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Edson FrancoÉdson Franco
Advogado, jornalista e professor universitário
Membro do Conselho da Presidência da ABMES
***

Com o tempo que me foi dado para escrever estas linhas, tive de escolher desta instituição o que me pareceu fundamental nas quatro gestões da ABMES e, para isto, não tive sequer a condição de “consultar os universitários” nesta seleção de desafios já enfrentados. Portanto, esta seleção, que acabei por fazer, resultou – perdão! – da minha impressão pessoal e de algum modo míope e incompleta. Atitude arriscada mas necessária para não faltar com meu compromisso com a equipe de Comunicação.

Sou um dos pioneiros da nossa entidade, começando pelos tempos do Hotel Glória, onde tudo se iniciou até estes de agora, usando, no intermédio de um shopping (Pátio Brasil) como sede, até este que nos abriga não mais como locação, mas como casa definitiva da ABMES, de propriedade passada no papel, com direito a cartório e tudo.

Acompanhei os desafios de cada estágio da nossa existência de mais de trinta anos, chegando a esta festa e com a certeza de que nosso trabalho foi e tem sido continuadamente vitorioso e assim prosseguirá.

Os quatro estágios da ABMES revelam o acerto da decisão institucional de fazer da nossa entidade uma associação líder no campo educacional.

Começamos de “pires na mão”, usando uma expressão menos solene, porque o início foi mesmo de “bandeja” pedinte, passada na mesa entre os pioneiros. Candido Mendes de Almeida, o primeiro Presidente, foi para nós um abridor de portas para o ensino superior particular. Empunhando com vigor e aos brados a bandeira da liberdade, Candido forjou na nossa Carta que o “ensino é livre à iniciativa privada”. O ideal de liberdade, sedimentado em Candido demonstrou inconteste ousadia e que jamais desaparecerá das nossas constituições. Candido trafegou, em seu tempo, da Comissão de Justiça e Paz, da Igreja de Dom Luciano Mendes de Almeida, então líder da CNBB, ao Parlamento Nacional, contestando com veemência contra expressões legais, algumas aterradoras, formuladas nos palácios executivos. Enquanto a “bandeja pedinte” corria solta para socorrer nossa entidade, Candido nos brindava com as suas publicações e com dedicatórias ilegíveis que só mesmo Dona Golda, sua secretária, sabia traduzir para nós. Fui seu vice.

Tive a honra e, ao mesmo tempo, muito medo, medo mesmo, da eventualidade de o suceder. Afinal, eu reconhecia as minhas inúmeras limitações e jamais poderia ser encarado como “um segundo de primeira” na ABMES. Vivi os tempos nos quais o Poder Executivo nos considerava como classe inferior. Foi a época em que as escolas de educação básica sonharam e tornaram realidade com o sonho do ensino superior nos seus espaços. Para exigir uma subserviência nossa fecharam os “confessionários de ingressos de pedidos” (protocolos) a esse novo patamar. Triplicaram, quadruplicaram, decuplicaram os formulários dos pleitos elaborados por nós, de sorte que os autorizadores oficiais, com as cópias dos pleitos, fossem menos delongadores de seus pareceres, exigindo de nós o trafego de “malas de processos” (malas mesmo). Graças que as empresas de aeronaves não nos obrigavam a pagar taxas especiais pelo uso dos espaços dos porões dos nossos aviões, como hoje ocorre.

Usei e abusei na ABMES do trabalho competente das nossas colaboradoras Cecilia Horta e Ana Iida e, por largo tempo também, do falecido Ronald Braga com grande número de publicações, inclusive algumas delas solicitadas pelo MEC para melhor compulsarem a legislação que nele eram editadas. O pano de fundo da “segunda classe” aos poucos foi sendo destruído até que nos tornamos colaboradores diretos, como aconteceu, para a formulação da legislação que instituiu o ProUni, o primeiro ímpeto de acolhimento dos jovens de classes menos favorecidas economicamente. Se se pretender alguma marca desse tempo recordo às publicações pelos cuidados das mesmas e pelos cursos para sucessores de mantenedores. Algumas autoridades governamentais dessa época começaram a entender melhor o trabalho dos mantenedores do ensino superior.

Veio a época de Gabriel Mario Rodrigues – talvez o mais criativo dos mantenedores – a nos suceder. Marqueteiro na medula, Gabriel conseguiu repaginar o trabalho comunitário de Responsabilidade Social de Mantenedoras e de dirigentes de Mantidas, instituindo um dia móvel expressivo a cada ano para fazer com que as nossas escolas fizessem assento nas praças públicas das nossas cidades, quando as praças vizinhas se tornaram verdadeiras extensões dos nossos “campi”. Nossas publicações prosseguiram e ele, na Presidência da ABMES, ampliou e adicionou em nossas reuniões o leque de suas parábolas e de suas estórias, muito pertinentes. Gabriel deixou marcas profundas na nossa ABMES, inclusive com a implantação do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, hoje uma realidade e com a ampliação das nossas publicações e dos nossos encontros mensais. Mesmo agora, na presidência do Conselho de Administração, ele vem seguidamente no seu “blog” nos brindando, a cada semana, com belas reflexões de quem continuamente é ser o educador. Gabriel acabou, definitivamente, com a “bandeja” do nosso início a ponto de juntar dinheiro para a compra da nossa sede atual.

Chegamos, agora, a Janguiê Diniz, o engraxate nordestino de liderança impetuosa que não se basta de nos ensinar. Vive-se agora o tempo da ABMES não se limitar ao nosso espaço nacional. Agora a ABMES passou a fazer voos internacionais, como comprovado com a ida à Rússia e já com a preparação para a ida a Israel. Com ele, o MEC passou a conviver, em verdadeiro espírito de colaboração com o ensino privado, em regime de mútua compreensão, tanto que mesmo com as limitações financeiras dos FIES de tumultuada direção, o ensino superior particular tem sabido buscar mecanismos de superação.

Na época da Revolução de 1964, um militante de esquerda foi preso na minha Belém. O militar que o acompanhava à prisão perguntou ao preso o que ele achava da Revolução. O cartorário recluso, poeta e letrista da melhor música, mesmo sem responder diretamente, lembrou ao militar que, quando um fotógrafo pretende tirar uma fotografia seu primeiro passo é afastar-se do objeto ou da pessoa a ser fotografada. Não é verdade? Indagou. A resposta foi simples. Não julgar a Revolução ao tempo ela ainda está acontecendo. Com o tempo, talvez tenha capacidade para julgar, acrescentou com um sorriso.

Janguiê poderá receber muito mais louros para a ABMES pelos futuros desafios que terá de vencer. Pela minha idade, torço e ainda quero testemunhar essas vitórias.

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Uma resposta para “ABMES: um montão de desafios”

  • Genial.
    O texto de Édson(isso mesmo, o “É” com acento) sempre foi assim, como se estivesse falando. Quando a leitura vai chegando ao final lamenta-se que não tenha mais. Uma ótima aula de jornalismo.
    Parabéns, ótimo contador de histórias.

     

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