Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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A revista Veja 2575 desta semana, no artigo “Da Pirataria à Inovação” mostra a transformação que em poucos anos a China teve. De vendedora de bugigangas a concorrente mundial de inovação.

Em 2017, pela primeira vez, ela ficou entre os cinco países com o maior número de patentes aceitas nos Estados Unidos, atrás apenas do próprio EUA, do Japão, da Coreia do Sul e da Alemanha.

Quem nos explica por que a tecnologia está tão atrasada no Brasil é o Prof. Marcos Formiga[1] numa análise realística e histórica. Formiga é um desses provocadores que não pode ver ninguém relaxando, em paz com tudo. Diante disso, ele vem com alfinetadas e agulhas para trazer um assunto novo, ou não, bem explicado, para levar-nos a reflexões. Desta vez, ele relata sobre a pesquisa no Brasil e a falta que faz a tecnologia.

A pesquisa brasileira, em suas origens, está relacionada às expedições científicas e visitas de artistas e cientistas ligados à natureza. Em 1637, Maurício de Nassau trouxe uma plêiade de naturalistas, botânicos, biólogos, pintores, mineralogistas e entomologistas.

O Brasil era um laboratório “a céu aberto” disponível e desconhecido. A riqueza dos recursos naturais e a beleza virgem da vegetação, ao lado da diversidade, ofereciam a exuberância da fauna e da flora, além de minérios e muita água em caudalosos rios, plenos de variedades pesqueiras. Deste modo, os estudiosos investigadores (como eram chamados antigamente os pesquisadores), intelectuais e clérigos de diferentes denominações católicas foram os responsáveis pelo diversificado acervo de atlas e mapas geográficos, anatomia e fisiologia de animais e plantas que, ao lado da descoberta do inédito e exótico, eram classificados em famílias e espécies também ligadas à natureza, sob a forma de descrições artísticas.

Somente no século XIX surgiram alguns institutos de pesquisas como entidades de cunho científico. Foi nesse contexto que foram criados o Jardim Botânico (1808), o Observatório Nacional (1827), o Museu Paraense Emílio Goeldi (1866) – primeira unidade a fazer pesquisa social no Brasil -, o Instituto Agronômico de Campinas (1887), o Museu de Mineralogia de Ouro Preto e, no limiar do século XX, Manguinhos (1900), atual Fiocruz no Rio de Janeiro, e Instituto Butantã (1900), em São Paulo.

Após tentativas e constantes descontinuidades, o Brasil despertou para a importância da Universidade, ainda como instituição de formação de recursos humanos e incentivadora da pesquisa. E, por iniciativa do Governador Armando Salles de Oliveira, com apoio do empresariado liderado pelo Jornalista Júlio de Mesquita Filho, em 1934 é criada a Universidade de São Paulo que, desde seu nascedouro, teve forte preocupação com a pesquisa científica. O caso brasileiro difere dos países que fizeram a Revolução Industrial entre os séculos XVIII e XIX, que logo despertaram para a importância da tecnologia e a necessidade de as indústrias associarem-se à pesquisa tecnológica, mesmo que timidamente, aproximando-se das universidades acadêmicas existentes. Porém, o conceito “Tecnologia” passou despercebido pela Universidade brasileira até o final do terceiro quarto do século XX.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC), criada em 1917, e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948, bem como o CNPq e a Capes, ambos criados em 1951, louvavam a Ciência, mas esqueceram da Tecnologia. Este exemplo identifica a fragilidade do Sistema Brasileiro de Pesquisa focado na tecnologia. Paradoxalmente, o Brasil foi capaz de se industrializar sem dispor de instituições fortes em tecnologia; daí a adoção do modelo “mais fácil” de substituição de importações.

Tecnologia é a aplicação prática do conhecimento. Só em pleno regime militar o CNPq muda seu perfil: passa de Conselho Nacional de Pesquisa para Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A mudança terminológica constitui um avanço, mas o foco brasileiro pela tecnologia ainda está na infância. O governo, com a ausência da indústria, optou por um modelo centrado em ciências básicas, daí sua explícita preferência pelo cientificismo, vide os institutos voltados para a Física (CBPF), Matemática (IMPA), Biologia (INPA-AM), Pesquisas Espaciais (INPE) etc.

Desse modo, o Brasil é um caso raro, talvez único, de país que se industrializou sem a participação de sua Universidade. Em 1985, o CNPq cedeu sua competência científica reconhecida e seu capital humano para instalar o novo ministério, criado pelo Presidente José Sarney: Ministério da Ciência Tecnologia (MCT). A Tecnologia passa a contar com um ministério, mas a pesquisa tecnológica continua incipiente, mesmo com um conjunto de instituições setoriais ou especializadas que apoiavam o desenvolvimento da indústria: Finep (1967), Inpi (1970), Inmetro (1961), Inmet (1909), ITA (1950), IEAPM (1984), Cepem (1955), Embrapa (1972). Com a evolução da indústria brasileira e a forte presença de indústrias internacionais, estas preferiram instalar suas plantas e montadoras (setor automobilístico) sem dispor de unidades de pesquisa e desenvolvimento (P&D ou R&D, em inglês). Somente as maiores empresas brasileiras e estatais contratam pesquisadores e engenheiros para seus laboratórios

Mesmo assim, o Brasil foi capaz de desenvolver pesquisa tecnológica de classe mundial em setores reconhecidos, responsáveis pelos principais itens da nossa pauta exportações com conteúdo tecnológico: em terra, Embrapa; no mar, Petrobras; e no ar, Embraer.

O desafio: sem desenvolvimento tecnológico não ha inovação. Países de industrialização marcante após a Segunda Grande Guerra, como Alemanha e Japão (casos de reindustrialização), e durante a Guerra Fria, os chamados Tigres Asiáticos (Hong Kong, Correia do Sul, Taiwan e Singapura), deliberadamente optaram e desenvolveram forte pesquisa tecnológica. Inicialmente, copiaram casos de sucesso industrial: o Japão foi referência, mas, em seguida, ganharam autonomia. A China é o exemplo brilhante cujo protagonismo a qualifica, na virada o século XX, como a “grande fábrica do mundo”. A preferência pelo desenvolvimento tecnológico do Sudeste Asiático é hoje acrescida por Indonésia, Vietnã, Malásia e Macau. O dinamismo e o ritmo acelerado desses países correlacionam-se à opção preferencial pelo tecnologismo, sem dispensar a pesquisa científica básica, porém, declaradamente colocando-a em um digno segundo lugar.

Este modelo de viés tecnológico já havia se provado bem-sucedido nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, locais que formam seus doutores, preferencialmente, para o setor produtivo. No Brasil, essa relação é inversa: a indústria emprega apenas 20% e a Academia monopoliza 80% dos doutores nacionais.

O Brasil, na segunda metade do século XX, graças ao trabalho do CNPq, Capes, Finep e Fapesp, foi capaz de construir a segunda maior rede de pós-graduação stricto sensu entre os países em desenvolvimento, com cursos de Mestrado e Doutorado de classe mundial, majoritariamente em Universidades e institutos públicos de pesquisa. Isso fez surgir uma espécie de “Joia da Coroa” da educação nacional (pós-graduação). Entretanto, tal avanço criou uma pirâmide invertida. O sistema nacional de educação descuidou, sacrificou, injustificadamente, a educação básica, pilar do desenvolvimento científico e tecnológico de todos os países que alcançaram o status de desenvolvido, rico, de economia avançada. O Brasil continua preso à “armadilha da renda média”, com uma economia predominantemente endógena baseada em pequena ou moderada intensidade tecnológica (salvo os honrosos casos citados) e exportação massiva de matérias-primas (commodities) com baixo valor agregado.

O Brasil, com sua rede de pós-graduação e fomento à produção científica, destaca-se pelo número de “papers” publicados em veículos indexados internacionalmente (13º lugar). Entretanto, ao analisarmos o impacto e a capacidade do país de transformar conhecimento científico em riqueza e negócios, a classificação adquire pouco destaque qualitativo, a ponto de um Ministro da área ter afirmado que “o Brasil não sabe transformar conhecimento em riqueza”.

Tal realidade produz atraso tecnológico (desindustrialização, perda seguida de posições em rankings de competitividade entre países industrializados); ociosidade da indústria (atualmente em torno de 30%); incapacidade de participar e competir em cadeias industriais globais e, ainda, um parque industrial de baixa complexidade (51ª posição). Portanto, nosso desenvolvimento tecnológico não condiz com uma economia ainda entre as 10 maiores do mundo, medida pelo PIB nominal.

Falta-nos uma série de requisitos para superar estas “desvantagens competitivas”. Como consequência, enfrentamos a dificuldade em inovar. Talvez, o mais grave seja que aqui ainda não funciona a indispensável Tríplice Hélice: união e ação entre a Academia, o governo e as empresas.

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[1] Manuel Marcos Maciel Formiga possui Graduação e Mestrado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Graduado em Educação Internacional pela Universidade de Londres. Foi professor adjunto da UFPE até 1989. Atualmente é professor da Universidade de Brasília (UnB), onde atua na assessoria do reitor. Foi coordenador do Programa Nacional de Capacitação de Docente das Universidades Brasileiras na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); foi Secretário Geral Adjunto do Ministério de Educação e dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

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