Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
***

“A educação escolar necessita assegurar novas aprendizagens, com prioridades de avaliações consistentes, frutos de desafios curriculares próprios da educação contemporânea, com transparência das ações da escola.” (Prof. Vasco Pedro Moretto)

Há muitos institutos e fundações que desenvolvem iniciativas de realce em prol a educação brasileira. Registramos ao final do texto[i] algumas entidades que fazem um belo trabalho de incentivo para que nossos estudantes aprimorem suas competências.

Nossos últimos artigos mostram que o Brasil precisa querer colocar-se entre os 10 melhores participantes do “campeonato mundial de educação”. Razão de entrevistar Helena Neiva[1], presidente da Fundação Pitágoras, para conhecer o trabalho que está sendo feito há vinte anos para aprimorar os educadores a utilizarem uma metodologia para seus estudantes terem êxito no SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica. Eis as questões:

Gabriel Mario Rodrigues – Quais são os objetivos concretos do SGI – Sistema de Gestão Integrado para os alunos do ensino básico?

Helena Neiva O filósofo romano Sêneca, que viveu no início da era cristã, nos ensina que “para quem não sabe onde ir, não existe vento a favor”. Outra constatação recorrente dos tempos atuais diz que só se pode melhorar aquilo que se consegue medir.  Em última instância, o propósito de uma escola, a sua razão de existir, é o aluno! E, para ser mais precisa: a aprendizagem do aluno! O que nos leva a uma constatação óbvia, mas que não pode ser ofuscada: A ESCOLA SÓ É BOA QUANDO O ALUNO APRENDE! Os resultados a serem buscados por uma escola são, portanto, os altos níveis de aprendizagem dos alunos, que é o propósito do nosso SGI.

GMR – Na prática, o que está sendo feito em relação à melhoria da aprendizagem dos alunos nas escolas públicas?

Helena Neiva – A Fundação Pitágoras desenvolveu uma metodologia de gestão especialmente talhada para redes públicas de ensino da educação básica – o Sistema de Gestão Integrado (SGI) – que, ao longo das últimas duas décadas, impactou centenas de escolas e centenas de milhares de alunos e educadores por todo o Brasil. Essa metodologia envolve todos no processo educacional (lideranças, educadores e alunos) que se mobilizam na mesma direção, razão máxima de ser de toda escola: o alto nível de aprendizagem dos alunos. Atualmente essa metodologia está em processo de transformação digital, evoluindo de um modelo 100% presencial, para um formato híbrido, no qual grande parte do programa será ofertado no modelo EAD, mantendo alguns encontros estratégicos presenciais. Nesse novo modelo, que estará disponível a partir do início de 2021, será possível levar esse benefício para um número maior de escolas em menos tempo, alcançando alta escalabilidade com custo ainda mais reduzido.

GMR – O que é de fato este Sistema de Gestão Integrado?

HN – Cada sigla do SGI ilustra bem no que consiste o programa:

Sistema: a metodologia engloba e trabalha com todos os sistemas que compõem uma comunidade escolar – Secretarias de Educação, Escolas, Classes e Alunos. Portanto, a partir da liderança da Secretaria até o chão da sala de aula.

Gestão: o programa tem como foco a gestão, e não interfere nas práticas pedagógicas ou no material didático, por exemplo. São trabalhados sete elementos da gestão, adaptados para a realidade escolar: 1. Liderança; 2. Finalidade (necessidades e expectativas a atender); 3. Plano a seguir; 4. Processos de trabalho; 5. Pessoas trabalhando; 6. Informações; 7. Resultados.

Integrado: a metodologia integra/alinha os esforços dos diferentes sistemas, colocando todos remando na mesma direção: o alto nível de aprendizagem dos alunos.

GMR – Esse curso é oferecido para o diretor e professores de cada escola?

HN – Antes de mais nada é importante registrar que o SGI não é um curso. Seu grande diferencial é promover o aprendizado em ação. Durante cerca de 2 anos, gradativamente, o conteúdo vai sendo trabalhado com os educadores, e, na medida em que aprendem e assimilam os conceitos, implantam no seu dia a dia. É uma formação “mão na massa” e ao final do programa os participantes dominam a metodologia e seguem de forma autônoma com uma nova maneira de atuar, não trabalhando mais, mas trabalhando melhor.

GMR – Como a tecnologia colabora no processo?

HN – Um dos principais valores do SGI é a gestão centrada na aprendizagem e o foco em resultados. Sempre soubemos a força de impacto do SGI, mas, recentemente, graças à tecnologia atual, conseguimos criar um dashboard (painel de controle) alimentado diretamente da base de dados do INEP, que mostra a evolução do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)[2] em todas as escolas públicas de educação básica do Brasil, e também nos dá um diagnóstico individualizado de cada escola, o que nos permite entender quais engrenagens acionar para promover uma evolução mais rápida e efetiva.

Com o dashboard conseguimos analisar de forma comparativa, com total segurança e confiabilidade dos dados, o desempenho das escolas que aplicaram a metodologia com as escolas que não o fizeram, constatando que as escolas com SGI apresentam resultados superiores. tanto nos anos iniciais, quanto nos anos finais do Ensino Fundamental, comprovando de forma inequívoca a efetividade do programa.

GMR – Como estão sendo os resultados práticos da implantação do SGI?

HN – Para os anos iniciais do Ensino Fundamental, a média dos resultados das escolas que implantaram o SGI (859 unidades pelo Brasil) chega a ser 0,5 pontos   superiores em relação à média dos resultados das escolas que não implantaram. Na prática esse acréscimo representaria 1 ano a mais de escolaridade para os alunos. Para os anos finais, a média das escolas com SGI chega a ser 0,2 / 0,3 pontos acima da média nacional. Importante lembrar que uma evolução de 0,2 pontos no IDEB a cada ciclo de avaliação é considerada satisfatória.

Sob qualquer ponto de vista, o SGI não apenas acelera o processo de evolução, como também promove saltos muito expressivos, encurtando em muito o caminho traçado rumo à melhoria da qualidade das escolas públicas do Brasil. Quando pensamos que cerca de 80% das crianças e dos jovens brasileiros cursam a educação básica na rede pública, mostra a importância que o SGI promove. Um guia para acompanhar realmente se o aluno está aprendendo.

SGI – Hoje

•      Estamos implantando o SGI em todas as escolas públicas de Brumadinho (23 no total), impactando cerca de 7 mil alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio.

•      Próximo município a receber o SGI será Breves, localizado na Ilha do Marajó / PA. Essa região, apesar de ser um dos locais mais bonitos do Brasil pela exuberância da natureza, é a região com o maior índice de abuso infantil do País. Breves tem os piores IDEB e IDH do Estado, e com o SGI vamos impactar quase 16 mil alunos em 31 escolas públicas da cidade. Início previsto: março/21.

Esse e tantos outros exemplos nos sinalizam que temos muitas pessoas, empresas, instituições e fundações estão atuando para que em nosso país a educação seja tratada como base e prioridade central para nosso desenvolvimento. Enquanto não houver um plano de estado e uma grande mobilização nacional, as redes colaborativas são o caminho para colocarmos o Brasil e os brasileiros no topo do campeonato.

 

__________________________

[1] Helena Neiva é responsável pelo desenvolvimento e implementação de projetos de alto impacto social, para pessoas com diferentes graus de vulnerabilidade, englobando programas para o desenvolvimento da primeira infância, a melhoria da aprendizagem dos alunos nas escolas públicas e a humanização do sistema prisional. Atualmente preside a Fundação Pitágoras, e lidera os movimentos Conspiração Mineira e Aliança Brasileira pela Educação. É graduada em Comunicação Social (UFMG), com especialização em Gestão Educacional (Faculdade Pitágoras) e formação no Programa de Liderança Executiva em Desenvolvimento da Primeira Infância (Harvard).

[2] IDEB é o principal termômetro da qualidade das escolas públicas brasileiras. Varia de 1 a 10 e leva em conta a taxa de aprovação e as notas de português e matemática alcançadas em testes padronizados por todo o Brasil (Prova Brasil, hoje denominada SAEB). O indicador ajuda a sociedade a acompanhar a evolução das escolas e a estabelecer metas de desempenho. No ano de 2022 (bicentenário da Independência do Brasil) o País precisa alcançar as seguintes metas como média nacional: 6,0 para os anos iniciais do Ensino Fundamental; 5,5 para os anos finais; e 5.2 para o Ensino Médio. O exame é aplicado a cada dois anos para todos os alunos de escolas públicas do 5o e 9o anos do Ensino Fundamental e 3o ano do Ensino Médio. A aplicação acontece nos anos ímpares, e a divulgação dos resultados nos anos pares.

 

[i] Institutos e fundações que desenvolvem iniciativas para aprimoramento da educação nacional:

Aprendendo Sempre
Centro de Inovação para a Educação Brasileira
Ensina Brasil
Fundação Bradesco
Fundação Dom Cabral
Fundação Lemann
Fundação Pitágoras
Fundação Roberto Marinho
Imaginable Futures
Instituto Alana
Instituto Ayrton Senna
Instituto Claro
Instituto Cyrela
Instituto Ismart
Instituto Maria Cecilia Souto Vidigal
Instituto Natura
Instituto Península
Instituto Ponte
Instituto Samuel Klein
Instituto Semear
Instituto Sonho Grande
Instituto Unibanco
Instituto Votorantim
Itaú Social
Movimento Colabora Educação
Movimento pela Base
Oi Futuro
Portal Aprendiz
Porvir
Quíron Educação
Todos pela Educação

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3 Respostas para “A escola só é boa quando o aluno aprende”

  • valter stoiani says:

    Seria muito interessante conhecermos melhor a SGI, que nos propõe a professora Helena da fundação Pitágoras.
    Como articular a questão pedagógica com a SGI . E o trabalho de preparo e ajuda aos gestores escolares.
    Uma sugestão seria de podermos criar uma roda de conversa virtual para esclarecer alguns pontos. E aproveitar a relação de entidades e ONGs, muito bem feita, que se debruçam nesta complexa questão educacional, para convida-los a participar desta conversa.
    Mas parece de qualquer maneira que o consenso aponta que para os tempos atuais, mais importante que o conteúdo de informações, surge a capacidade de desenvolver a criatividade, habilidades , saúde mental e sócio-emocional, dos envolvidos na educação. Ou seja, comunidade, professores , gestores , alunos. E a nosso ver isto passa pelo conhecimento profundo da realidade humana dos envolvidos no trabalho educacional, em sua dimensão individual , cultural, social. Portanto a receita , terá que ser regional e não única. Para não corrermos o risco de privilegiar avaliações quantitativas do faze ,ter e conhecer, pelas avaliações do criar e ser que a nosso ver é a essência do ato educativo.

     
  • Parabéns pela matéria professor, destacaria também a associação “Parceiros da Educação” que atua com parcerias entre a sociedade civil, escolas e redes públicas de educação de ensino fundamental e médio contribuindo para a melhoria da aprendizagem dos alunos.

     
  • WANDY CAVALHEIRO says:

    Maravilhoso saber que tem muita gente com iniciativas tão relevantes para Educação Básica.
    Só temos que aplaudir e quem puder ajudar.

    Parabéns Profa. Helena Neiva.

     

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