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Paulo VadasPaul Ivan Vadas
Editor educacional do jornal online Brazil Monitor
Professor, palestrante, escritor e consultor em educação para instituições de ensino superior no Brasil e nos EUA
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A Copa do Mundo NÃO acabou. Tal como na política, a cada quatro anos ela se renova e o brasileiro, aquele que acredita que “a esperança é a última que morre”, já está se preparando para a próxima na esperança de ganhar o sonhado hexa. Sabe, porém, que daqui até lá, muito trabalho tem que ser feito. O percurso passa pela renovação necessária para ganhar vários outros campeonatos que estão no caminho, inclusive o da classificação. Serão anos difíceis, mas, como sempre, o brasileiro sabe que, desde os idos da década de cinquenta, quando Pelé e Garrincha despontaram como craques de nível mundial, o Brasil se tornou um verdadeiro celeiro de jogadores que renovam suas equipes e as de outros países ao redor do mundo.

O mesmo, porém, não acontece na política brasileira. Diferentemente do futebol, a cada quatro anos os “jogadores” que disputam os cargos políticos são sempre os mesmos. Não há renovação por que não existem peças de reposição. Os mesmos jogadores jogam o jogo que sempre jogaram e, consequentemente, o resultado é sempre o mesmo. Os quadros mudam, não se renovam – são herdados de geração em geração. E, assim, as mudanças políticas, econômicas e sociais não acontecem, frustrando as aspirações do povo e criando condições até de desespero enquanto a esperança de desenvolvimento econômico diminui a cada momento.

Muito brasileiros, aqueles que acreditam que a esperança já morreu, saem do País ou por falta de oportunidades, ou por falta de valorização, ou por falta de segurança. Aqueles das classes menos favorecidas saem buscando condições financeiras mais condizentes para sustentar suas famílias. Jogadores de futebol saem do Brasil para ganhar mais e serem mais valorizados. Pessoas das classes mais abastadas saem do País por causa da insegurança. De que adianta ter dinheiro se você se vê constantemente ameaçado de ser assaltado, quando não morto? Se perguntam.

Os expatriados enxergam em outros países melhores oportunidades. E, assim, emigram do País, deixando para trás suas raízes que, sem se darem conta, lhes seguem para os novos paradeiros. O brasileiro sai do Brasil mas leva consigo toda sua cultura, sua maneira de ser, de se expressar, de conviver, de se alimentar. Na busca de estabilidade financeira, valorização e/ou de segurança, encontram nos países para os quais emigram outros tipos de problemas, outras realidades que os fazem chorar.

A saudade dos familiares, do jeito brasileiro de ser (não estou aqui falando do “jeitinho” brasileiro que tanto prejudica a moral e ética no Brasil), e dos hábitos adquiridos na terra natal, conspiram para que o choro do expatriado se manifeste na busca constante de outros brasileiros que os façam sentir “mais em casa”. Trocam informações e histórias que, no frigir dos ovos, são as mesmas. Na busca da estabilidade financeira acabam aceitando trabalhos que jamais pensaram em fazer. Na busca por segurança, traídos pelo sotaque que lhes é próprio, se sentem discriminados como estrangeiros e, nas circunstâncias atuais tanto nos Estados Unidos como na Europa, sentem aquele vazio que dá quando você se sente visto como um indesejado.

Aos poucos, porém, e com o tempo, vão se acostumando. Vão adquirindo os hábitos e a maneira de ser das suas comunidades de trabalho. Entendem que todo o tipo de trabalho é valorizado e que não há nenhuma vergonha em serem baby sitters, lavadores de prato, garçons, arrumadeiras, etc.

Aos poucos vão percebendo que todos são, de uma forma ou outra, estrangeiros e que a discriminação está mais na percepção do que na realidade. Em geral, os que imigraram legalmente e trabalham duro acabam vendo seus esforços compensados e seus talentos valorizados. A vontade de voltar a viver no Brasil se transforma em vontade de visitar para matar a saudade.

Ao se acostumarem com suas novas vidas, os brasileiros não deixam de sentir amor pela pátria deixada para trás. Vestem a camisa nos jogos do Brasil ao mesmo tempo em que veem com pesar a situação política brasileira e se perguntam “será que o Brasil tem jeito?” Muitos acham que não tem jeito não. Perderam toda a esperança. Adquirem a cidadania do país que os acolheu. Silenciosamente, choram pelo sentimento de terem deixado familiares, amigos, colegas e a pátria em que nasceram e cresceram. Aceitam uma realidade que gostariam fosse outra.

Nos Estados Unidos, em que pese os graves problemas sociais que afligem um país politicamente dividido, os brasileiros percebem que a política não é algo que acontece a cada quatro anos. Que a política, tal qual qualquer esporte, se manifesta na constância do engajamento político, da manifestação diária, na liberdade de expressão e, principalmente, na cobrança constante daqueles que foram eleitos para representar os interesses das respectivas comunidades que representam. O voto distrital puro garante isso. O povo sabe quem é seu representante na câmara dos vereadores, dos deputados estaduais, dos deputados federais. A proximidade entre representantes e representados é a principal manifestação da democracia que se expressa diariamente e não só a cada quatro anos.

Mas não é só. Da mesma forma que qualquer outra profissão, ser político é valorizado. As escolas promovem a ideia da manifestação política e do acesso aos cargos políticos como algo natural e possível para qualquer um. Ser um líder político, um representante do povo, um servidor público, é considerado uma honra e acessível a quem de interesse. Tal qual o futebol no Brasil, onde o jogador de talento vem das mais diversas classes sociais, nos Estados Unidos a formação de políticos está aberta a qualquer pessoa que queira adentrar a carreira e que demonstre talento para isso.

Desde a mais tenra idade, o americano entende a importância da manifestação política e da cobrança constante sobre quem os representa. Há alguns meses atrás, os alunos de Parkland, escola de nível médio, ao sofrerem o impacto da morte de 16 colegas e um professor fuzilados por um ex-aluno, promoveram manifestações que se espalharam por todo o país. Esses jovens, de 15 a 18 anos de idade, portanto ainda não em idade de votar, demonstraram uma capacidade ímpar de engajamento político. Muito bem articulados, organizaram uma mega manifestação em Washington D.C. que se espelhou em tantas outras manifestações nas capitais de todos os estados do país. O resultado foi que, em menos de um mês, vários estados mudaram suas leis de controle de armamentos.

Mais recentemente, no início de junho, uma jovem de 28 anos de idade, nas eleições primarias pelo partido democrata, desbancou um deputado federal considerado o quarto mais poderoso da bancada democrata no Congresso americano. A jovem, afro-americana, sem jamais ter qualquer experiencia política e, portanto, teoricamente sem chances de vencer contra um candidato que há vinte anos vinha se reelegendo praticamente sem concorrente, além de ser simpática, bem informada, bem articulada, engajada na sua comunidade, trabalhou por vários anos em entidades de cunho social até convencer a comunidade que ela realmente seria uma representante mais apropriada para representar os anseios da população que serviria. Ganhou estourado. O, até aqui, “poderoso” deputado veterano agora vai procurar outro emprego.

Esta acessibilidade que o sistema democrático representativo, fundamentado no voto distrital direto (não em listas partidárias que garantem a manutenção dos caciques políticos no poder, mesmo com pouca votação), caracteriza bem nos Estados Unidos o sentimento de que a esperança é a última que morre. A política não se manifesta somente no ato político de votar. Ela se manifesta no ato político de cobrar continuamente e, quando necessário, de se engajar em manifestações políticas. É com a pressão dos questionamentos diretos e das manifestações públicas que o político se vê obrigado a agir para não perder seu cargo nas próximas eleições. Todo político sabe que existem amplas peças de reposição para ocupar seus caros substituir e que os quadros públicos são renováveis, não são hereditários.

Há, nos Estados Unidos, a compreensão que não há nada mais perigoso para uma democracia do que a ignorância do seu povo. As escolas têm a responsabilidade de imprimir em seus alunos a importância da participação no sistema político, não de forma ideológica, mas como processo de pensamento crítico onde a Constituição, com suas garantias de liberdades, direitos, privilégios, responsabilidades, e delegação dos poderes, é usada como um guia mestre do comportamento político aceito pela sociedade.

Infelizmente, no Brasil, enquanto o sistema educacional (desde as escolas de base até a pós-graduação) não politizarem o cidadão brasileiro (conforme comando o Artigo 205 da Constituição Federal) e garantirem que cada brasileiro entenda como funciona o sistema, ela/ele não terá como batalhar para acabar com a farsa da “democracia” brasileira. Conscientizar a população, discutir a estrutura do sistema político e a importância da representatividade direta, e dos direitos e responsabilidades constitucionais são condições fundamentais para mudar tanto o sistema político como a cultura de engajamento político do brasileiro.

O expatriado aprende tudo isso. Ele/ela aprende sobre as duras realidades dos ajustes necessários tanto quanto sobre as possibilidades que essas mudanças podem trazer. Muitos (muitos mesmo) sonham em um dia retornar. Os poucos que retornam acabam sendo muito importantes para o Brasil pois retornam com outros valores e com a consciência que, da mesma forma que no futebol, a batalha política é diária, depende de talento, e que todos os trabalhos feito entre as eleições são preparativos que desembocam e se expressam no dia das eleições e que, tal como a Copa do Mundo, é uma oportunidade de renovação da esperança de atingir as aspirações do povo.

Enfim, por mais preparados que estejam, não existe nenhuma garantia que as eleições traduzam fielmente as ansiedades da população, da mesma forma que nenhum preparativo, por melhor que seja, garante que o melhor time acabe vencendo a copa do mundo. O que se sabe é que nenhum país despreparado jamais venceu uma copa do mundo. O que se sabe é que futebol ou política não são projetos com princípio, meio e fim. São processos contínuos de melhoria que, como diz a constituição americana no seu preâmbulo, existem para “formar um país cada vez mais perfeito”.

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