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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Se você pensar na universidade atual, logo vai pensar nas estruturas rígidas que fazem parte da rotina acadêmica: a ideia de classe, de curso, de disciplinas, de crédito, de departamentos. No entanto, nenhuma delas é algo real. O que é real são os alunos. O conhecimento das coisas é real. Ser capaz de fazê-las também é algo real. As pessoas, no futuro, vão encontrar formas alternativas de ensinar essas coisas. É a partir desse processo que o disruptivo aparecerá” (do guru da internet Clay Shirky)

No meu último artigo para o blog da ABMES, “O Desafio da modernização dos currículos universitários”, expus a preocupação com a realidade da educação superior. O tema atraiu a atenção de leitores amigos, que, em suas observações, mostraram ser importante tratar a questão com mais profundidade.

Destaco alguns aspectos das mensagens recebidas, que podem ser conferidas na íntegra nos comentários ao artigo (clique aqui para acessar). Segundo Thiago Dantas, “é um tema delicado que poucos dão atenção e está relacionado à própria sustentabilidade do Setor” A profa. Cecília Anderlini comenta que, mesmo estando às voltas com o as decisões dos órgãos regulatórios, as instituições ainda encontram espaços para com criatividade, envolver seus alunos em projetos escolhidos. A profa. Mirian Nere enfatizou que estudantes de todos os níveis precisam também ser ouvidos, mas, no fim, o mais importante é a preparação dos professores. O prof. Paulo Vadas diz que o desenvolvimento de competências socio-emocionais é pertinente, relevante e vai ao encontro das necessidades do mundo real. Estamos falando das competências pessoais (refletivas, comportamentais, decisórias), socioculturais (valorativas, reflexivas, relacionais) e profissionais (performativas). O prof. Raulino Tramontin (5) relaciona mais de 20 itens que, em síntese, dizem:

“O mundo mudou, a tecnologia mudou, as empresas se modernizaram em seus processos produtivos, tudo se tornou virtual, automático, nano e nós continuamos presos a um sistema tradicional que preserva a burocracia e o poder, O sistema está esgotado como um todo e o pior é que o ensino público demonstra uma fragilidade, um corporativismo atávico perigoso que apenas consome recursos e não se renova, não se reimagina e não se reestrutura”.

Fora estas questões, há a concorrência pouco ética entre instituições educacionais, como vemos com frequência. Isso mostra que, embora essencial, a captação de matrículas não pode ser o único objetivo empresarial. Bom projeto educacional também  atrai alunos.

Planeta em transformação exponencial exige que novas abordagens sobre o desenvolvimento do sistema empresarial e de seus impactos na vida das pessoas sejam analisadas. Capacitação para o trabalho do futuro é tema relevante, discutido na semana passada, no Fórum Econômico Mundial 2018, em Davos.

Andrew McAfee, pesquisador do Centro de Negócios Digitais do MIT, aponta as três tendências modernas que estão transformando a humanidade: o avanço da inteligência artificial, o poder das plataformas de negócios e as implicações em rede. Tudo é novo e se move com velocidade incrível, sem querer saber de governos e de espaços geográficos.

Estudo da consultoria McKinsey aponta que no mundo entre 400 milhões e 800 milhões serão afetados pela automação até 2030, a depender do rito de avanço tecnológico. Só no Brasil, o impacto será em 15,7 milhões de trabalhadores.

A consultoria International Data Corporation (IDC) prevê que em 2020 mais de 75% do valor das empresas americanas virá de ativos intangíveis, como plataformas digitais.

O problema é de todos, cita o Prof. José Pastore em seu artigo “Como será o trabalho do futuro?”,  publicado no Estadão de 25/01.

“A preocupação é geral. Multiplicam-se os estudos que antecipam uma grande destruição de empregos e de renda, em decorrência da automação e da inteligência artificial na execução não apenas nas tarefas repetitivas, mas também das intelectuais e mesmo das emocionais”.

Lembro que, há dez anos, conversando com um RH de uma das maiores agências recrutadoras, ele dizia que inicialmente as escolhas de recém-formados era baseada no preço das mensalidades das faculdades. Seria lógico que as de maior preço deteriam os estudantes de melhor qualificação, devido à proveniência social. Só que mais tarde perceberam que os alunos oriundos das faculdades mais baratas tinham mais determinação. Eram mais colaborativos e queriam vencer na vida. Assim, passaram a escolhe-los.

Última novidade, o “Recrutamento às cegas” começa a ganhar espaço nas empresas que procuram alto rendimento e uma maior diversidade no quadro de pessoal. A seleção é feita sem necessidade de informações como gênero, idade, cor da pele, estado civil e formação profissional. O que interessa é conhecer suas competências no trabalho efetivamente realizados e como reage socio-emocionalmente com os desafios e com as pessoas. O diploma está com os dias contados.

A educação formal não vai resistir assim como está. O maior problema é a burocratização que engessa o sistema, porém, por outro lado, também protege as instituições de ensino superior (IES). O mais importante tem sido seguir a regras regulamentadoras com o foco principal na sustentabilidade das IES. Em razão disto, os alunos não conseguem enxergar mais a relevância ou a pertinência da instituição. Principalmente porque as IES mantêm um só modelo, defasado, que não atende a individualidade de cada um e o diferencial que cada aluno quer desenvolver.

O grande desafio do setor é perceber que não há mais tempo a perder. Tudo que escrevemos diz respeito a um posicionamento que precisa ser tomado por suas entidades representativas. Nossa atividade está em perigo e não vai ser o MEC que vai resolver.

Há uma nova realidade em andamento que mexe com os países, com a tecnologia, com a economia, com as empresas, com as instituições educacionais, com os professores, com os trabalhadores e com os estudantes e que precisa ser compartilhada por todos, na busca de soluções.

O sistema universitário como conhecemos até agora está com os dias contados. Não vai ser um artigo como o nosso que vai pretender dar soluções, um manual, ou um livro. Além disso, num país de extensão territorial como o nosso, onde a burocracia docente tem um poder associativo considerável, vai ser um trabalho insano persuadi-los de que a comunicação educacional terá de se adaptar aos novos tempos. É necessário compartilhar vivências e intercambiar informações. Observar sem atitude as mudanças que estão ocorrendo, de braços cruzados, será o fim de nossa atividade. E a atitude precisa partir de cada um de nós, pois certamente preocupados com o futuro é que os governantes não estão.

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4 Respostas para “A formação educacional e o trabalho no futuro”

  • Sofia Leite says:

    Prof. Gabriel, seu artigo está excelente. Um chacoalhão no setor, que está imóvel enquanto o mundo está evoluindo em velocidade exponencial.

    A minha visão enquanto professora é que as preocupações são as mesmas de 15 anos atrás: redução de carga-horária docente, por conta do custo direto; escalar usando EAD e substituindo professores por tutores; forte investimento em conteúdos (materiais didáticos) para as disciplinas EAD (como se não houvesse abundância de informações no google); atividades e avaliações sem objetivos sobre o que realmente se quer avaliar, somente uma mera repetição de conteúdos.

    Enfim, a transformação de fato acontece em sala de aula, quando professores engajados, acreditam que podem inspirar e motivar seus alunos a descobrirem seu talento e potencial.

    Por mais que seja difícil e penoso investir no professor, não acredito em grandes mudanças sem passar por essa etapa. Mesmo por que a tecnologia não vai substituir o valor humano das interações e do relacionamento social, tão presentes como condição da aprendizagem humana.

    Se o senhor puder, veja no netflix a entrevista do Barack Obama no programa do David Letterman. É emocionante, como ele fala que as nações devem investir em uma nova geração de jovens líderes e o quanto o valor do coletivo pode realmente transformar uma cultura limitada de pensar e agir.

    http://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/critica/noticia/2018/01/imperdivel-entrevista-de-barack-obama-david-letterman.html

    Por fim, seguem algumas questões para reflexão:

    Como educar as crianças para um futuro ambíguo de mudanças profundas? Somente investir em tecnologia será suficiente?

    Como as novas tecnologias impactarão o que precisamos aprender, bem como a forma como a aprendemos?

    O conhecimento é redundante em uma era de acesso constante à internet? Como agregar valor e qualificar a experiência educacional?

    Será possível a AI criar tutores pessoais para todos? A inovação, a criatividade e o empreendedorismo podem se juntar as ciências humanas e exatas como fundamentos curriculares?

     
  • O artigo do prof. Gabriel toca em diversos pontos incrivelmente sensíveis. Atrevo-me a colaborar enfatizando a afirmação de que o diploma está com os dias contados, especialmente se os profissionais e instituições da área educacional não se dispuseram a criar, ou incorporar, velozmente, novos modelos de ensino / aprendizagem (que recuperem relevância) e novos modelos de negócio (que consigam fazer frente às demandas de um aluno / consumidor / mercado muito distintos).
    E, especialmente sobre a criatividade, já que essa é área em que mais atuei como professor, faço questão de lembrar: ser criativo é incorporar processos de pensamento e formas de comportamento que facilitem a geração de ideias novas, não usuais. Isso certamente pode ser ensinado. Mas ser inovador é fazer com que ideias se transformem em produtos, serviços, processos, etc…, tenham aplicação prática e se sustentem conceitual e financeiramente.
    Todos falam que o povo brasileiro é criativo (concordo) mas para que o Brasil fosse um país inovador, precisaríamos: de um sistema educacional de alta qualidade, desde a primeira infância até a pós-graduação; de um modelo de pesquisa acadêmica em que a aplicação prática de dissertações e teses não fosse mal vista; de investimentos vultuosos, governamentais e privados, no desenvolvimento tecnológico intensivo; de muito menos burocracia no processo de abertura e operação de empresas e de muito mais ecossistemas de inovação organizados formalmente.
    Em outras palavras, de um projeto nacional e estratégico, apoiado pela esfera política, pelas instituições privadas e pela sociedade civil.
    Não podemos achar que o crowdfunding vai ser suficiente para que os empreendedores brasileiros aumentem sua taxa de sucesso em projetos inovadores… E não podemos continuar esperando pelo Brasil do futuro.
    Como não poderia deixar de ser, a imagem de um futuro mais próspero em nosso país só pode ser devidamente pintada pela cores da aquarela da educação e pelo uso sistemático dos pinceis da criatividade que gera inovação.

     
  • Wandy Cavalheiro says:

    Muito coerente esta percepção. A Folha de SP no domingo passado publicou uma excelente matéria dizendo que as empresas estão priorizando as competências sócio emocionais.
    Porém poucas IES ( ou quase nenhuma) estão preocupadas em desenvolver estas competências em seus alunos.
    Como Headhunter as próprias IES me pedem um profissional com comportamento muito equilibrado, que saiba liderar e não criar conflitos enfim bem resolvido emocionalmente, em vagas até de reitores, mas prepara-los ja é outra conversa.

     
  • Wandy Cavalheiro says:

    Muito boa a reflexão
    No domingo retrasado a Folha de SP também comentou que para contratação pesam mais as competências sócio emocionais.
    Muito poucas instituições (ou quase nenhuma) estão preocupadas em desenvolver estas competências em seus alunos.
    O mundo mudou e posso testemunhar como headhunter que muitas IES pedem um profissional com excelente equilíbrio emocional como primeiro pré requisito na hora de contratar até para uma vaga de reitor.Porém esta mesma IES não está formando este profissional.

     

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