Destaques
Facebook
Twitter
Print Friendly, PDF & Email

Carlos Rivera
Diretor Geral das Faculdades Anchieta de São Bernardo do Campo – SP

Há uma máxima em educação que diz “se tratarmos todos da mesma maneira, criaremos diferenças ainda maiores”. E este fato acabou se concretizando, uma vez que a atual fórmula proposta para aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação produziu resultados desfavoráveis para a Educação Tecnológica, quando comparada às graduações bachareladas e licenciaturas. Infelizmente os técnicos que propuseram as equações para o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE não levaram em conta que estão mensurando propostas diferentes com instrumentos iguais. Medir variáveis diferentes é uma tarefa que exige bem mais do que a familiaridade com a estatística. Caso não se corrija esta distorção, o projeto de educação profissional, tanto defendido pelo atual governo, estará em xeque.

Ao analisar os resultados do ENADE-2008 publicados em 2009 pelo INEP, percebe-se que, na formação geral dos ingressantes, os cursos bacharelados tiveram um desempenho de praticamente 6% a mais que os cursos superiores de tecnologia e de 2% com relação às licenciaturas. Já na formação geral dos concluintes, os cursos de tecnologia tiveram um ganho de 7,2%, em relação aos ingressantes, contra 2,9% das licenciaturas e 9,7% dos bacharelados. Mesmo com um ganho maior que os cursos de licenciatura, a formação geral dos egressos dos cursos de tecnologia ficou bem abaixo dos demais cursos de graduação.

A diferença é mais gritante no percentual de doutores dos diversos cursos. Temos, segundo o INEP, 28% de doutores na licenciatura, contra 23% nos cursos bacharelados e apenas 10% nos cursos superiores de tecnologia.

Esta situação está ocorrendo nas Instituições de Ensino Superior em função das políticas indutivas e pelas armadilhas criadas, no passado, pelos técnicos do Ministério da Educação. Vale lembrar que o início da Educação Profissional no Ensino Superior, na virada do milênio, fez com que as instituições desenvolvessem um amplo programa de aprendizado, uma vez que toda a cultura do ensino superior estava focada nas características dos cursos bacharelados e nas licenciaturas.

Foram necessários inúmeros esforços para a capacitação de professores, criação de novas regras institucionais, alterações em documentos oficiais, planos estratégicos específicos, institucionalização do projeto pedagógico, mudanças nos sistemas de gestão acadêmica e de informação, adequação de infra-estrutura, enfim, um considerado aporte de investimento para aproximação e atendimento a uma demanda de alunos que bateram às portas das instituições na busca de algo novo e mais próximo de suas necessidades profissionais.

As instituições identificaram e precisaram capacitar um novo tipo de docente, até então não valorizado pelos órgãos reguladores, que viam, na titulação acadêmica, condição suficiente para um bom desempenho em sala de aula. Assistimos a avanços significativos na avaliação do processo de ensino-prendizagem, na arquitetura curricular, na flexibilização da trajetória e no percurso de formação discente com certificações intermediárias.

E mais uma vez damos um passo atrás em termos de avaliação da educação profissional. Ressalta-se que o modelo escolhido pelo Brasil para a Educação Tecnológica não pressupôs o rompimento da velha dicotomia entre educação/ensino e formação profissional. Ou seja, o atual modelo pouco permite a interligação da formação geral com a formação específica. Por herança, em nosso país, desde os tempos do descobrimento, a escola ficou restrita aos filhos dos nobres, um local exclusivo do “saber”. Para os filhos dos pobres coube o “saber-fazer” vinculado diretamente ao trabalho. À medida que o saber-fazer se deslocou para o contexto educacional, gerou um tipo de educação entendida como de segunda categoria.

Hoje percebemos que algumas questões de concepção educacional não foram suficientemente discutidas pelos técnicos do Ministério da Educação, nem tampouco pela sociedade brasileira, como por exemplo: Devem o ensino e a formação privilegiar a formação geral ou a formação profissional? Será que a Lei de Diretrizes e Bases está sendo considerada? O que deve ser a formação geral e a formação profissional dos jovens brasileiros para a sociedade do conhecimento? Qual a quantidade de formação geral e de formação profissional mais adequada?

Com os cursos superiores de tecnologia, as instituições de ensino superior têm recebido diferentes grupos de alunos, não se restringindo apenas às faixas de 18 a 24 anos e têm enfrentado o desafio de fazer com que sua formação possa permitir sua ascensão profissional em um curto espaço de tempo. Como poderão privilegiar também nestes cursos uma ampliação da formação geral?

E o que estamos permitindo, na verdade, é que os alunos concluintes dos cursos de educação profissional de nível tecnológico, a partir de um único critério de avaliação, possam ser considerados casos de fracasso pelo simples fato de tratarmos todos da mesma maneira. Esta discriminação que poderá ocorrer pelos resultados vindos do ENADE é possível que derrame uma ducha de água fria no futuro da educação profissional. No início desta década, nas audiências públicas promovidas pelo MEC o que estava em jogo não eram os resultados comparativos entre as diversas graduações. O que se discutiu enfaticamente foi, entre outras coisas, a melhoria da educação tecnológica e das competências, um egresso mais adaptável ao mercado de trabalho, uma melhor regulamentação dos cursos e, sobretudo, a possibilidade de ocupação de mais e melhores postos de trabalho.

É chegado o momento de fortalecer a educação profissional, de criar instrumentos de avaliação próprios a este tipo de formação para não cair na tentação dos males do reducionismo e colocá-la em raias idênticas às outras graduações. Caso não façamos isto, colocaremos a Educação Profissional em xeque, talvez até em xeque-mate.

Compartilhe:
Avaliar

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics