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Maria Carmen TavaresMaria Carmen Tavares Christóvão
Mestre em Gestão da Inovação e Gestora Educacional
Consultora em Inovação Educacional da Revista Linha Direta
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Nesse período em que se comemora o Dia do Professor, focalizamos nossa reflexão sobre os questionamentos referentes ao enfrentamento dos impasses da docência nos dias atuais.

Recentemente inaugurou-se a universidade 42 no Vale do Silício, em que os alunos aprendem através do ensino colaborativo e por projetos privilegiando o compartilhamento de informações entre os próprios discentes. Nesse modelo não existe, portanto, a figura do docente o que introduz no universo acadêmico novos elementos de discussão sobre o papel do professor.

A criação da universidade 42 e de outras instituições que possuem as mesmas configurações tornam a figura do professor dispensável, nos ensinando que devemos estar atentos para a mudança das dinâmicas, porque o futuro dos profissionais e das organizações depende delas.

Afinal, a tendência das universidades será a de se transformarem em espaços onde os processos não dependam da figura do docente? Ou darão ênfase na formação de um bom corpo docente acreditando que tal estratégia poderá nos ajudar na solução dos principais desafios de formação para o Século XXI?

Sabe-se que a universidade já não é o único ambiente de aprendizagem. Percebe-se também que o professor não é mais o detentor do conhecimento, mas apenas um facilitador do processo.

A partir desses enfoques se introduz novos elementos para fomentar as discussões sobre o perfil desse professor requerendo uma visão mais crítica, criativa, participativa, empreendedora, com habilidades e competências para atuar de forma dinâmica e compatível com essa nova realidade onde toda a informação necessária está disponível tornando o conhecimento cumulativo dispensável.

Por outro lado, ressalta-se que só as adaptações tecnológicas e metodológicas não são suficientes para responder aos desafios de uma ampla formação requeridas nas instituições educacionais em todo o mundo. Qualidade continua sendo o melhor plano de negócios de uma universidade.

O diferencial de um modelo de ensino dinâmico que assegure a qualidade, fomente a criatividade, propicie um ambiente de  inovação na construção do conhecimento é fruto das ações dos profissionais que as conduzem, o que inclui, obviamente, a figura do docente, portanto, professores precisam ser bons. Processos não são suficientes para garantir o êxito de uma boa formação, bons profissionais tornam-se indispensáveis quando o objetivo não é apenas a transmissão da informação.

As universidades, assim como todas as outras entidades e organizações, estão no mundo, fazem parte deste grande contexto global de mudanças. Essa é a grande visão que desponta no cenário educacional: os professores precisam se atentar para as mudanças em vez de serem conduzidos por elas.

Assim, o caminho passa pela conscientização de que o professor não é simplesmente agente de mudanças, mas um agente nas mudanças fazendo parte delas, não sendo apenas um catalisador do processo. Isso exige uma reformulação na sua prática pedagógica e na concepção da construção coletiva do conhecimento.

Se, na filosofia emergente de educação, a ação de educar pode ser concebida como meio de desenvolvimento integral do aluno, o professor deverá ser o elemento estimulador das múltiplas linguagens e inteligências, percebendo o conhecimento de forma não-linear, haja vista que a construção do conhecimento não mais se dá de forma linear. Esse é um dos aspectos observado nas universidades que aboliram a figura do professor.

Se visto como agente formador da consciência crítica, terá, antes de tudo, de se dar tratamento crítico diante de suas práticas e posturas junto ao alunado. Lembro ainda que, no ambiente da escola conservadora, o compromisso maior do professor era com o trabalho em si, com a transmissão da informação, não com seu resultado. O professor tinha que se debruçar sobre um conhecimento cumulativo para transmiti-lo, e não pensar sobre sua prática. Refletir na ação, estimular a criatividade, perseguir a inovação através de vivências, experimentações, aplicações práticas e investimento no relacionamento humano. Esses são trunfos relevantes para sustentar a ação docente.

Nesse novo contexto, a preocupação com a formação permanente do educador deve, em sua ação mais específica, conseguir que todo o grupo se comprometa com a qualidade e com os objetivos de uma educação contemporânea. Dispor de capital humano altamente qualificado faz com que toda instituição tenha o desejo de investir em programas de educação continuada com o objetivo de formularem soluções sistêmicas para os complexos problemas da docência no Século XXI.

Cabe, portanto, aos docentes e IES acompanharem o passo histórico. Com as instituições fica o dever de estabelecer programas de educação continuada, ressaltando a sua importância para o mundo atual que se reconfigura. Além disso, terá de envolver o docente na formulação dos objetivos de desenvolvimento e nas formas de atingi-los.

A formulação de estratégias para essa capacitação é um grande desafio. É responsabilidade dos bons gestores garantirem que a implementação de ações coerentes com as estratégias tenha significado. Propor mudanças num contexto criativo, descortinar uma nova maneira de pensar a profissão, gerar no grupo a sua visão, o seu sonho, a sua forma de caminhar‚ mais do que treinar, desenvolver ou capacitar, é conscientizar que a qualidade de que tanto falamos está situada na relação entre o homem e o mundo. Quero dizer que ela não está centrada nem no homem nem nos objetos, mas se apresenta como mediadora em todos os âmbitos na vida do homem e do educador, cobrando-lhe continuamente uma atitude de coerência e respeito em todos os seus atos de inter-relação com os outros homens e com o mundo.

O mandato da IES será, portanto, promover uma cultura que mantenha clara a visão de todos os colaboradores, entre eles, o corpo docente, que nessa semana homenageamos, mesmo que muitas vezes sejam inspirados a se engajar em propostas que ainda não possam vislumbrar. Uma cultura que sobreviva aos fundadores das instituições, possibilitando que as universidades continuem a formar com excelência, docentes e discentes, contribuindo de forma positiva para o mundo em mudanças.

Ainda que as instituições cumpram o seu papel o problema da apropriação do conhecimento não está resolvido, tanto em modelos onde existe a figura do docente como nos que a aprendizagem se dá por metodologias elaboradas para o trabalho com os pares (alunado). Em ambas as situações a visão sistêmica e a abordagem interdisciplinar apontam numa direção mais assertiva e permeável aos novos modos e ritmos de apropriação do conhecimento.

O docente de hoje é levado a entender que sua formação se deu numa sociedade em que o conhecimento humano possuía uma dinâmica essencialmente cumulativa. Com o avanço da Ciência e da Tecnologia existe uma dinâmica própria, que caracteriza a evolução do conhecimento. A obsolescência deixou de ser um acidente, e passou a ser um fato esperado, e até programado. Isso vale para produtos, serviços, instituições e até profissões, o que nos levará a um processo contínuo de renovação cognitiva, conhecido como educação continuada, em que o docente renovará seus conhecimentos ao longo da carreira.

Enfim, a ênfase abrange uma preparação voltada para o enfrentamento de novos desafios, e não num conhecimento cumulativo para ser aplicado em situações repetitivas.

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12 Respostas para “Desafios da docência no século XXI”

  • Prof.Adilson Benevides says:

    Parabéns Profa. Carmen,

    Com clarividência rara nos brindou com um texto visionário para o Ensino Superior e o papel do professor na era da informação. Confesso que não sabia da inauguração da Universidade 42 e sua metodologia inovadora, o que, nos desafia a como voce abordou buscar mesclar qualidade, metodologia focada em desenvolvimento e resultados para pratica estudabtil responder a altura as mudanças que você acertadamente aponta como tendência em nossa profissão!

     
  • Prof. MSc Marcio Casarotti says:

    Parabéns Carmen, sua visão sempre adiciona um pensamento de expansão da compreensão desses fenômenos. Tenho para mim que os novos contextos e inovaçoes não deveriam prescindir da atuaçao dos professores, mas estes agora com novos papeis, atuando nas interfaces, facilitadores da aprendizagem nas lavras contemporaneas do saber experienciado. O tema é amplo e, porisso, instigante. Continue trazendo suas reflexões ao debate. Abs.

     
  • Rafael Ribeiro says:

    Ótimo, a atualização é essencial, com o avanço da tecnologia cada dia mais forte deve-se ter um pensamento nesse nível porém com os bons costumes do bom educador, um educador completo e bem capacitado, parabéns.

     
  • Desde a década de oitenta temos repetido você, Maria Carmen, “… a visão sistêmica e a abordagem interdisciplinar apontam numa direção mais assertiva e permeável aos novos modos e ritmos de apropriação do conhecimento.” Os cartórios das profissões, reservas de mercado, o perecimento de ocupações, estão aí e muitos seguem “preparando” para mercado de emprego que não existe.

     
  • Elma Nogueira says:

    Parabéns Maria Carmem, você sempre trazendo pontos importantes para a nossa reflexão.

     
  • Carlos Ataides says:

    Excelente o discernimento como gestora de organizacao de ensino O momento atual do mundo e das pessoas e como nunca foi no tempo passado. Ainda que verdades nao variam, as acoes humanas que gravitam em torno delas variam, e o ensino tem mesmo que se moldar as novas acoes, porem com o compromisso de continuar defendendo as verdades imutaveis.
    Uma escola cujos gestores se aprimoram as tecnologias novas, mas preservam as verdades antigas, e o que de melhor pode haver.
    Gostaria que todos os gestores fossem guardioes das verdades antigas e das acoes modernas, isso geraria discipulos habeis, mas nao convertidos e nem coniventes com uma “nova” verdade que faz a humanidade ser pior.

     
  • Paulo Urbano Avila says:

    Parabéns pelo artigo !
    Parabéns pelo dia do Professor ( 15-10-17)

     
  • Rosa Maria Fordiani Garcia says:

    Muito bom e pertinente o artigo.
    O professor mesmo que seja a distancia sempre sera um facilitador do aprendizado.

     
  • Miguel Angelo Hemzo says:

    Oi, nao vejo um futuro sem professores. O perfil do professor muda, por exemplo já nao se usa palmatoria, mas sem alguem que filtre conhecimento de qualidade nao vai haver educacao. O modelo que tanto falam propoe tirar o prof e fazer pesquisa na internet, o que nao faz sentido. E dos alunos irem buscar o conhecimento por si proprios. Vao gastar tempo para reinventar a roda. Prefiro outro caminho, onde se criem metas e metricas de resultados para alunos e professores, e controles dos gastos, e sejam valorizados os bons professores e os bons diretores.

     
  • Kelley soares says:

    Parabéns! Muito bom e forte!

     
  • Edvaldo Gomes says:

    Professoa Maria Carmen é uma pessoa portadora de uma mente brilhante na área de educação,tem um potencial imaginário e uma que muito pode contribuir para a educação no Brasil é exterior

     
  • Prof. Dr. Antonio Oliveira says:

    Muito pertinente o artigo e a evolução da profissão docente é algo que precisamos refletir.

     

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