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Lioudmila Batourina
Consultora de parceria internacional da ABMES
lioudmila@abmes.org.br

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Os países que hoje são líderes mundiais em educação superior já sabem que não são apenas as tendências locais que afetam a forma como operam suas instituições. Existem também inúmeros fatores externos que interferem diretamente no setor. Os especialistas listam algumas dessas “tendências globais” que devemos nos atentar. Confira quais são elas:

1 – Mudanças no mercado de trabalho e aumento da automação

Ao acabar com alguns empregos, a tecnologia exige que estudemos a vida inteira para competirmos com as máquinas. A informatização dos serviços gera mudanças drásticas e inevitáveis no mercado de trabalho e nas políticas educacionais. Isso exige mais preparação para trabalhar com máquinas e novas tecnologias. A verdade principal é que os trabalhos de baixa qualificação serão automatizados em breve.

No que se refere aos empregos de nível médio e superior a tendência é que o já estreito grupo de trabalhos altamente qualificados ficará ainda menor. Algumas instituições de alta qualidade serão ainda mais exclusivas. Os chamados empregos “qualificados pelo meio” serão preenchidos por pessoas com diplomas universitários. Muitas ocupações que exigem nível de graduação superior, como Direito, Contabilidade, TI e Jornalismo, são produzidas em excesso e não terão mais espaço no futuro.

Na Rússia, por exemplo, o Ministério da Educação emite recomendações para que as universidades com departamentos de Direito e Economia previnam a superprodução de especialistas nestes campos.

Os futuros alunos terão como desafio adaptar suas mentes a novas realidades.  Muito provavelmente, eles ocuparão vagas de trabalho técnico e qualificado como eletricistas, encanadores e cozinheiros, já que esses trabalhos são mais difíceis de automatizar. Isso significa que a maioria dos trabalhos “simples” desaparecerão, os trabalhos “médios” serão tomados por pós-graduados e, no topo, haverá apenas mentes muito brilhantes, um grupo muito estreito.

Nesse contexto, se o Brasil não investir na qualidade do ensino médio e resolver o problema de falta de oportunidades iguais para todos, milhões de pessoas permanecerão em uma pobreza assustadora.

2 – Mudanças econômicas em direção aos mercados emergentes

Dados da UNESCO mostram que a educação superior tem crescido em países de renda média, como o Brasil, e está estagnada em países de alta renda. Até 2030, 75% dos graduados globais em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática estarão concentrados nas nações pertencentes ao grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e apenas 8% deles serão dos EUA e 4% da Europa. Isso significa que os países que hoje são líderes da educação superior precisarão procurar novos modelos para atrair alunos.

Para o Brasil esse é um momento de concentrar esforços para aumentar sua competitividade mundial, investir em mais programas de mobilidade, em mais professores estrangeiros, mais qualidade de educação e professores, e mais cursos de inglês. Nos próximos dez anos o governo precisará urgentemente melhorar o ensino de línguas estrangeiras desde as primeiras séries.

3 – Distância cada vez maior entre as demandas dos empregadores e a experiência das universidades

Alunos com diplomas mas sem preparo para o mercado de trabalho é um problema global. O mundo corporativo exige cada vez mais uma formação com abordagens criativas, que deem aos estudantes habilidades de aprendizagem ao longo da vida, que incentivem o uso intensivo de tecnologia e aprendizagem mista, tudo isso para criar um ambiente em que as universidades especializadas em diferentes áreas trabalhem em um mesmo projeto, cada um com sua habilidade específica com um mesmo objetivo, ou seja, que se complementem.

A internacionalização moderna se desenvolverá em breve na “educação corporativa”. Já podemos observar os primeiros exemplos desse fenômeno na Europa. O programa ABMES Internacional, por exemplo, possui boas relações com a Universidade de Antwerpen, na Bélgica, e incentivou seus associados a se inscreverem para participar de curso de mestrado em conjunto com outras três universidades europeias. No projeto, cada um dos parceiros se concentra em sua área mais forte ao invés de aumentar a equipe para criar o curso novo individualmente. Juntos, eles preparam os alunos para as necessidades do mercado do futuro.

Uma das ferramentas para sanar esse problema é aumentar a colaboração global. A educação adquirida ao longo da vida por meio de parcerias internacionais é uma tendência essencial para o mundo de hoje, uma ferramenta para reequilibrar a economia global. A capacidade de se adaptar a diferentes ambientes ajuda a cultivar o pensamento, a vitalidade e a criatividade.

4 – Crescimento da urbanização

Com base nas tendências demográficas mundiais, as grandes cidades continuam crescendo como centros de emprego e carreira. Nesse contexto, as universidades devem assumir um papel mais crítico no processo de desenvolvimento econômico local e nas parcerias entre indústrias e instituições.

Há duas décadas, quando começamos a perceber a globalização como realidade, os defensores dos mercados locais criaram um termo “glocal” juntando os conceitos de “global + local”. O ensino superior precisa se adaptar às necessidades regionais e ao mesmo tempo ser mundialmente competitivo e trabalhar em parceria com outras universidades, ou seja, deve ser “glocal”.

Muito provavelmente, em um futuro próximo, o campus da universidade se tornará um centro, ou Hub, onde os parceiros se unirão. Neste modelo, as universidades não precisarão ter especialistas em todas as coisas, pois o Hub proporcionará um intercâmbio educacional entre elas e cada uma contará com funcionários e acadêmicos em disciplinas específicas. Os programas nacionais também podem se transformar em “educação corporativa”, da mesma forma que os programas intencionais.

5 – Imigração, mobilidade estudantil e legalização de diplomas

A maioria dos programas de mobilidade no Brasil estão desacreditados devido a inflexibilidade do processo de legalização dos diplomas estrangeiros. Em vez de torná-lo um programa governamental e assumir a responsabilidade pelas principais mudanças, o Ministério da Educação (MEC) cria medidas decorativas que atrasam o processo. Hoje em dia, o MEC deixa essa missão a cargo das universidades, mas ele deve ser o principal responsável pelos diplomas internacionais dos alunos brasileiros.

O Brasil precisa dessa mudança para ser respeitado globalmente. Políticas mais modernas precisam ser condutoras para os ofícios do MEC, pois o país precisará cada vez receber estudantes do exterior e enviar alunos para fora. O país deve antecipar o surgimento da internacionalização. Quanto mais cedo for resolvido, melhor. As medidas decorativas não ajudarão, mas só prolongarão o problema já existente.

6 – Mundo em envelhecimento e aumento de estudantes não tradicionais

Com o aumento da expectativa de vida em todo o mundo e o envelhecimento populacional, é cada vez mais comum que pessoas que antes eram consideradas “velhas” entrem no mercado de trabalho e nas universidades. Por isso, a tendência é que o modelo educacional se adapte a isso, o mundo terá cada vez estudantes “não tradicionais”.

O Relatório da OCDE “Envisioning Pathways to 2030“, de 2015, estima que em 2030 aproximadamente 137 milhões de estudantes com mais de 24 anos ingressarão nas universidades, ou seja, serão alunos com perfil diferente dos de hoje em dia, não são os jovens que acabam de sair do ensino médio.  Segundo a OCDE, os maiores fornecedores desses estudantes não tradicionais serão: China 17%; EUA, Índia 14%; Rússia 10%, Japão 6%; Brasil, Indonésia e Coreia do Sul 4%.

Esses dados dão uma missão para os líderes da educação superior em todo o mundo: eles terão que inovar e considerar formas mais criativas de atender as demandas desses estudantes “não tradicionais”. Para isso, as instituições terão que compartilhar recursos e utilizar tecnologias emergentes como cursos abertos e on-line abordagem “glocal”.

7 – Diminuição de orçamentos para instituições

Questões orçamentárias não são um problema só do Brasil. No mundo todo a educação superior enfrenta um declínio no financiamento público. Algumas universidades temem que em 2025 não haja mais financiamento governamental para o ensino superior. Ou seja, as universidades privadas, que têm habilidades e métodos de sobrevivência de aprendizagem e condições de oferecer cursos de alta qualidade, irão competir com as universidades públicas. Em troca, algumas universidades públicas terão que recorrer a instituições particulares para funcionarem e realizarem projetos.

Certamente essas mudanças provocarão o encerramento de algumas instituições públicas e irão fortalecer algumas particulares.

O Brasil ainda luta para resolver a questão da inclusão social e sofre as consequências de crises econômicas e políticas. Por isso, aprender métodos de sobrevivência é crucial para o país. No entanto, no futuro, reduzir subsídios educacionais e bolsas de estudantes podem ser o mesmo que matar.

Resumindo: como as instituições brasileiras podem se preparar para o impacto potencial das megatendências:

  • Explorar parcerias de educação transnacional;
  • Aprender as melhores abordagens e aplicá-las no cenário brasileiro;
  • Criar um novo currículo que ofereça novos cursos e programas de menor custo e de curta duração;
  • Explorar ofertas on-line do mercado global;
  • Focar o ensino no mercado de trabalho desde cedo;
  • Entregar aprendizagens ao longo da vida e credenciais focadas no trabalho;
  • Melhorar a mobilidade internacional de estudantes e funcionários;
  • Melhorar as habilidades linguísticas no país.
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