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Celso Niskier
Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
Reitor do Centro Universitário UniCarioca
***

Estou emocionado. Não tenho vergonha de dizer o que sinto nesse momento tão importante da minha vida profissional, quando tomo posse na Cadeira 20 da Academia Brasileira de Educação (ABE), pois sou um educador, e não há educação sem emoção.

Ao longo da minha jornada, observei que alguns teóricos preferem entender a educação do ponto de vista meramente cognitivo, cerebral. Para eles, educar seria dotar a mente humana de conhecimentos que propiciam uma vida melhor e mais ilustrada. É o que eu chamaria de “modelo do balde”: enchemos de pedrinhas o cérebro do aluno, até que lá não caiba mais nada. Paulo Freire, de forma crítica, chamaria esse modelo de “educação bancária”: meros depósitos mentais, sem nenhum valor, a não ser sua utilidade prática. Mas se limitaria a isso a tarefa de educar? Em tempos de Inteligência Artificial, será que os algoritmos não farão esse papel?

Outros teóricos, mais sintonizados com o espírito humano, falariam que a educação não pode se limitar ao cérebro, precisa, também, incluir o coração, mexer com os sentimentos dos alunos, faze-los aprender a gerir suas emoções, em toda a diversidade que simboliza a rica experiência humana.

A educação, para esses, seria como um “holofote”: ativado, nosso coração iluminaria o caminho, indicando a melhor direção para levarmos uma vida produtiva e feliz. Mas só as emoções são suficientes para criar cidadãos no mundo de hoje? Não estaríamos confundindo nossas paixões e desejos com o que realmente importa para levar uma vida produtiva? Afinal, o que realmente importa?

Eu quero falar aqui de uma terceira visão sobre a educação, uma visão complementar às outras duas, que é a educação do caráter. Educar é fazer brotar no espírito dos alunos os valores que guiarão sua vida, em todas as direções. Uma educação de valores é também uma educação espiritual, fazendo-nos conectar com o que está além da mera matéria, do mero pensamento, da mera emoção. Uma educação de valores é a educação da transcendência, por excelência. Eu chamaria, a esse, o modelo “holístico” da educação, um modelo capaz de unir mentes, corações e valores na construção de um ser humano mais completo e mais realizado.

Lembro, para ilustrar essa visão multidimensional e holística da educação, da parábola do Mágico de Oz, na célebre estória imortalizada por L. Frank Baum em seu livro do século passado e lembrada por todos os que se encantaram com os desafios de Dorothy na busca por si mesma.

No caminho para o Reino de Oz, Dorothy encontrou três anti-heróis: o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. O Espantalho queria ter um cérebro. O Homem de Lata ansiava por um coração. E o Leão Covarde lutava para ter coragem.

A todos os três faltava algo: a um, cérebro; a outro, coração; ao terceiro, ímpeto de coragem. Pois aqui estão as três dimensões de uma educação verdadeiramente holística: precisamos de educadores que integrem o correto pensar, o correto sentir e, principalmente, o correto agir. Alunos precisam de cérebros fortes, mas também de corações generosos e de boas doses de coragem para transformar seus sonhos em realidade. Razão e emoção, guiadas por atitudes e valores corretos, é o que todos precisamos.

Somente assim poderemos desfazer os mitos do Mágico de Oz, e conquistar a plena realização que, de fato, buscamos aqui na terra, essa que chegará, na tradição judaica, com a vinda do Messias. Enquanto isso, nos cabe, como educadores, preparar o mundo, fazer o que chamamos em hebraico de Tikkun Olam, o conserto do mundo, e o caminho para isso é a educação.

Ser recebido na ABE pelo meu pai, Arnaldo, me emociona profundamente. Ele – que foi, é e sempre será uma grande referência de vida, não só para mim como para gerações de educadores que ele tocou através de seus livros, de seus programas de televisão e de suas palestras pelo Brasil e pelo Mundo – representa essa visão da educação holística que defendo. Dotado de um cérebro brilhante, é também humano, demasiadamente humano, com um coração gigante, no qual cabem, além da minha querida mãe Ruth, todos os seus filhos, as netas e outros tantos que dele receberam o carinho, a atenção e o olhar seguro. Com coragem, que nunca lhe faltou, possui um legado de grandes obras, físicas e imateriais, construído nas várias vezes em que atuou como Secretário de Ciência, Tecnologia, Educação e Cultura. Cérebro, coração e coragem, marcas de um grande ser humano que é o meu pai Arnaldo, a quem eu registro o meu muito obrigado.

Ao presidente Carlos Alberto Serpa, meu querido padrinho profissional, e a todos os acadêmicos que me honraram com a eleição para a Academia Brasileira de Educação, agradeço de coração pela oportunidade de estar com vocês, debatendo os rumos da educação em nosso país. Não há lugar mais qualificado do que a ABE, de tantas tradições, e espero poder contribuir com esses importantes debates a partir de agora.

Quero registrar a presença na posse de tantos amigos da ABMES, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, entidade que tenho a honra de presidir, e que me ensina, a cada dia, o valor do trabalho coletivo, da união e do respeito às diversidades institucionais. O setor particular de ensino superior representa hoje mais de 88% das instituições em todo o Brasil, responsável por mais de 6 milhões de estudantes no país, uma força em prol da transformação social da qual muito me orgulho em liderar, junto com uma equipe fantástica de mantenedores e colaboradores.

Essa minha conquista, nesse momento em que tomo posse na ABE, é também de todos os meus colegas e amigos da nossa UniCarioca, uma obra em construção, que ano que vem completa 30 anos. Nós não somos, por seis anos consecutivos, o melhor centro universitário do Rio de Janeiro por acaso. É um trabalho diuturno, árduo, mas recompensador. Estamos formando as gerações que vão recuperar o nosso Brasil, que vão construir um futuro melhor para nossos filhos e netos. Nossos quase 13 mil alunos representam a esperança em dias melhores. Não podemos e não vamos decepciona-los, pois esta é a nossa missão: lustrar mentes, polir corações e iluminar caminhos, com coragem, para que o futuro seja melhor do que o agora, assim como a nossa realidade hoje é muito melhor do que há trinta anos, quando começamos. Muito obrigado a vocês, da UniCarioca, por terem me ensinado que a educação vale a pena, quando abraçada com fé e determinação.

Para encerrar, lembro das palavras dos mestres da tradição judaica, que, quando perguntados pelos seus alunos sobre o significado da vida, respondiam misteriosamente: ora, o significado da vida é… levar uma vida significativa!

Esse momento, acreditem, é extremamente significativo na minha vida, estando eu cercado de amigos e confrades, me sentindo realizado e, ao mesmo tempo, energizado para muitos outros desafios que certamente surgirão na minha trilha de educador. Com cérebro, coração e coragem, vamos juntos construir uma educação digna do país que desejamos.

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2 Respostas para “A educação no Reino de Oz”

  • Luiza says:

    Parabens Celso! Sei que sera sucedido. Lembro os velhos tempos da PUC e sua vontade nao so de aprender mas para contribuir.

     
  • Maria Cecília says:

    Fui apresentada ao Sr., por uma amiga educadora.
    Sou professora e nunca lecionei por não me sentir
    Com disponibilidade para essa missão (leão covarde)
    Parabéns pela sua nomeação e PARABÉNS pelo seu
    Trabalho!
    Obrigada

     

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