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Cláudio Anjos
Diretor-executivo da Fundação Iochpe e do Instituto Arte na Escola
Valor Econômico, publicado em 11 de setembro de 2018
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Qual o papel das artes para o desenvolvimento econômico e social de um país? Ou melhor, como políticas educacionais que priorizam o ensino de artes podem contribuir para esse processo?

Atualmente essas perguntas têm ocupado as cabeças de muitas lideranças governamentais e empresariais, pesquisadores e especialistas em educação no mundo todo. Evidências não param de ser produzidas e indicam algumas respostas: a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, recomenda que as artes na educação sejam, “sem dúvida”, uma dimensão estratégica da política de inovação de uma nação. O grupo que congrega os países mais ricos do mundo advoga que à medida em que habilidades se tornam uma espécie de moeda forte global hoje e num futuro que já bate às nossas portas, escolas devem trabalhar com práticas baseadas em conhecimento diversificado e preparar estudantes para desenvolver habilidades exigidas por uma economia moderna e globalizada e pelo desafio de melhorar as relações sociais.

Para a OCDE, o objetivo da educação de um país que almeja ascender econômica e socialmente deve ser o de fomentar habilidades e valores que impulsionam a inovação na economia e na sociedade, como criatividade, inovação, comunicação, tolerância, alteridade e trabalho em equipe. Ensino de artes bem estruturado no currículo escolar permeia e tem a força de fomentar todas essas habilidades e outras, aponta a entidade internacional. No livro  “Art for art’s sake? The impact of arts education”, a OCDE cita pesquisas que mostram que o ensino de artes ajuda a melhorar o desempenho de alunos em leitura e matemática, além de uma série de resultados que evidenciam ganhos cognitivos de crianças e jovens que têm aula de música, teatro, dança e artes visuais.

Diante da alta velocidade em que novas tecnologias avançam e processos produtivos se automatizam e se digitalizam, dando uma nova face ao mercado de trabalho, líderes empresariais do Fórum Econômico Mundial sustentam que “as artes se encontram no centro das atividades que moldam a quarta revolução industrial ou indústria 4.0”. Eles elegeram como as três principais habilidades profissionais para 2020 a capacidade de resolver problemas complexos, pensamento crítico e criatividade. Em 2015, os mesmo executivos colocaram criatividade como a décima competência mais importante para o mundo do trabalho. Eis aí outra mensagem para formuladores e gestores de políticas educacionais sobre a contribuição que o ensino de artes pode ter para o desenvolvimento.

“Hoje, mais do que nunca, a arte é necessária para construir uma estrutura emocional que dê sentido aos diálogos no centro da quarta revolução industrial, para ajudar a superar barreiras e obstáculos atuais com abordagens dinâmicas e inovadoras e para compreender valores que estão incorporados em qualquer processo de inovação tecnológica”, defendeu o engenheiro e economista Klaus Schwab, presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial, em um dos eventos deste ano de Davos.

O European Network of Observatories in the Field of Arts and Cultural Education (ENO) já publicou dezenas de pesquisas e documentos para subsidiar formulação de políticas educacionais. O grupo acadêmico sustenta que o olhar estratégico, de Estado, para o ensino das artes na educação básica e superior pode funcionar como eixo transversal a muitas ações de governos europeus voltadas ao desenvolvimento econômico e social.

Em meio a esse contexto global, o Brasil discute atualmente sua Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio. O documento normativo foi apresentado à sociedade pelo Ministério da Educação (MEC) em abril deste ano e, em resumo, irá definir o que alunos de escolas públicas e particulares devem aprender ao longo de sua formação e servir de referência para redes de ensino elaborarem seus currículos escolares.

Infelizmente, essa base não detalha conteúdos de muitas áreas do conhecimento, entre eles de artes e suas manifestações (teatro, música, dança e artes visuais), além de também escantear filosofia ou sociologia, por exemplo. Essa indefinição quanto à indicação clara de alguns componentes curriculares (disciplinas) na proposta atual do governo destoa das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) e ainda pode comprometer o direito de aprendizagem garantido a crianças e jovens brasileiros, um dos principais objetivos da BNCC. Além disso, o documento na forma em que está redigido pode causar um caos no modelo de formação docente (licenciaturas), na lógica de trabalho dos professores em todo o país e também na dinâmica de oferta de vagas para estudantes.

Enquanto a BNCC do ensino médio está na agenda política, com audiências públicas conduzidas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) até setembro, o Instituto Arte na Escola (IAE), que trabalha há cerca de 30 anos com formação de professores em artes, reivindica que as artes tenham prioridade na elaboração da base. À frente da articulação do Movimento Arte na Escola, o IAE defende um currículo escolar que contemple as linguagens artísticas de forma mais estruturada e clara, não apenas para formar artistas, mas para oferecer uma melhor formação integral de crianças e jovens e, assim como em alguns exemplos vistos no mundo, ajudar a promover um processo de desenvolvimento econômico e social mais efetivo.

O Movimento Arte na Escola entende que o ensino de artes é importante como área de conhecimento. Além disso a arte possui sub-áreas de conhecimento e colabora fortemente na apreensão de habilidades que estão sendo mais valorizadas no Século XXI. Nesse sentido, as dezenas de vozes apartidárias que compõem o movimento — entidades educacionais, professores, arte-educadores e artistas — reivindicam que a BNCC preveja um processo pedagógico obrigatório em artes, conduzido por professores especialistas formados em suas áreas específicas (música, teatro, dança, artes visuais, cinema e fotografia) para garantir aos estudantes brasileiros a vivência de processos criativos, permitindo um desenvolvimento pleno para a cidadania e preparação mais qualificada para mundo do trabalho.

No fim de agosto, o grupo organizou o seminário “Arte no ensino médio” dentro do CNE, em Brasília. Entidades educacionais e arte-educadores buscaram sensibilizar os integrantes do órgão colegiado, que estão incumbidos de ouvir a sociedade civil e produzir um parecer com sugestões para melhorar a proposta de BNCC do governo. Foi entregue um documento propositivo com as reivindicações do Movimento Arte na Escola e sobre a relevância em geral das artes na base curricular do ensino médio. Esta semana os conselheiros do CNE estão debruçados sobre o tema e têm a oportunidade de deliberar sobre o caminho que o Brasil quer seguir. Esperamos que não vá na contramão.

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