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Paulo VadasPaul Ivan Vadas
Professor, palestrante, escritor e consultor em educação para instituições de ensino superior no Brasil e nos EUA
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Em recente artigo publicado na revista Época, intitulado “A universidade burra”[1], Walcyr Carrasco, renomado jornalista e roteirista de peças teatrais e novelas de televisão, afirma que “…por experiência própria: a universidade brasileira é burra”. Duas semanas depois, Fredric M. Litto, idealizador e diretor da “Escola do Futuro” (1989-2006) da ECA/USP, hoje, fundador (1995) e presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), publica artigo onde expressa sua opinião que: “Inovações no Brasil, em geral, são raras porque embutidos na nossa cultura existem valores conservadores… procurando manter o “status quo” acima de qualquer outra ação”.[2]

Com mais de 20 anos de prática na educação superior brasileira, simpatizo com as frustrações que Carrasco e Litto expressam nos seus artigos: a universidade brasileira[3] é percebida por muitos como uma instituição burocratizada, sem muita imaginação, criatividade, ou inovação. Por outro lado, acredito também que generalizar pode ser perigoso e injusto: o Brasil é um país continental, complexo, e diverso, e essa complexidade e diversidade se reflete no sistema educacional brasileiro, do Oiapoque ao Chuí.

Certamente, existem visionários educacionais que nos dão ânimo para pensar que temos excelentes educadores que, tal qual Paulo Freire, se preocupam com a aprendizagem de seus alunos. Gabriel Mario Rodrigues, ao se referir às experiências pedagógicas inovadoras e de sucesso de Felice Leonardo Buscaglia, assim expressa as ambiguidades do sistema educacional brasileiro:

“Tendo em vista, porém, o bom desempenho dos estudantes nas avaliações, a escola passou a usar o mesmo método (de Buscaglia). Havia, no entanto, um problema quase insuperável, quando os fiscais da prefeitura passavam para verificar se os programas estavam sendo cumpridos. Aí acontecia uma grande correria para desmanchar as bancadas e inventar relatórios escritos para burlar a fiscalização. Sabemos que os embates com a burocracia ocorrem até os dias atuais, pois a prioridade continua sendo o cumprimento do que está no papel em vez do valor das experiências inovadoras.”[4]

As percepções/colocações de Carrasco, Litto e Rodrigues merecem profundas reflexões e comentários sobre suas críticas que, mesmo de forma genérica, tem seus méritos. Desde já, quero deixar claro que, neste trabalho, as generalizações (negativas ou positivas) não se aplicam ao sistema educacional de nível superior brasileiro como um todo, mas sim, são percepções que, de uma forma ou outra, refletem muitas realidades que permeiam uma boa parte do sistema e, portanto, merecem serem abordadas e levadas a sério.

A principal crítica de Carrasco é sua percepção de que “a universidade se distancia da realidade do mercado de trabalho” ao não inserir no corpo docente profissionais experientes que ainda se encontram no mercado sem que estes seguissem “todos os passos da burocracia acadêmica”. Sem desmerecer totalmente esta afirmativa, posso dizer que conheço várias IES brasileiras que têm no seu corpo docente profissionais atuantes e que dão aulas ou para complementar seus ganhos, ou como prestígio curricular, ou ainda, por não conseguirem dar aulas em tempo integral, se mantém trabalhando nas suas respectivas profissões, além muros. Essa situação é muito mais fruto da política de cada instituição do que de uma regra imposta pela legislação, ainda que o sistema de avaliação do MEC não estimula a prática de contratar profissionais do mercado, determinando que o principal indicador de “qualidade” docente como fator de pontuação, reside na quantidade de mestres e doutores com dedicação em tempo integral.

Mas não foi só este fator de docência que Carrasco menciona como constatação que “a universidade é burra”. Ao destrinchar seu artigo, notamos várias críticas que faz, desde as políticas administrativas, atitudes dos docentes acadêmicos, até o comportamento dos alunos.

Em relação às políticas administrativas, por exemplo, além da falta de interesse em contratar profissionais atuantes, Carrasco faz uma crítica sobre uma faculdade particular que cobra altas mensalidades mas não tem verba para pagar palestrantes que podem contribuir com a aprendizagem dos seus alunos. Em relação ao corpo docente, reclama que os acadêmicos estão na universidade para “escrever teses que ninguém lê”, e que se sentem incomodados por profissionais do mercado. Em relação aos alunos, reclama que são indisciplinados, entram e saem das palestras sem que haja algum controle por parte dos dirigentes/professores da instituição.

Muitos mantenedores são realmente gananciosos e, com a finalidade de aumentar seus lucros, pagam o mínimo possível para seus respectivos docentes e cobram o máximo possível dos seus discentes – comprometendo a qualidade das atividades educacionais das suas respectivas instituições. Muitos professores batem o ponto, cumprem com seus horários, se desmotivam com os baixos salários e/ou a falta de planos de carreira, se acomodam e não se atualizam com o estado da arte das suas respectivas profissões. E, muitos alunos pagam suas mensalidades, cumprem o mínimo necessário para “tirar nota” e “passar de ano”, assistindo palestras somente para marcar presença, ficando de olho no diploma e não na aprendizagem.

Já, Litto, cujo gabarito impressiona[5], vai mais a fundo. Sua percepção é que a sociedade brasileira está contaminada por uma cultura anti-inovação, caracterizada pelo “Cartorialismo, Corporativismo, arrogância do Estado com relação a seus cidadãos, a falta do espírito de procura por excelência… e, talvez o mais determinante de tudo quando falamos de “inovação”, o conceito de isonomia – não distinguindo indivíduos inovadores (e produtivos) acima dos demais.”[6]

Todas essas críticas, em maior ou menor grau, procedem. Novamente, sei que não devemos generalizar e que muitas IES brasileiras, muitos docentes, e muitos discentes são excelentes, mas a percepção geral de baixa qualidade tem seus fundamentos. Não há como contestar o relativamente fraco desempenho das IES brasileiras quando comparadas aos dos países desenvolvidos e, mesmo, à várias IES de países em desenvolvimento.

Responsáveis por mais de 75% do alunado brasileiro, as críticas são ainda mais fortes quando verificamos que mesmo as melhores universidades particulares brasileiras estão longe de fazer parte de qualquer ranking internacional que se preze. Mesmo cobrando “altas” mensalidades, elas ficam muito a desejar. Somente três IES particulares, PUC-Rio (506º lugar), PUC-SP (573º lugar), e PUC-RGS (678º lugar), são mencionadas pela QS World University Ranking[7].

Mas, não só as particulares ficam muito a desejar.

Em um país cuja economia é considerada entre a 6ª e 8ª do mundo, dependendo do valor do dólar do dia, e passa por uma crise que está paralisando seu crescimento, aquela que é considerada sua melhor universidade, a Universidade de São Paulo (USP) não condiz com as expectativas que deveriam ser próprias de um país de primeiro mundo.

Senão vejamos:

  1. A USP atrai os melhores alunos das melhores escolas de segundo grau do País – portanto, não se pode dizer que seu corpo discente é de baixa qualidade, como é o caso de muitas das universidades particulares;
  2. Talento no seu corpo docente é que não falta, principalmente na área científica. De acordo com os indicadores da Scimago Institutions Ranking[8], o Scientific Talent Pool[9] da USP é considerado como o 5º do mundo (isso mesmo, quinto lugar), atrás somente da Centre National de La Recherche Scientifique, da França (1º. lugar); Chinese Academy of Sciences, da China (2º. lugar); Russian Academy of Sciences, da Russia (3º. lugar); e Harvard University, dos Estados Unidos (4º. lugar).[10]
  3. Produção Científica (Output), também não falta. Enquanto as quatro primeiras colocadas no ranking the talento continuam nas mesmas posições, neste quesito a USP cai para 10º. lugar – atrás de 5 outras IES com menos talentos) [11];
  4. A grande diferença se nota, porém, quando se considera o quesito Conhecimento Inovador (Innovative Knowledge). A francesa continua em 1º. lugar, a americana sobe para o 2º., a chinesa cai para o 5º., a russa para o 94º. E a brasileira cai para o 179º. Ou seja, a USP tem excelentes talentos, que produzem bastante, mas que inovam bem abaixo do seu potencial, ficando atrás de 175 outras IES no mundo com menos talentos[12];
  5. No quesito Impacto Tecnológico (Technology Impact), segundo o ranking da Leiden University, universidade da Holanda que há 25 anos faz o ranking científico das 750 melhores universidades do mundo, a Harvard fica em 3º. Enquanto que a USP fica em 678º, ou seja, a USP produz muito, porém muito do que ela produz não é relevante[13]; e
  6. No ranking geral, o resultado também não é dos melhores. A USP, universidade que se encontra em 5º lugar no mundo com o maior número de talentos, se encontra em 132º lugar no ranking da QS World Universities Rankings (2014/15)[14], e em 215º no da prestigiada Times Higher Education World University Rankings (2014-2015)[15].

Podemos questionar os rankings do ponto de vista dos critérios utilizados e outros vieses que possam existir. Porém não há como contestar o fato que todos os rankings das mais prestigiadas instituições de análise e avaliação universitária mundial apontam que a melhor instituição de educação brasileira, a USP, mesmo com todos seus talentos docentes e discentes, não fica entre as 100 melhores do mundo. Pior ainda, em termos de ranking, atrás da USP, as duas melhores universidades brasileiras no ranking da QS são a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 206º e 271º lugares, respectivamente[16].

Se mesmo com os melhores professores e os melhores alunos a melhor universidade brasileira não consegue acompanhar a qualidade de outras universidades que não tem os mesmos talentos, perguntamos: onde estão os problemas e como podemos solucioná-los?

Litto, cuja experiência/vivência na própria USP lhe permitiu conhecer em primeira mão o ambiente educacional da mais badalada IES brasileira, mesmo não mencionando a USP, expressa uma percepção que pode ser sintomática. Litto garante que os milhões gastos “na promoção de “inovação” no Brasil hoje: empregos apadrinhados, novos centros de atuação aparelhados, conferências e publicações que são uma mistura de ideias de empreendedorismo e autoajuda… será (sic) inútil devido ao ambiente cultural hostil à inovação que reina, e sempre reinou no país.”[17]

Se, conforme Litto, o problema é o “ambiente cultural hostil à inovação”, temos talvez aí uma tese que pode explicar o porquê da USP, mesmo com tantos talentos, tem uma produção tão baixa em relação ao “conhecimento inovador” e ao “impacto tecnológico”. Vários estudos (que serão referenciados no meu próximo trabalho: “Condicionados a se Conformar: Por Que é Tão Difícil Efetuar Mudanças na Educação Superior Brasileira), indicam que o principal fator que influencia a inovação e a criatividade é de que forma o meio ambiente promove ou não a inovação e a criatividade.

E qual a solução? Segundo o próprio Litto, “(e)m vez de gastar, inutilmente, vastas somas para estimular a inovação, deveríamos usar esses recursos para programas e projetos para diminuir os “muros culturais” que impossibilitam a inovação.”[18]

Voltando às percepções de Carrasco, se a universidade brasileira é burra ou não, penso que é uma questão de opinião. Porém, na minha própria percepção, baseada nas minhas experiências pessoais, penso que, em muitos aspectos, uma boa parcela delas são arcaicas, burocráticas, medrosas, e, em relação às particulares, muitas delas tem visão curta e são gananciosas. Em muitos casos, seus docentes são acomodados, desmotivados, desvalorizados, e sem liberdade para inovar. Já, seus alunos estão mais focados em “tirar nota”, “passar de ano, e “”se formar”, do que em aprender e desenvolver suas competências e seus talentos. É um problema cultural circular, decorrente de comportamentos e atitudes focados em controles e processos quantitativos (hora/aula, quantidade de alunos/professor, dias letivos, anos de escolaridade, número de especialistas, de mestres, de doutores, etc.) e não em processos qualitativos que focam no aprendiz e que visam avaliar os resultados da sua aprendizagem e do desenvolvimento das suas competências.

De que forma a direção, o corpo docente, e o corpo discente afetam a qualidade daquelas que são consideradas as melhores IESs brasileiras? Como desenvolver e implementar uma reforma que realmente transforme não só processos mas também atitudes, comportamentos e valores que impulsionem o sistema universitário para os mais elevados níveis de qualidade? Enfim, como destruir os “muros culturais” que impedem atingir todo o potencial criativo e inovador que existe de forma latente nas universidades: desde seus dirigentes, passando pelo seu corpo docente e funcional e chegando ao seu corpo discente?

Rodrigues, inovador educacional por excelência, na sua percepção sobre os caminhos da educação, adverte: “Os que não inovarem na área educacional irão cavar seu próprio fim… a tecnologia dominará totalmente o ambiente da sala de aula – este é um processo irreversível – e os desafios serão enormes para quem quiser permanecer vivo no setor.”[19]

Que existem inovadores no Brasil, não tenho dúvidas. Carrasco, Litto, e Rodrigues, têm, eles próprios, contribuído significadamente com inovações nas suas respectivas áreas de atuação. Dizer que no Brasil não se inova é desmerecer os trabalhos destes e muitos outros brasileiros que, muitas vezes de forma silenciosa, sem alarde, estão transformando a educação com modelos sui generis aplicados nas suas escolas, como o fez Buscaglia.

Os três trabalhos citados, implícita ou explicitamente, levantam os problemas percebidos, destacam algumas soluções, exemplificam alguns modelos e, no final, nos levam à mesma conclusão: para entender melhor o que acontece no complexo mundo da educação superior brasileira, precisamos sair do campo da percepção e adentrar no campo da investigação científica. Para respondermos às perguntas de Antonio Carlos Teixeira (ver quadro abaixo), há que se fazer um estudo sério, amplo e profundo, sobre a universidade brasileira (públicas e privadas), sobre as políticas e atitudes educacionais governamentais, sobre a visão e atitudes dos dirigentes das IES, sobre as práticas pedagógicas, sobre os ambientes educacionais e, principalmente, sobre os valores, atitudes, e comportamentos dos dirigentes, docentes, discentes, pais, e outros stakeholders que compõem a comunidade educacional.

“Por que, muitas vezes, é tão difícil pensar diferente e implantar a gestão da inovação? O que nos impede de transformar novas ideias em novos negócios? Na escola, quais são os fatores que atrapalham e os que ajudam a inovação? Qual é o ambiente mais adequado para aplicar o Processo Criativo? Como criar um clima mais favorável às novas ideias? Que comportamentos e atitudes deverão ser evitados? Desestimulam a criatividade e a inovação a excessiva preocupação com um programa engessado, o medo de tentar novas alternativas, o “sempre fizemos assim” e as punições por erros? A escola prioriza o empenho total dos professores na busca de melhores maneiras de transmitir o conhecimento ou fazer tudo funcionar sem problemas, sem surpresas, na mesmice?”[20]

 

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[1] Walcyr Carrasco, “A Universidade Burra”, Época, 14 de novembro de 2014, p 90

[2] Fredric M. Litto, “A Inutilidade de Promover Inovação em Educação no Brasil”, Abmeseduca, http://abmeseduca.com/?p=8892, 01 de dezembro de 2014.

[3] O conceito de “Universidade Brasileira” se refere à uma generalização que tenta, de alguma forma, caracterizar uma percepção genérica da educação superior brasileira. Em um país continental e diversificado como o Brasil, o certo seria falarmos no plural: “Universidades Brasileiras”, mas aí então perderíamos a essência do conceito de “percepção”, conceito esse que denota um entendimento totalmente subjetivo e genérico do tema em pauta e que pretende simplesmente levantar os questionamentos e as críticas, certas ou erradas, que se fazem sobre o sistema educacional brasileiro.

[4] Gabriel Mario Rodrigues, “Inovação – tarefa que o setor educacional deve fazer acontecer”, Abmeseduca, http://abmeseduca.com/?p=8764, 04 de novembro de 2014.

[5] Bacharel pela Universidade da California, Los Angeles (1960), e Ph.D. pela Indiana University (1969), é membro do Editorial Boards of the scholarly journals Open Learning (U.K.),  International Review of Research in Open and Distance Learning (Canada), the American Journal of Distance Education (U.S.A.), e da Revista Interamericana de la Educación a Distancia (Spain). Em 2007 ele ocupou a “Rio Branco Chair” do Institute of Education of the University of London, e foi eleito membro do Comitê Executivo do ICDE-International Council of Open & Distance Education, para o período 2008-2011. Em 2009 e 2011, livros sobre educação a distancia, de sua autoria, foram premiados pelo Premio Jabuti da Associação Brasileira de Publicadores, o primeirona categoria “Educação”, e o segundo na categoria “Ciencias da Tecnologia e Informação”.

[6] Litto, op. Cit.

[7] http://www.topuniversities.com/university-rankings/world-university-rankings/2014#sorting=rank+region=+country=+faculty=+stars=false+search=

[8] http://g1.globo.com/educacao/noticia/2014/10/brasil-fica-de-novo-fora-do-top-200-de-ranking-das-melhores-universidades.html

[9] http://www.scimagoir.com/research.php?rankingtype=research&indicator=Scientific%20Talent%20Pool

[10] Há que se notar que as três primeiras não são universidades: são instituições governamentais de pesquisas. A Harvard é universidade particular, e a USP é universidade estadual.

[11] http://www.scimagoir.com/research.php

[12] http://www.scimagoir.com/innovation.php

[13] http://www.leidenranking.com/ranking/2014

[14] http://www.topuniversities.com/university-rankings

[15] http://www.timeshighereducation.co.uk/world-university-rankings/2014-15/world-ranking/range/001-200

[16] http://www.topuniversities.com/university-rankings/world-university-rankings/2014#sorting=rank+region=+country=+faculty=+stars=false+search=

[17] Litto, op. Cit.

[18]Litto, op. Cit.

[19] Rodriques, op. cit.

[20] Antonio Carlos Teixeira, conforme citado em Rodrigues

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