Destaques
Facebook
Twitter
Print Friendly, PDF & Email

Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“As atividades dos mais variados temas são trazidas pelos professores e cada aluno exerce a autonomia de escolher o que mais lhe interessa, de trabalhar em grupo ou sozinho. Assim, podem se dividir entre as mesas ou até mesmo aprender ao ar livre.” (Prof. José Pacheco – Escola Vila das Aves – Portugal)

Cursei o primário, o ginasial e o colegial no Santo Alberto, escola que nem existe mais. Dirigida pelos Carmelitas, situava-se entre o bairro da Liberdade e o de Bela Vista, em São Paulo capital. Alguns padres lecionavam e um deles sempre desafiava os alunos a dizerem quem era o autor ou a traduzir uma frase latina, mantida em moldura na biblioteca, com os dizeres do título deste artigo, que em tradução livre é: “Não aprendemos para a escola, mas para a vida”.

Dia desses deparei com interessante e intrigante assunto abordado por Karina Balan Julio, no Meio & Mensagem, sobre a School of Life, criação de uma dupla de filósofos, Alain de Botton e Roman Krznaric, em Londres, já há dez anos. A proposta da instituição é ensinar habilidades sociais atemporais, não tão voláteis quanto as habilidades técnicas que mudam a cada nova tecnologia.

Em entrevista de Roman Krznaric, dada para Karina, sabe-se que, com unidades em mais de dez países, inclusive no Brasil, desde 2013, a escola vem surfando no crescimento da indústria de autoajuda e conquistou o universo corporativo, oferecendo, além de oficinas, livros e cursos intensivos aos consumidores finais, consultorias e treinamentos para empresas. E o Intensivo The School of Life de 2019 já está programado para o período de 30 de março a 3 de abril. Acesse para saber mais.

Registro que o projeto The School of Life não é de jeito nenhum uma proposta de curso superior/universitário e nem quer concorrer com eles. Tem outro propósito: o de ser uma escola para a vida com seus workshops oferecidos para clientes finais e empresas com aulas sobre objetivo profissional, resiliência, felicidade e sociabilidade entre outras. Como se diz por aí, soft skills para um mundo conectado e conturbado. Tudo decorrente do enfraquecimento coletivo de habilidades sociais, por conta das redes sociais, e da necessidade de resgatá-las com o avanço da inteligência artificial.

A instituição adotou esse nicho cuja missão é “ajudar pessoas a viverem a vida que elas querem, e não a vida que os outros querem para elas”, revela David Baker[1], em entrevista a Rafael Carvalho, do portal www.napratica.org.br. Como? Dando apoio e guiando os alunos em passos pequenos e experimentais fora de suas zonas de conforto. Para Baker, educação, em sua essência, é a celebração da curiosidade, que deve ser levada para a vida inteira. Inúmeras vezes, segundo ele (e as teorias da criatividade…), as melhores ideias surgem quando se juntam ideias completamente diferentes de disciplinas também completamente diferentes.

A discussão pode ir longe sobre a efetividade e a realidade formativa dos estudantes em cursos superiores, onde nem sempre se consegue romper os desafios encontrados ao longo da vida pessoal e na carreira. Diferentemente da School of Life que tem por objetivo desenvolver inteligência emocional através da cultura e ensinar seus alunos a viver bem, oferecendo aulas livres, muitas vezes sobre temas inusitados, e que não têm a pretensão de mirar um público-alvo específico. Assim, não existe formação prévia como requisito. Segundo Baker, a escola é voltada para qualquer um que esteja interessado em viver uma vida mais plena, gratificante e verdadeira.

Por isso, os cursos não são pautados diretamente por disciplinas (filosofia, psicologia, arte, história…), e sim pelas questões e reflexões que fazem parte do nosso dia a dia: ‘Como equilibrar vida pessoal e trabalho’, ‘Como escolher um parceiro’, ‘Como ser mais criativo’ e ‘Como tomar decisões melhores’ são algumas das aulas disponíveis.

Tenho por hábito refletir e levar meus interlocutores a discussões sobre inventividade, criatividade, empreendedorismo como forma de inovação. Estamos cercados pela tecnologia e vivemos em um mundo no qual ela é vista, frequentemente, como a coisa mais importante. Mas o que aconteceu com nossa inteligência emocional? Como a tecnologia mudou nossa relação com os outros e com o mundo?

Botton e Krznaric com a School of Life querem fazer com que as pessoas aprendam sobre relacionamentos ou falem sobre temas difíceis, como a realização no trabalho e até sobre a morte. O input que tiveram foi ensinar coisas que são habilidades para a vida, buscando abarcar tópicos universais. Foi algo como juntar a fome com a vontade de comer.

Segundo eles (assim como para Baker), a curiosidade é a competência que traz mais força a alguém. É a habilidade de olhar ao redor, investigar, explorar e descobrir novas coisas, não ser monotemático, mas ter interesses diversos e sobretudo autonomia. Essa é a chave para a sobrevivência em um mundo em constante e acelerada mudança e que exige adaptabilidade/resiliência dos profissionais.

Na entrevista para o Meio & Mensagem, Krznaric abre o jogo sobre criatividade:

“Acredito que uma das grandes desgraças do Renascimento e da cultura que criamos nos últimos 5 mil anos é a ideia de que você nasce criativo e de que Michelangelo, por exemplo, nasceu com um dom genético ou divino. Esta ideia é um desastre, pois faz com que as pessoas parem de ser criativas, parem de querer desenhar, pintar ou cantar e ter ideias, por exemplo. No final dos anos 60 a proposta de que a criatividade poderia ser ensinada se popularizou. Concordo com isso e acho que você pode nutrir a criatividade com o tempo. Mas, ao mesmo tempo, também vejo que criatividade é sobre espontaneidade. Hoje em dia baseamos muito nossas vidas em agendas e calendários eletrônicos, e isso impede que sejamos mais inventivos”.

Para ele, e por consequência para School of Life, a ideia de que o trabalho precisa ter propósito é nova sob muitos aspectos. A busca desse propósito se dá quando teve início a cultura de valorização dele (propósito) em seu ambiente (de trabalho).

Segundo Krznaric,

“não é novidade que o ensino formal nas escolas e universidades não dá conta de todos os desafios que encontramos ao longo de nossa vida pessoal e na carreira. Foi com a intenção de preencher essa lacuna que surgiu a School of Life, escola que tem por objetivo desenvolver inteligência emocional através da cultura e ensinar seus alunos a viverem bem”.

E o leitor estará se perguntando: e daí? Que proveito a universidade pode tirar da experiência da School?

Acredito que seja uma imersão em inteligência emocional, ideal para quem busca transformações e mudanças em cursos com mais significado. Como essa habilidade de reconhecer e lidar com sentimentos, tanto seus quanto aqueles das pessoas com quem se convive, não está relacionada diretamente com o nosso lado intelectual, saber usá-la nos torna emocionalmente aptos para o convívio social frente às mais diversas situações.

Pensar duas vezes antes de tomar uma decisão, ser empático com um colega que pensa diferente, receber e absorver feedbacks de forma justa são algumas habilidades que devem ser estimuladas para alcançar o desenvolvimento das soft skills.

Hoje, mais do que nunca, a frase latina de Sêneca, um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano, é profética. Nossa missão é preparar o aluno para a vida.

_______________________________________

[1] David Baker, escritor e ex-editor da famosa revista inglesa Wired, também é cofundador da School of Life no Brasil, que tem unidades no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Compartilhe:
Avaliar

2 Respostas para “Non Scholae Sed Vitae Discimus”

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics
Página 1 de 11