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Paulo VadasPaul Ivan Vadas
Editor educacional do jornal online Brazil Monitor
Professor, palestrante, escritor e consultor em educação para instituições de ensino superior no Brasil e nos EUA
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A educação formal não vai resistir assim como está. O maior problema, além da burocratização que engessa os dirigentes (culpa deles mesmo), é que os alunos não conseguem enxergar a relevância e/ou a pertinência da IES, principalmente porque elas mantêm um modelo antiquado, que não atende à individualidade de cada um e, portanto, não atende o diferencial que cada aluno é, e que quer desenvolver.

Há que se desenvolver um modelo educacional individualizado que, acredito, poderá ir ao encontro das expectativas dessa nova geração digitalizada e, ao mesmo tempo, atender os mandos constitucionais (Art. 205) que declaram que os objetivos da educação são:

  1. Pleno desenvolvimento da PESSOA;
  2. Preparo para o exercício da CIDADANIA; e
  3. Qualificação para o TRABALHO.

Como esperar relevância e pertinência na educação formal quando, dos três objetivos educacionais, somente o terceiro é atendido e, mesmo assim, de forma precária?

Se as IES pretendem atrair e MANTER alunos, há que se preocupar não só com o que o aluno precisa aprender, mas, e principalmente, com o que ele quer aprender. Há que se preocupar com os talentos diferenciados que cada um tem a oferecer. Há que se preocupar com o pleno desenvolvimento da pessoa e do cidadão e não só com a qualificação para o trabalho.

Se as IES pretendem atingir os mandos constitucionais e, ao mesmo tempo, começar um processo de resolver os graves problemas da sociedade brasileira, principalmente no que tange à eliminação da corrupção e da ineficiência dos serviços públicos, há que se preocupar com a formação do cidadão (nesse sentido, sugiro leitura da entrevista do ex-procurador italiano Rafaelle Cantone “Punir políticos, sem mudar cultura, não transforma, diz czar anticorrupção da Itália”.

Cidadania não se exerce exclusivamente no ato de votar. O ato de votar é somente um resultado de todo um processo de consciência política. O exercício da cidadania se dá no dia-a-dia. Se manifesta, entre outros fatores, no pagamento dos impostos, na participação em movimentos públicos, na participação em partidos políticos, na responsabilidade cívica e social, no comportamento moral e ético, na atualização diária sobre as questões políticas/culturais/econômicas da comunidade e do país, na vigilância e cobrança constante dos representantes (mas como cobrar se o indivíduo não entende quais as funções dos vereadores, dos prefeitos, dos deputados estaduais, dos governadores, dos secretários, dos deputados federais, dos senadores, dos ministros, do presidente, dos juízes nas suas várias instâncias, da administração pública nos seus vários níveis?).

Mais do que preparar para o exercício da cidadania, porque não preparar as pessoas para se tornarem líderes políticos? O Brasil carece de lideranças políticas profissionalizadas. As IES se preocupam em formar administradores de empresas, mas não se preocupam em formarem administradores públicos, quer seja para cargos eletivos, quer seja para cargos de carreira na administração pública. O resultado aí está: péssima qualidade do setor publico-eletivo, com cargos preenchidos por políticos mau-caráter, e péssima qualidade dos serviços no setor publico-administrativo, com cargos preenchidos, em geral, por “profissionais” mal preparados, que passaram por concursos públicos os quais, em muitos casos, nada tem a ver com suas respectivas formações acadêmicas, e que só buscam a estabilidade de emprego e o seguro médico garantido, e não se preocupam com os cidadãos que pagam seus salários.

Finalmente, em se tratando da qualificação para o trabalho, as escolas devem se preocupar com o que chamo de “Visão 2020”: o desenvolvimento de um projeto educacional para a década dos 20 que se aproxima. Elas devem parar de ensinar hoje as/os profissionais do amanhã com os saberes de ontem, e antever o futuro no sentido de ensinar hoje as/os profissionais do amanhã com os saberes do depois de amanhã. Esse desafio só será atingido quando as escolas desenvolverem (como as grandes empresas) um setor próprio de pesquisa e desenvolvimento. Quando se preocuparem, realmente, em sair na frente e não em ficar a reboque do conhecimento.

Quantas escolas você conhece que se preocupam em estudar o futuro? Quantas escolas estão realmente preocupadas com quais serão as futuras profissões? Quantas escolas estão seriamente buscando não só utilizar o estado-da-arte em tecnologia educacional (benchmark) como também desenvolverem, elas próprias, novas tecnologias como diferencial competitivo? Nesse sentido, no Brasil reina o velho ditado: “Aqui nada se cria. Tudo se copia”.

Como se tornar relevante e pertinente quando o que as escolas ensinam já não tem valor? Como manter um aluno que não se sente diferenciado pessoalmente em uma sala de aula e que não vê retorno sobre seu investimento para receber um diploma cada vez menos valorizado? Quantas escolas estão realmente preocupadas com o sucesso de cada um dos seus estudantes, individualmente?

Vivemos em um mundo onde as mudanças são exponenciais. Porém, há mais de 7000 (sete mil) anos, as escolas pararam no tempo e mantém o mesmo modelo que, no antigo Egito, foi elaborado para treinar escribas.

Como despertar o interesse da população para um estudo formal, estático, defasado e cujo prestigio está em decadência no mundo inteiro, por inúmeros fatores, inclusive os expostos acima?

Em estudo realizado para o MEC no início deste século, Cristovam Buarque, o então ministro da educação já declarava:

“Um diploma tinha a validade de pelo menos o tempo de uma vida profissional e, muitas vezes, uma validade ainda mais longa. Essa situação mudou radicalmente. A velocidade atual do avanço do conhecimento não permite que um ex-aluno permaneça preparado, a não ser que ele se atualize constantemente” (Cristovam Buarque Brasília, novembro de 2003, a universidade numa encruzilhada – Portal do MEC)

No momento em que o diploma só serve para indicar há quanto tempo o aprendiz está desatualizado, está na hora romper com o passado e de reinventar o setor educacional formal. A reforma da educação formal passa, necessariamente, pela abolição do diploma enquanto formação final e a adoção de certificações periódicas de competências que reflitam a transformação e atualização continuada do aprendiz e que aceite o princípio que a educação, pela sua própria natureza e por definição, formal e/ou informal, é um processo contínuo que se inicia na concepção da vida e termina na morte do indivíduo.

Os dirigentes educacionais devem parar de culpar o governo e, em seu lugar, assumir seus direitos constitucionais e desenvolverem seus próprios projetos curriculares e seus próprios modelos didático/pedagógicos/metodológicos no sentido de se tornarem pertinentes e relevantes para cada estudante, cada cidadão, e cada profissional.

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Uma resposta para “Visão 2020: um novo modelo educacional formal para a década que se aproxima”

  • Paul, impressionante como os seus textos traduzem o que compartilho.

    De fato nosso setor carece de lideranças que busquem estudar o futuro e colocar em prática o tripé constitucional trazido pela constituição.

    O ato de ensinar no ensino superior hoje é completamente voltado para a técnica e também a busca dos alunos têm sido tão somente o resultado financeiro da “profissão” escolhida.

    Para que possamos atingir um nível criativo diferenciado, necessitamos buscar atingir no aluno um nível de consciência diferenciado, em que o propósito de vida seja colocado como eixo central e seus conteúdos sejam escolhidos baseados em sua trama de vida.

    Obrigado por compartilhar seu conhecimento, sempre de grande relevância para dirigentes de IES!

    Forte abraço!

     

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