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wanda_camargoWanda Camargo
Educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil
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“As mina pira”. Esta frase é um prodígio: consegue em três palavras ser machista, sexista e afrontar a gramática. “Mina” era como malandros exploradores de mulheres as chamavam, pois delas vinha o seu ouro fácil. E o contexto da música é convite para uma festa em que todos se embriagam, usam drogas e muitas vezes perdem a noção da realidade.

Os anos 1960 vão longe, os anticoncepcionais, a liberação sexual, o início da libertação feminina, os costumes menos travados, a quase igualdade de direitos entre mulheres e homens. Seria de esperar, não fora um excesso de otimismo, que os homens da geração atual estivessem menos inseguros em suas relações afetivas, e que as mulheres não aceitassem mais ser tratadas como objetos, “minas”, “cachorras”, “preparadas”.

Infelizmente, em tempo de mulheres assertivas e independentes, e ao lado de movimentos essenciais para a conquista e sedimentação de respeito como o “Meu corpo, minhas regras” e o “Me too”, muitas mulheres ainda parecem acreditar que apenas abrindo mão de sua dignidade serão aceitas e até, quem sabe, amadas.

Com tantos marginais em posição privilegiada e de poder não é de admirar que nas últimas décadas o mundo tenha assumido uma espécie de estética do marginal. Roupas rasgadas e com aparência de sujas, maquiagens borradas, tatuagens exageradas, comportamentos e músicas pretensamente agressivos. Tudo compondo um arco que começa com a “geração perdida” e os beatniks, passa pelo punk-rock, o Rap e todos os movimentos decorrentes. Na verdade, o prejuízo social é praticamente inexistente e após a estranheza inicial, muito disso é interessante e até agradável.

O perigoso é que existem os marginais de verdade debaixo desta capa de aparências, aqueles para quem o “no future” é uma realidade, que estão mergulhados na desesperança, na falta de opções, nas drogas e na violência. E neste mundo, mulheres têm papel de enfeites de baile e troféus de bandidos.

Um dos princípios aceitáveis do politicamente correto é a declaração de que o respeito começa na fala; exageros à parte, se nos habituamos a tratar pessoas com rótulos depreciativos acabaremos por deprecia-las de fato. Porém, inaceitável é a ideia de que toda crítica é, em si, preconceituosa; e não pode ser real que toda minoria tenha necessariamente o monopólio da verdade.

Há grandes músicas brasileiras em que a letra não obedece à chamada norma culta, a liberdade literária e artística é uma realidade significativa, é respeitável que algumas manifestações, orais ou escritas se aproximem mais do coloquial, da forma falada, e nem sempre sigam o cânone.

No entanto, o apreço por um maior rigor é extremamente importante, cultivar as plenas potencialidades de cada idioma preserva a cultura de um povo não apenas no momentâneo, mas também naquilo que tem de atemporal, que deve ser transmitido às futuras gerações como legado, os valores de cada época que sobreviverão ao tempo.

Uma das atribuições do sistema escolar é exatamente esta, função que tem sido desempenhada ao longo das últimas centenas de anos com aparente sucesso; os idiomas estão, e devem estar, em permanente construção e reconstrução, dentro de certos limites razoáveis: se a linguagem fosse completamente alterada a cada geração, como conheceríamos as obras dos gregos, tragédias e comédias que nos contam tanto a respeito de nós mesmos, quase precursoras do que hoje denominamos psicanálise, como apreciaríamos as obras de Shakespeare, Machado de Assis e outros tantos? O próprio legado científico, embora em grande parte transmitido numa espécie de língua universal, a matemática, também depende de que nos entendamos uns aos outros ao longo de décadas ou mesmo milhares de anos.

Formalidades ou informalidades tem contextos, e o sistema educativo nos ensina a distinguir a pertinência de cada um deles.

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