvidos para controlar os hábitos dos usuários que são cada vez mais mapeados, como se a máquina quisesse não só entregar o que procuram, mas também prever o que gostariam de fazer no futuro.

Trata-se de uma dinâmica que “empurra” conteúdos que refletem determinados gostos, em uma espécie de funil por onde só passam ideias que um algoritmo julga representar a personalidade do usuário. Cada vez mais invasivo, esse tipo de filtro procura determinar como pode se dar a utilização da rede por aqueles que participam dela.

Os algoritmos – assim como o oráculo de Delfos, o mais importante centro religioso da Grécia antiga muito procurado por pessoas que recebiam previsões sobre o futuro – são capazes de, por exemplo, saber não só as opiniões políticas de milhões de brasileiros, como também onde estão os votos críticos, brancos, nulos, indecisos e como eles podem ser “trabalhados” pelos candidatos para a balança pender para o seu lado.

E como o Facebook (mas não só ele) obtém esses dados? De graça. Entregamos nossos dados e toda nossa vida (com nossas preferências musicais, literárias, sexuais, de consumo, etc.) a esses gigantes tecnológicos em troca de serviços de e-mail, Whatsapp, vídeos engraçadinhos de animais…

Vejam o que aconteceu com o BuzzFeed que nasceu em 2006 como laboratório tecnológico para averiguar os motivos de alguns conteúdos se transformarem em virais na rede e como e por que as pessoas os compartilham. A proposta inicial do site era listar as publicações virais, aquelas que se disseminam rapidamente pela internet. Mas, em 2008, com a popularidade e enorme audiência, a direção mudou e passou a focar em criar o próprio conteúdo espelhado no que as pessoas gostavam de passar adiante.

“O que vai acontecer se as notícias, em vez de publicadas nos sites dos veículos, forem um conteúdo que faz parte da plataforma de dominação do mundo, conhecida como Facebook? Ninguém parece saber (Mark Zuckerberg provavelmente sabe, e já deve saber que vai lucrar bastante com isso). Mas, em uma visão apocalíptica de quem tem 1984 como seu livro preferido, é muito grave que uma só plataforma concentre interação com amigos, entretenimento, mídia e informação jornalística”, pondera a jornalista Cintya Feitosa em seu artigo Teoria apocalíptica sobre o jornalismo no Facebook.

Tudo isso controlado pelo poderoso e oracular algoritmo de Zuckerberg, ou seja, só serão veiculadas matérias jornalísticas que levarão em conta as análises das estatísticas de audiência.

O mundo digital é o que é – terreno novo e com potencialidades ilimitadas, para o bem e para o mal – e não há como fugir disso.

Nesse contexto, a educação tem papel fundamental, pois dentro das escolas e universidades somos capazes de influir para que se almeje um mundo melhor, formando cidadãos capacitados e aptos a usar a inteligência e a criatividade para aproveitar da melhor forma os recursos criados pelo desenvolvimento tecnológico e assim beneficiar a humanidade como um todo.

 

[i] Nêmese: rival ou adversário temível e geralmente vitorioso

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Uma resposta para “Os oráculos do século XXI”

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