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Lioudmila Batourina
Consultora de parceria internacional da ABMES
lioudmila@abmes.org.br

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Sempre pensamos que toda ideia tem dois lados, o bom e o ruim, benefícios e malefícios. Ambos se manifestam quando se deseja fazer algo grandioso. Porém, nada é tão simples assim, tão “preto no branco”. Dentro de grandes projetos, existe sempre uma “agenda oculta”, situações que acontecem quando as pessoas chave para um processo têm motivações diferentes daquelas que expressam publicamente.

A história nos ensina muito sobre isso, mas a humanidade não se cansa de andar em círculos e cometer os mesmos equívocos. Uma boa solução para fugir desses problemas é observar o que está acontecendo com os vizinhos e avaliar friamente a situação.

Oferecer oportunidades iguais para todos é o primeiro princípio de qualquer sociedade democrática. Essa luta deve ser de todos, especialmente no campo da educação. Porém, é preciso estar atento a quem certas atitudes pode prejudicar.

O jornal americano Wall Street Journal chocou seus leitores ao informar sobre possíveis mudanças no Scholastic Aptitude Test (Teste de Aptidão Escolar), ou como é mais conhecido – SAT, um dos exames mais comuns dos EUA, equivalente ao Enem para o Brasil.

As estatísticas americanas mostram que os estudantes brancos obtiveram uma média maior do que os estudantes africanos e hispânicos em 2018, enquanto os estudantes asiáticos tiveram uma média mais alta do que os estudantes brancos, e alunos que os pais têm formação superior completa, tendem a estudar mais do que seus colegas.

Agora, segundo o Wall Street Journal, as universidades americanas levarão em consideração não só o conhecimento do futuro aluno, mas também a condição sócio econômica dele, ou seja, pessoas de “categorias desfavorecidas” receberão mais pontos e as que cresceram em “condições privilegiadas” perderão pontos. Além disso, entre os fatores que a lista de pontuação levará em consideração, estará o estado civil dos pais, ou seja, jovens de famílias completas recebem um ponto a menos, assim como os que possuem pais com educação superior também perderão um ponto.

Essa nova pontuação será calculada usando 15 fatores, incluindo a taxa de criminalidade e o nível de pobreza na escola secundária frequentada. Os alunos não terão acesso a sua média, somente as universidades que considerarem suas candidaturas.

Uma das razões para a mudança foi o escândalo, descoberto pelo FBI, de pais ricos que fraudaram os processos de seleção de algumas das principais universidades norte-americanas para garantir vagas para seus filhos.

Este episódio reacendeu o debate em torno dos temas raciais, econômicos e sobre o papel que esses fatores desempenham nas admissões em universidades. Um processo contra uma das instituições mais famosas do mundo, a Universidade de Harvard, por exemplo, acusa a escola de discriminar candidatos asiáticos e africanos dando-lhes baixas classificações “pessoais”, que levam em consideração traços como “liderança” e “simpatia”, e diminuindo sua chance de admissão, ao mesmo tempo em que atribuem classificações mais altas aos alunos americanos e hispânicos.

E essa não foi a única instituição. A Universidade de Yale foi acusada de tentar utilizar as pontuações para aumentar a diversidade socioeconômica em seu campus.

O grande problema que aponto nesse texto é que, com as novas regras, os alunos de bairros criminalizados ou que possuem família desestabilizadas receberão pontos adicionais, independente do seu conhecimento, ao mesmo tempo em que os estudantes quem possuem uma família estruturada e moram em bairros bons, mas que não são ricos, receberão pontos negativos simplesmente por sua condição.

Está tudo invertido. Os alunos que estudarão nas universidades não serão os mais inteligentes. Nesse contexto, esses alunos médios são considerados de “segunda classe” e tudo será mais difícil para eles.

Ademais, é claro que os ricos não são afetados pela pontuação nova, todos sabemos que seus filhos sempre terão seus lugares garantidos nas grandes universidades.

Um aluno que nasceu em família asiática ou branca de classe média precisará ser um verdadeiro gênio para ter chances contra estudantes africanos e hispânicos, mesmo que eles não tenham o mesmo nível de treinamento e conhecimento. Não é uma questão de distribuição de dinheiro e bolsas de estudo, porque um estudante ainda terá que se endividar em dívidas muito pesadas para pagar pela educação. É uma questão de “agenda oculta”.

Esse cenário é terrível para a classe média, mas estratégica para o governo pois a população norte-americana está mudando.

De acordo com o Censo, até 2023, a maioria das pessoas que terminarão a escola nos EUA não será americana, mas sim imigrantes de diferentes países em desenvolvimento, tornando a América mais multirracial.

Nesse sentido, diminuir os obstáculos que os impedem de obter diplomas universitários, essenciais para sua ascensão, não é apenas uma questão de justiça, igualdade, mas uma questão de interesse social, pois futuramente, estas pessoas serão a maioria de trabalhadores, consumidores e contribuintes. Portanto, o governo prega hoje que sacrifícios são necessários e escolhe quem será sacrificado.

O grande “sonho americano” está perdendo o brilho. É uma pena que a classe média educada e tradicional, sempre considerada um apoio confiável de qualquer estado, esteja sendo usada para resolver os problemas demográficos e de consumo.

Toda essa situação precisa ser abordada com um olhar crítico e deve nos ensinar muito. O Brasil deve apostar em busca de talentos, ofertar suporte educacional para aqueles que realmente desejam aprender e investir em criação uma ampla classe média educada e confiável. É o que vejo hoje como um desafio para nosso futuro.

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