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Paulo VadasPaul Ivan Vadas
Editor educacional do jornal online Brazil Monitor
Professor, palestrante, escritor e consultor em educação para instituições de ensino superior no Brasil e nos EUA
***

Quando, no início da década de 90, tive o prazer de participar do I Seminário Brasileiro de Marketing Educacional e de organizar os II e III Seminários (eventos estes promovidos pelo SEMESP, sob a presidência do professor Gabriel Mario Rodrigues), percebi o quanto ainda era incipiente o ensino superior particular brasileiro. À época, as IES brasileiras eram ainda faculdades, com dirigentes que entendiam que tinham pouca autonomia sobre a gestão educacional/pedagógica das suas respectivas entidades, em que pese a Constituição Federal de 1988 já estar em vigor e determinar, no seu Artigo 206, que “o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e de coexistência de

instituições públicas e privadas de ensino….”

Nesse período, poucas IES se aventuravam a inovar e, via de regra, seguiam as ideias e concepções pedagógicas às quais estavam acostumadas. Não percebiam que não eram mais “prisioneiras” da antiga LDB. Eram prisioneiras dos seus próprios hábitos e paradigmas – da mesma forma que muitas ainda o são até hoje.

Em função da CF/88, profundas alterações educacionais foram instituídas no Brasil durante toda a década de 90 e início dos anos 2000. A começar pela extinção do Conselho Federal de Educação; da criação do Conselho Nacional de Educação (CNE) em 1995; da nova LDB em 1996; do Plano Nacional de Educação (PNE) instituído pelo Projeto de Lei nº 4.173, de 1998 e aprovado no ano 2000; das várias diretrizes curriculares nacionais (DCNs) desenvolvidas na primeira década do novo milênio; do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior; e dos cursos online, só para citar algumas das grandes mudanças que ensejaram oportunidades de discussões, seminários, palestras e outros eventos de esclarecimentos e incentivos à inovação que tanto o SEMESP como a ABMES veem promovendo desde então.

Em todos os documentos publicados, tanto públicos como privados, percebia-se o objetivo de melhoria da educação brasileira, em todos seus níveis. Criar e inovar eram os verbos do momento.

A LDB/96, por exemplo, ao instituir o conceito de cursos sequenciais clamava pela inovação no momento em que ninguém sabia que cursos eram esses e, portanto, nenhum paradigma ainda havia sido desenvolvido, nem do lado das IES, nem do lado do MEC. Algumas instituições aproveitaram o momento para inovar.

Dentre as inovações que os cursos sequenciais propiciaram ao nível superior brasileiro, para os quais tive o privilegio e a honra de contribuir, e que eventualmente foram adotados nos cursos tradicionais de graduação, podemos citar a flexibilização curricular, com disciplinas optativas e/ou eletivas; os processos seletivos agendados; a oferta de disciplinas por crédito, em tempo parcial; as disciplinas comuns à todos os cursos; os cursos in company; as sextas-feiras de estudos livres; e a educação modulada, que permitia aos alunos aproveitarem estudos nos cursos sequenciais como créditos para os cursos de graduação. Muitas dessas inovações acabaram sendo adotadas por algumas IES em cursos tradicionais de graduação, quando os cursos de tecnologia (considerados cursos de graduação), na prática, substituíram os cursos sequenciais.

Se, por um lado, tanto a década de 90 como as primeira e segunda décadas do milênio possibilitaram às IES oportunidades de inovação, os resultados das atividades fim das IES brasileiras e, principalmente, das IES particulares, que mantêm mais de 70% do alunado brasileiro, tem sido chocantemente péssimos. Não há uma IES particular brasileira dentre as 500 melhores do mundo (Revista Ensino – Guia da Educação, 2018). Na verdade, o ranking brasileiro, incluindo as IES públicas, é vergonhoso. A melhor colocação pertence à Universidade de São Paulo, colocada em número 150, enquanto que a Unicamp, a UFMG e a UFRJ (as quatro que seguem a USP) não estão entre as 300 melhores.

Em artigo publicado em 26/06, intitulado “Capital Humano X Capital Político”, o Professor Gabriel sugeriu a criação do Instituto Só a Educação Salva o Brasil tendo “por fundamento a colaboração e o compartilhamento de pessoas com ideias para formular   um país com menos problemas e com mais otimismo e autoestima… com a disposição das pessoas para endireitar os rumos da nossa nação. O objetivo é ter ideias que, transformadas em programas, possibilitem um Brasil mais igualitário, desenvolvimentista e sustentável.”

Em contrapartida, em artigo publicado em 18 de agosto (portanto há um ano) na Revista Gestão de Negócios, intitulado “A Educação Pode Salvar o Brasil?”, a autora, Giovanna Henriques, assim se expressa sobre o tema: “É bastante discutida na sociedade brasileira a ideia de que a educação é a única salvação para o Brasil. Um aspecto dessa ideia é bastante verdadeiro: sem uma educação de qualidade, o País não tem futuro. Mas é importante atentar para a falácia contida nessa percepção: a educação por si só, nunca salvou país nenhum. E nem salvará o Brasil. Isso se deve ao singelo fato de que a educação não é uma ação isolada das outras dimensões, tais como a justiça social e as políticas públicas voltadas para saúde, alimentação, moradia, segurança, transporte e oportunidades para todos… Com um mínimo de experiência em educar nas redes de ensino, todo professor sabe que um aluno miserável em péssimas condições de vida tem pouquíssimas chances de avançar”

O fato é que não é a educação formal como ela se apresenta hoje que vai salvar o Brasil: a classe dominante, corrompida, tem nível superior. Tampouco é a “educação de qualidade”, dependendo do que queremos dizer com o conceito “qualidade”. Se por “qualidade educacional” entendermos mudança cultural, ao invés de somente formação profissional, aí então estaremos caminhando para o caminho certo. Sem uma formação humanística, nada vai mudar na sociedade brasileira.

O problema brasileiro é, fundamentalmente, comportamental e, portanto, cultural. O que os dirigentes educacionais brasileiros devem entender é que qualidade educacional se refere à educação holística, aquela que aborda a indissociabilidade do “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art 205, CF/88). Para que tenhamos uma educação de qualidade é fundamental abordar em conjunto o desenvolvimento do “saber ser”, “saber conviver”, e “saber fazer”. Estes são os três pilares inter-relacionados que fazem parte de qualquer atividade humana: pessoal, social, profissional.

Infelizmente, no Brasil, a educação brasileira foca quase que exclusivamente o “saber fazer”, e não entende, ou não dá valor, a importância do “saber ser” e/ou do “saber conviver”. Faltam conteúdos de formação pessoal e cidadã nos currículos educacionais brasileiros para realmente mudar o que aí está: violência, corrupção, paralisia econômica, saúde precária, pobreza, serviços públicos de baixa qualidade, consciência cívica, etc., etc., etc. Falta formar lideranças verdadeiramente servidoras para os setores públicos, que tenham elevado senso cívico, moral, ético e, porque não dizer, patriótico.

Além de conteudal, o problema educacional brasileiro é tecnológico/estrutural/funcional. O sistema precisa passar por uma verdadeira transformação que considere que a educação formal tradicional já não detém o monopólio da informação e que, portanto, sua função está mudando. O modelo tradicional está obsoleto (todos sabem disso e falam sobre isso, mas pouco fazem ou sabem o que fazer para mudar o que aí está). Faltam visionários educacionais que saibam criar modelos que realmente mudem a cultura brasileira de forma eficaz e eficiente.

Várias entidades estão “inovando” e abordando conceitos pedagógicos como “aprendizagem interativa”, “educação centrada no aluno”, “blended learning”, “design thinking”, “flipped classrooms”, “educação personalizada”, entre outros modismos mediáticos adotados na educação formal de algumas IES. Mas não é nada disso. Mas pode ser parte de tudo isso. Todas e qualquer uma destas estruturas/funcionalidades não valem nada sem o conteúdo apropriado. O que importa não é o canal/meio de transmissão da informação. O que importa é a informação e os resultados dela derivados. Ou, como já dizia o CNE:

“O que interessa, essencialmente, não é o que a escola ensina, mas sim o que o aluno aprende nela ou fora dela. O que conta, efetivamente, é a competência desenvolvida.

As competências desenvolvidas em atividades fora da escola, no mundo do trabalho e na prática social do cidadão, devem ser constantemente avaliadas pela instituição educacional e aproveitados para fins de continuidade de estudos, numa perspectiva de educação permanente e de contínuo desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprender a aprender, com crescente grau de autonomia intelectual.

A nova ênfase proposta é para o resultado da aprendizagem e não simplesmente para o ato de ensinar.” (Parecer CNE/CP  29/2002, p 24 – Homologado em 13/12/2002).

Conclusão, para contrariar McLuhan, o meio não é a mensagem. A mensagem é a mensagem. O meio/forma pode até influenciar a mensagem e, portanto, ser parte dela. Mas o fundamento do que é transmitido é a mensagem, seu significado para o aprendiz, e como impacta no seu comportamento.

Enfim, temos que ousar arrebentar as algemas dos nossos paradigmas educacionais que nos fazem subservientes às certas regras inconstitucionais implementadas pelo MEC, acabar com o modelo tradicional de ensino orientado por processos, visionar um futuro promissor, e, incorporando as tecnologias que aí estão, e as que virão, desenvolver modelos educacionais disruptivos práticos, eficazes, orientados para os resultados que, enquanto nação, queremos.

Neste mês de aniversário da ABMES, aceito as colocações do Professor Janquiê Diniz (blog ABMES, 6 de agosto, 2018: Vida longa à ABMES) quando diz que “Hoje estabilizada em uma base sólida, a ABMES tem o discernimento necessário para saber que muita coisa já foi feita, mas que ainda há muito trabalho a ser realizado… mas sempre conectad(o) com as transformações sociais e com as necessidades dos seus associados, dos estudantes e da educação superior como um todo.”

Acredito nos ideais que o Professor Édson Franco (blog ABMES, 8 de agosto, 2018) expôs  quando, referindo-se ao professor Candido Mendes, explicou que este “forjou na nossa Carta que o ‘ensino é livre à iniciativa privada’. O ideal de liberdade, sedimentado em Candido demonstrou inconteste ousadia e que jamais desaparecerá das nossas instituições.”

Reafirmo as esperanças do Professor Celso Niskier (blog ABMES, 10 de agosto, 2018), “Que as próximas maioridades possam ser comemoradas com muita alegria, nessa jornada de construção de uma marca de referencia para todos os educadores brasileiros, pois essa é a missão inabalável da nossa querida ABMES.”

Compartilho com a afirmação do Professor Gabriel (blog ABMES, 07 de agosto, 2018) que “Todas as atividades e desafios deixaram a ABMES mais madura e firme, como o cedro com dureza, mas também com seu aroma e pureza”.

E, concluo desejando que, dentro de 14 anos, ao chegar aos 50 anos de existência, portanto no seu aniversário de ouro, a ABMES possa fechar aquele ano com chave de ouro e dizer em alto e bom som que, com a ousadia preconizada desde o início por Candido Mendes, ela foi fundamental para as IES brasileiras terem contribuído para a salvação da Pátria, e alcançado os pódios mais elevados do ranking educacional, mundial.

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