Destaques
Facebook
Twitter
Print Friendly, PDF & Email

Sólon Hormidas Caldas*
Diretor Executivo da ABMES – Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior
***

Dez anos. 3.652 rotações da Terra ao redor do próprio eixo e incontáveis acontecimentos nos separam daquele 1º de março de 2008. O país não é o mesmo, a ABMES não é a mesma e, tampouco, eu sou o mesmo.

O desembarque na Associação não aconteceu do nada, embora não possa dizer que tenha sido estrategicamente calculado. Um anúncio no jornal, o envio do currículo e a chamada para entrevista. Até aí, nada destoa dos roteiros tradicionais de busca por uma colocação no mercado de trabalho.

Embora o universo da educação superior não fosse novidade, não poderia haver desafio mais motivador do que o de participar ativamente da gestão da principal entidade representativa do setor no Brasil. Era a oportunidade de poder contribuir, ainda que de forma modesta, para o desenvolvimento da educação brasileira.

Àquela altura, eu não poderia imaginar que entre a entrevista e a contratação iriam transcorrer doze meses. Um ano contado no calendário entre conversas, testes e novas entrevistas. Tempo. Muito tempo para alguns, tempo necessário para outros. Tempo de amadurecimento, de conhecimento e de reconhecimento. Tempo de identificação da reciprocidade: a ABMES precisava de mim, mas eu também precisava da ABMES para poder dar a minha contribuição.

Há dez anos, quando essa história começou, o país tinha pouco mais de 5 milhões de alunos em cursos de graduação, sendo 3,9 milhões em instituições particulares de educação superior. Hoje, são mais de 8 milhões de estudantes, sendo 6 milhões em universidades, centros universitários e faculdades particulares. Embora em números absolutos tenha ocorrido um crescimento de quase 60% na quantidade de discentes, a percepção é de que boa parte das pautas relacionadas à educação superior ficaram travadas – ou tiveram pequenas modificações e/ou evoluções – ao longo da última década.

Em que pesem iniciativas relevantes para o fortalecimento da educação superior no Brasil, como a criação do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, em abril de 2008, e do Congresso Brasileiro da Educação Superior Particular, em novembro do mesmo ano, construções com as quais tive a honra de colaborar e de me dedicar nos últimos dez anos, o país ainda tem muito a evoluir em questões como a ampliação da escolarização e a formação de profissionais qualificados capazes de atender às necessidades de um mercado de trabalho cada vez mais em transformação.

Não é segredo que o crescimento verificado nos últimos anos foi impulsionado, sobretudo, por políticas públicas como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (ProUni). No entanto, com a reformulação ocorrida no Fies no final de 2017, em que o caráter social do programa foi substituído por uma vertente essencialmente econômica, é difícil prever aumento semelhante no número de universitários para os próximos dez anos.

Recordo da reunião ocorrida em 2010 com o então ministro da Educação, Fernando Haddad, quando foi alterada a lógica de expansão do Fies. A política estabelecida naquele momento chegou a permitir o acesso de mais de 700 mil jovens à educação superior em um único ano. Para 2018, a oferta de financiamento público foi restringida a 100 mil vagas. Talvez não seja necessário aguardar uma década para sentir os efeitos dessa medida. Talvez as próprias instituições particulares de ensino sejam protagonistas na busca por alternativas capazes de viabilizar o acesso de estudantes de baixa renda à graduação. Talvez o cenário mude no próximo ano ou em 2020, quem sabe? Afinal, a cada novo governo tudo pode mudar já que nos falta uma política de Estado para a área.

No momento, uma das poucas certezas é a de que estamos cada vez mais distantes das metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE). O debate sobre acesso à educação superior que existia lá atrás, nos idos de 2008, é um exemplo claro de quanto ainda estamos presos a algumas questões e como os desafios para o setor são recorrentes.

Entretanto, se por um lado parcela significativa das reivindicações relacionadas ao universo da educação superior persiste em girar ao redor de eixos quase estáticos, por outro, em um contexto mais próximo, nos últimos dez anos foram vivenciadas profundas e intensas transformações. A ABMES cresceu. O sonho antigo da sede própria foi concretizado e, hoje, a instituição possui um espaço adequado às necessidades da sua equipe e dos seus associados.

A Associação ampliou em tamanho físico, mas também em relevância para o setor. Aumentaram os projetos, a incidência nas esferas política e acadêmica, além de terem sido ultrapassadas divisas e fronteiras. Cada vez mais, a ABMES está se tornando reconhecida nacional e internacionalmente como um ator estratégico para o fortalecimento da educação superior no Brasil, em especial da educação superior particular.

A construção dessa realidade vivenciada hoje é resultado do trabalho árduo realizado a muitas mãos. E fazer parte dessa história é o que me faz olhar para trás e ver o quanto aquela espera inicial e o quanto cada esforço empreendido valeram a pena.

Se por um lado ainda não temos a educação superior que almejamos, por outro temos a convicção de estarmos empenhando todos os esforços para chegarmos lá. Não é uma jornada simples, tendo em vista que existem problemas estruturais que precisam ser sanados, mas não nos faltam o ânimo e a coragem para trabalhar intensamente na construção do país que precisamos e desejamos.

Desde aquele 1º de março de 2008, tivemos três presidentes da República, seis ministros da Educação e inúmeros decretos, portarias e leis que alteraram completamente a regulamentação do setor. Onde chegamos? Quanto evoluímos? Por onde caminhamos? Esta é uma análise que poucas linhas não permitem esgotar. Além disso, nem mesmo muitos fios de cabelos brancos a mais e toda a experiência acumulada me credenciam para tal veredito.

No entanto, ao fazer o balanço de uma década dedicada ao fortalecimento da educação superior no Brasil, percebo quantas conquistas temos a celebrar e quantos desafios ainda precisamos enfrentar. Por ora, resta a convicção de que ainda há muito para contribuir com a concretização das transformações que o país necessita. Afinal, 2028 daqui a pouco bate à porta. E quando ele chegar, onde queremos estar?

Compartilhe:
Avaliar

2 Respostas para “Uma vida em dez anos”

  • Cecília Horta says:

    Querido amigo Sólon,

    A sua experiência como professor na área do ensino superior e sua vocação nata para a área de administração, ao lado de outros fatores, embasaram e explicam o sucesso do seu trabalho na ABMES. Dotado de bom senso, perspicácia, talento, competência e coragem, você soube como ninguém transferir conhecimentos para enfrentar os novos desafios. Ampliou seu horizonte intelectual na área do ensino superior, fundamentou e fortaleceu o seu discurso e tornou-se respeitado pelos dirigentes, associados e pelos membros de sua valorosa equipe técnica.

    Com a sua importante contribuição e reconhecido valor frente à Diretoria Executiva — neste momento sombrio pelo qual atravessa o nosso país, em que a população brasileira e os setores organizados da sociedade se veem diariamente aviltados e desrespeitados — a ABMES continuará a iluminar e apontar caminhos para o fortalecimento do ensino superior privado e para o desenvolvimento do País .
    Abraços
    Cecilia

     
  • . Carmen Hormidas Caldas. says:

    Parabéns filho.

     

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics
Página 1 de 11