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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“As relações de consumo vão mudar, e não sabemos o que vai acontecer. Sai na frente quem começa a experimentar desde cedo, porque terá um repertório maior para agir diante da mudança.” (Fernanda Hoefel, sócia da McKinsey)

Em meu último artigo, “Aviso aos navegantes”, mencionei relatório publicado pelo Fórum Econômico apontando que, até 2020, cinco milhões de empregos serão perdidos para a automação. Porém, ao mesmo tempo, a tendência é que as áreas de tecnologia, saúde, relacionamento com pessoas, educação, visão de negócios e criatividade estejam em alta para as transformações que inevitavelmente acontecerão.

Dentro da perspectiva de mostrar cenários futuros do mercado, trago dados de pesquisa da Consultoria McKinsey sobre “O futuro do mercado de trabalho: impacto em empregos, habilidades e salários”, em uma análise de James Manyika, Susan Lund, Michael Chui, Jacques Bughin, Jonathan Woetzel, Parul Batra, Ryan Ko, e Saurabh Sanghvi.

Em uma época marcada por rápidos avanços em automação e inteligência artificial, a pesquisa avalia os empregos que serão criados e eliminados em diferentes cenários até 2030. O relatório está distribuído em 5 tópicos:

Conforme os autores,

“O mundo movido pela tecnologia em que vivemos é repleto de promessas, mas também de desafios. Carros autônomos, internet das coisas, máquinas que interpretam raios-X e algoritmos, que esclarecem dúvidas dos clientes são manifestações de novas e poderosas formas de automação. No entanto, mesmo que essas tecnologias aumentem a produtividade e melhorem a nossa vida, seu uso tomará o lugar de algumas atividades de trabalho que hoje são realizadas por seres humanos – um fato que vem suscitando muita preocupação”.

O que, então, acontecerá com nossos empregos?

O relatório é de uma precisão cirúrgica: desenha-se um rico panorama de possíveis transformações ocupacionais nos próximos anos, com implicações importantes nas habilidades e nos salários dos trabalhadores, variados tipos de empregos poderão ser criados em diferentes cenários até 2030, mas outros tantos postos de trabalho poderão desaparecer devido à automação – o grande e autêntico vilão futurista.

O relatório, embora otimista, não deixa de conter pitadas de inquietude. A má notícia é que – tomando por base os cenários de adoção moderada ou adoção rápida da automação, com suporte em novas tecnologias – estima-se que entre 75 e 375 milhões de pessoas no mundo talvez precisem mudar de categoria ocupacional e aprender novas habilidades; além de que, em todo o mundo, entre 400 e 800 milhões de pessoas poderão perder seus empregos devido à automação e precisarão encontrar outros até 2030.

A boa notícia é que, havendo crescimento econômico, inovação e investimento suficientes, a criação de novos empregos poderá compensar o impacto da automação, ainda que algumas das economias avançadas talvez precisem de investimentos adicionais para reduzir o risco de escassez de empregos.

De modo geral, os atuais requisitos educacionais de ocupações que poderão crescer no futuro são superiores aos dos empregos eliminados pela automação. Nas economias avançadas, ocupações que hoje exigem apenas a conclusão do ensino médio (ou um nível de escolaridade menor) estão em declínio por causa da automação, ao passo que as ocupações que exigem diploma universitário (ou um nível de escolaridade mais avançado) crescem.

Outra boa notícia dá conta de que os trabalhadores do futuro passarão mais tempo em atividades nas quais as máquinas são menos capazes, como gerenciar funcionários, aplicar expertise e comunicar-se com outras pessoas. Eles passarão menos tempo em atividades físicas previsíveis e na coleta e processamento de dados, nas quais o desempenho das máquinas já supera o dos seres humanos. As habilidades e capacidades necessárias também mudarão, exigindo mais habilidades sociais e emocionais, além de capacidades cognitivas mais avançadas, como raciocínio lógico e criatividade.

O grande desafio será assegurar que os trabalhadores tenham as habilidades e o suporte necessários para concluírem a transição para os novos empregos. Papel a ser desempenhado pela educação, que propiciará as habilidades e competências necessárias para novas adaptações funcionais.

O relatório adverte: países que não conseguirem gerenciar essa transição poderão ver um aumento do desemprego e a redução dos salários. (Veja: The digital future of work: what skills will be needed?).

Mas, e o que isso tudo tem a ver conosco? Afinal, trata-se de realidades de países de primeiro mundo.

Tem tudo a ver, pois o relatório fala exatamente do que ora padecemos, ou seja, já temos cerca de 13 milhões de desempregados e outros tantos surgirão por absoluto despreparo, além da avassaladora automação por via de tecnologias que dominarão funções e profissões. É aterrorizante!

Essas tecnologias ainda não são muito incorporadas no Brasil, seja na indústria, no governo ou na universidade, têm no corporativismo, na regulação exagerada, em financiamentos interrompidos ou minimizados e em outras mazelas forças reais e efetivas que impedem os avanços para que o país possa vislumbrar o mesmo futuro mostrado pelo McKinsey. Promissor, mas com reservas.

Com as já sabidas e conhecidas carências, deficiências e precariedades da educação nacional, pergunta que não cala é até quando seremos atingidos pelos cenários ali estampados. E já cabe antecipar a pergunta: estamos preparados para o que está e vem por aí? O alerta está dado. Aliás, vários, a partir da posição de que somos os “lanterninhas” em todos os rankings educacionais. Esta é triste realidade, porém, evitável.

A julgar pelas BNCCs do Fundamental e do Médio, resta-nos aguardar esses dois ciclos terminarem e torcer para que a universidade esteja preparada para capacitar os estudantes para as iminentes e preocupantes transições da força de trabalho.

A continuarem com suas práticas, o CNPq, o CNE e demais órgãos reguladores, apoiados por ações corporativistas/associativas retrógradas, vão continuar fora da realidade do mercado.

Nossa principal conclusão é que, embora possa haver trabalho suficiente para manter todos os empregos até 2030, na maioria dos cenários avaliados, as transições serão extremamente desafiadoras – igualando-se ou até mesmo superando a escala das mudanças na agricultura e na manufatura ocorridas no passado.

Com a publicação do relatório da Mckinsey é possível dizer que o setor educacional, do Fundamental ao Superior, está sendo levado a profundas reflexões porque os autores, de certa forma, responsabilizam a educação como única alternativa a superar diante da automação, das novas tecnologias, das inovações, mudanças e transformações que ocorrerão até 2030 nos mercados de trabalho. E o ano 2030, por assim dizer, será depois de amanhã.

Mas, com total transparência uma condição ficou muito clara: os desafios serão enormes, a curto, médio e longo prazos, de muita cobrança a todos os setores educacionais que passarão a ter uma responsabilidade extraordinária, quando não caberá mais escapismos ou fuga da realidade.

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