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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Minha mãe trabalhou como empregada doméstica e cabeleireira e depois foi estudar direito. (…) Eu conheço de dentro de casa como o estudo cria oportunidades, promove a ascensão social e dá um poder de voz.” (Thiago de Souza Amparo)

Estava na semana passada assistindo ao vídeo Conexão Vale do Silício, da StartSe – uma plataforma digital, como eles mesmos se denominam, desenhada para conectar todo o ecossistema brasileiro de startups. Fiquei maravilhado, entre outras coisas, com uma inovação, a clean meat, uma carne molecular feita em laboratório através da reprodução de células-tronco. Em uma das experiências, a carne foi obtida da pena de uma galinha!

Dizem eles no vídeo que as gerações futuras talvez se horrorizem ao saber que um dia tenhamos precisado matar um animal para nos alimentar. E mais, acrescento, que tenhamos precisado expandir fronteiras agrícolas e desmatar o planeta para pastagens e produção de soja, por exemplo, colocando em risco o equilíbrio ecológico.

O vídeo é longo, mas vale a pena:

Mas o que isso tem a ver com mobilidade social?

Se acordo com a Infopédia, dicionário enciclopédico online produzido pela Porto Editora, a noção de mobilidade social refere-se à transição de indivíduos ou grupos de um estrato ou de uma classe social para outra. Há dois tipos de mobilidade social: a mobilidade intrageracional, em que se analisa a situação dos indivíduos numa geração, isto é, a posição por eles ocupada no início e no fim das suas carreiras; e a mobilidade intergeracional, em que se analisa mais de uma geração, procurando ver, por exemplo, se os indivíduos pertencem à mesma classe social dos seus pais.

O estudo “Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social, publicado em 2018 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aponta que o Brasil ocupa a segunda pior posição no ranking de mobilidade social elaborado com dados de 30 países.

Matéria veiculada pela BBC News Brasil há época da divulgação do estudo sinaliza que “seriam necessárias nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres atingissem o nível médio de rendimento do país. A estimativa é a mesma para a África do Sul e só perde para a Colômbia, onde o período de ascensão levaria 11 gerações.

No Brasil, de cada 10 filhos de famílias miseráveis, 3,5 morrerão e somente um tem chance de chegar ao topo. Ou seja, nosso país tem sido o exemplo de sociedades baseadas em riqueza “clássicas patrimoniais” do século 19, em que uma minoria vive da sua riqueza, enquanto o resto da população trabalha para subsistência.

O estudo da OCDE mostra que o baixo nível de mobilidade social implica negativamente sobre o crescimento da economia de modo geral. “Talentos em potencial podem ser perdidos ou subaproveitados, com menos iniciativas na área de negócios e menos investimentos”, reforça matéria da BBC.

Além de esse elevador social “quebrado” se manifestar sobre o bem-estar social, a percepção de que a oportunidade de ascensão depende de fatores que estão fora do alcance gera desesperança e sentimento de exclusão, o que aumenta a probabilidade de conflitos sociais.

Mas a boa notícia é que a mobilidade social e, paralelamente, a evolução social, econômica e cultural acontecem por meio do conhecimento, do acesso a informações e da exposição à inovação. E, como bem aponta artigo da UniBH (Entenda a importância da educação na mobilidade social), são fatores “necessários para que todos compreendam melhor o mundo, a ligação entre os fatos, os problemas, os desafios e, principalmente, o papel de cada um, diante deste cenário complexo”.

Já foi sobejamente que a qualificação e o estudo influenciam diretamente na ascensão profissional e na mobilidade social, afetando diretamente a economia.

“O nível de escolaridade da população se reflete em fatores como empreendedorismo, pesquisa científica e inovação, que garantem indústrias e processos mais eficientes e automatizados”, destaca o artigo.

Ou seja, a educação tem a função de preparar o capital humano para as demandas e exigências de um mercado em constante mutação, que demanda profissionais cada vez mais capacitados, o que exige uma educação de melhor qualidade, antenada com as demandas do século XXI.

A falta de qualificação dos trabalhadores funciona como um freio para a mobilidade social, já que indivíduos com pouco estudo costumam fazer parte das estatísticas do desemprego – e serão substituídos por máquinas.

O artigo conclui que “o investimento em educação é um fator essencial para consolidar a mobilidade social e diminuir a desigualdade de riqueza e de oportunidades entre as classes”. Com melhores empregos e maiores salários, os indivíduos podem consumir mais e investir, além de reduzir a dependência em relação a políticas públicas assistenciais.

Matéria do jornal Valor Econômico de 7 de fevereiro último (Como a Alemanha perdeu seus Einsteins) inicia-se com esta pergunta: “Por que a Alemanha, o berço de inovadores que fizeram história, como Johannes Gutenberg e Albert Einstein, não produziu gigantes da alta tecnologia como Google, Amazon ou Facebook?”.

Segundo o texto, a Alemanha perdeu seu impulso inovador porque seus potenciais pioneiros, originários de famílias desfavorecidas, não estão tendo a oportunidade de se desenvolver:

“De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a elasticidade intergeracional de renda é, na Alemanha, de cerca de 50%, o que significa que, se os pais da pessoa A ganhavam o dobro do que os pais da pessoa B, a pessoa A vai ganhar, em média, 50% mais que a pessoa B. Com diferenciais de rendimentos tão persistentes entre gerações, a Alemanha tem uma das taxas mais baixas de mobilidade intergeracional da OCDE – onde a elasticidade média é de 38% –, e ela parece estar diminuindo”.

O alerta alemão deve servir de sinal amarelo para nós, brasileiros. Desigualdade social provoca efeitos deletérios na sociedade e na economia. A solução é, e sempre foi, a educação.

Uma das dimensões do IDH é o Acesso ao conhecimento (educação):

“o acesso ao conhecimento é um determinante crítico para o bem-estar e é essencial para o exercício das liberdades individuais, da autonomia e da autoestima. A educação é fundamental para expandir as habilidades das pessoas para que elas possam decidir sobre seu futuro. Educação constrói confiança, confere dignidade e amplia os horizontes e as perspectivas de vida”.

É fator de mobilidade social.

Assim, retomo a epígrafe deste artigo, retirada das Páginas Amarelas da revista Veja de 23/02. O entrevistado é o professor de discriminação e diversidade da Fundação Getúlio Vargas, Thiago de Souza Amparo, um dos muitos exemplos brasileiros de mobilidade social.

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