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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Daqui a trinta anos os grandes campi universitários serão relíquias. As universidades não vão sobreviver. Trata-se de uma mudança tão importante quanto a introdução do livro impresso” (Peter Drucker)

No mundo do pós-tudo, Peter Drucker, educador e “pai” da administração moderna, alertava para a era da pós-educação que já começava a delinear-se há algum tempo, colocando em xeque o modelo educacional e institucional que tem se mantido quase inalterado nos últimos 200 anos.

Tenho dito com certa insistência em meus artigos que nossos jovens estão estudando para negócios que não existirão mais nos próximos anos. Recebi dias desses, pelo WhatsApp, uma radiografa das novidades e a celeridade com que elas atropelam as velhas estruturas. Sintetizo o conteúdo: o Spotify faliu as gravadoras; a Netflix, as locadoras; a Google, a Listel, as Páginas Amarelas e as enciclopédias; a OLX, os classificados; o smartphone, as revelações fotográficas.

Outras novidades têm complicado a vida de muita gente: o Booking, das agências de turismo; o Airbnb, dos hotéis; o WhatsApp, das operadoras de telefonia; as mídias sociais, das agências de comunicação; a Uber, dos taxistas; a Tesla, das montadoras de automóveis; o YouTube, das TVs; o Tinder, das baladas e “similares”. Esses são apenas alguns dos muitos exemplos de inovações que descortinam um “admirável mundo novo” e que obrigam quem não quer perder o “metrô” da história (bonde tá muito velho!) a se reinventar cotidianamente.

E não poderia ser diferente com a educação. É urgente que sejam formados jovens capazes de inovar, de pensar diferente e de executar tarefas com eficiência e autonomia. É preciso, no entanto, colocá-los como protagonistas, como agentes responsáveis pelo seu futuro e do entorno onde vivem, sendo capazes de usar a seu favor a tecnologia, cujo papel é abrir as possibilidades e tornar exponencial toda inovação que as pessoas promovem.

E como fica a escola nesse cenário? Ou se reinventa ou perece.

Junior Borneli, fundador da StartSe, promotora da EdTech Conference, realizada anualmente em São Paulo/SP, é taxativo com relação, por exemplo, ao fim dos professores: “Sim. E não. O avanço da tecnologia e das novas formas de ensino decretará o fim dos professores como os conhecemos, mas abrirá espaço para uma nova era: a dos “professores mentores. Neste ano, a StartSe recebeu o prêmio de Empresa Mais Inovadora na Área da Educação, concedido pelo Instituto Ayrton Senna e pelo Lide.

Isso porque o modelo de ensino passivo, presente em praticamente todas as escolas, está com os dias contados. O modelo de repetição, criado durante a Revolução Industrial, que forma pessoas em linha de produção para trabalharem nas fábricas, não se encaixa mais.

Em palestra sobre “Metodologias Ativas de Aprendizagem”, o Prof. Dacio Guimarães de Moura pergunta logo no início se todos concordam que não queremos mais formar “estudantes passivos”, como formar estudantes ativos e o que se ganha em fazer esta mudança.

O mais importante, contudo, é se o próprio professor não vai se contrapor à ideia e se haverá aceitação no sistema educacional, já que se trata de mudança de paradigma.

Nesse novo cenário, os professores serão tão importantes quanto agora, mas seu papel será de conduzir os alunos por meio de trilhas individuais de aprendizagem. A educação do século XXI exige menos ensino e mais aprendizagem, o que muda completamente a maneira como pensamos as escolas e universidades.

O “ensino por habilidades” é o que conecta o jovem com o que ele tem de melhor, é o que o coloca como protagonista do seu destino, auxiliado pela tecnologia. Segundo Jonathan Bergmann, professor e criador do método de ensino flipped classroom (sala de aula invertida), “a educação tradicional está morta. Nós estamos vivendo na era em que as pessoas querem resolver problemas do mundo. Na era da criatividade”.

Richard Florida, teórico norte-americano do Urbanismo, é autor da teoria da classe criativa, formada por pessoas que agregam valor econômico por meio de sua criatividade, aspecto essencial na economia contemporânea. A teoria da classe criativa utiliza medidas baseadas em ocupações e habilidades efetivas dos indivíduos. Segundo ele, a junção de 3 Ts – talento, tecnologia e tolerância – é a responsável pelo florescimento de cidades criativas.

O “ensino por habilidades” tem o condão de despertar o talento; a tecnologia (inteligência artificial, realidade virtual e outras) tem o poder de revolucionar a educação; e a tolerância – aceitar o outro, a diversidade, ser empático – é fundamental para a circulação de novas ideias.

Os cenários são sempre futuristas, como se o presente não tivesse jeito e só nos restassem os devaneios do futuro e fazer força para que acreditem no impossível que vira possível, ou seja, é pintura de Miró, de Salvador Dali ou de tantos outros que nos fizeram engolir goela abaixo um deserto de “non sense”!

Se quisermos entrar realmente no século XXI, é preciso criar uma nova educação que responda aos desafios do mundo em que vivemos, que exija das pessoas a capacidade de seguir aprendendo ao longo da vida e de colocar o conhecimento “em ação” para possibilitar até a resolução de problemas que ainda não conhecemos. É preciso criar uma escola que, mais do que transmitir conteúdo, considere o aluno “por inteiro”, trabalhando o desenvolvimento de suas competências cognitivas (como raciocínio lógico e pensamento crítico) e socioemocionais (como resiliência e colaboração), além de promover o seu protagonismo com a própria aprendizagem.

O profissional do século XXI deve possuir muitas características, entre elas, empreendedorismo, resiliência, proatividade, liderança energizadora, percepção, comunicação, persuasão, assertividade, criatividade, cultura, humanismo – qualidades que têm sido muito requisitadas pelas empresas que procuram, mais do que super-homens, pessoas capazes de reconhecer seus potenciais e limitações e, a partir daí, de forma equilibrada e estruturada, buscar o autodesenvolvimento. Há enormes oportunidades e grandes desafios a serem superados, mas a educação precisa evoluir para um formato onde todos tenham a oportunidade de encontrar suas melhores versões e potencializar suas habilidades.

É essa, sem dúvida, a missão das IES: entregar para o mercado – mas sobretudo para o mundo – pessoas criativas, colaborativas, críticas, resilientes e felizes.

O futuro da universidade foi objeto de grande discussão nos Estados Unidos, em 1997, quando Peter Drucker, educador e pesquisador austríaco, cunhou a epígrafe tumular que abre este artigo para ser gravada na lápide da educação caso a escola não encontre parceiros na sociedade e nas empresas e não demonstre que pode ser criativa, colaborativa, resiliente e tolerante. Sua visão foi muito otimista porque a realidade mostra que para os prédios das universidades desaparecerem serão necessários outros trinta anos.

Se você olhar ao redor, vai perceber que mudamos a maneira como nos comunicamos, viajamos, assistimos a filmes, ouvimos música e lemos notícias e livros. Todos os setores mudaram, mas a educação não mudou. Continuamos com o mesmo modelo de 200 anos atrás.

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Uma resposta para “Temos certeza de que não queremos mais “estudantes passivos”?”

  • Rainer Marinho da Costa says:

    A tristeza vem quando olha pelo visor de uma sala de aula e ainda vejo os senhores professores donos da verdade “ensinando” os seus alunos irem para o matadouro. Por mais que tentamos mostrar que a sal de aula tem que ser outra eles se apegam a suas verdades do que é uma boa aula. Parabéns pelo texto espero pela mudança ainda rs, e como senhor dizia nem mesmo sendo dono se consegue algumas coisas rs.

     

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