Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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As revoluções em biotecnologia e tecnologia de informação são feitas por engenheiros, empresários e cientistas que tem pouca consciência das implicações políticas de suas decisões, e que certamente não representam ninguém. Parlamentares e partidos serão capazes de assumir estas questões? No momento parece que não. (Yuval Noah Harari)

A pandemia veio mostrar que de fato já estamos no mundo virtual e que tudo vem se transformando devido às Tecnologias de Informação e Comunicação. É uma nova realidade que vai mudar a economia, que vai transformar as formas de trabalho e que pede uma sociedade mais igualitária, equilíbrio ambiental e que vai desafiar o aprendizado.

Na semana passada, entrevistei o cientista digital prof. Maurício Garcia. O assunto instigou o também colaborador deste blog, o Prof. Paulo Vadas[1], que, para contribuir com a discussão sobre o comportamento dos algoritmos, respondeu às mesmas perguntas colocadas:

Gabriel Mario Rodrigues – Já faz bastante tempo que estamos vendo as máquinas fazendo os trabalhos repetitivos. Mas agora a inteligência artificial começa a substituir o pessoal de colarinho branco. Quais são as perspectivas para o mundo do trabalho?

Paulo Vadas – “O medo das máquinas roubarem os postos de trabalho dos humanos não é novo… (mas) o tempo mostrou que ao invés de diminuir, aumentou a quantidade de postos de trabalho nas indústrias, com os humanos operando as máquinas”. (Maurício) Por outro, a IA trás no seu bojo máquinas auto-operáveis, que não precisam de humanos para operá-las. Os robots que estão substituindo cada vez mais os seres humanos, até nos trabalhos burocráticos e naqueles que requerem alta capacidade/precisão. Vale aqui buscar responder à pergunta colocada por Yuval Noah Harari: “… o que fazer se, apesar de nossos melhores esforços, a perda de empregos superar consideravelmente a criação de empregos.” Este é o grande X da equação e que requer a construção de uma nova teoria econômica para os novos tempos. Teoria essa que, necessariamente, inclua a renda mínima, uma espécie de “imposto ao contrário”, pelo qual o Estado contribui com um valor mensal pago a cada cidadão.

GMR – De maneira mais realista, como você vê a I.A. penetrando em todas as áreas e dando poder imenso às empresas e aos governos que as construíram?

PV – Mesmo que “(a) inteligência artificial é ‘apenas’ uma ferramenta computacional” (Mauricio), não se pode menosprezar seus efeitos nas atividades políticas, culturais, econômicas e ambientais. Ferramentas permeadas pela IA tendem a funcionar com alta precisão, “pensam” com lógica, preveem o futuro em função de tendências, “aprendem” a melhorar processos, incrementam a produtividade, tem memória invejável, são capazes de “telepatia” quando em rede, “dominam” vários idiomas e, quando programadas para tal, já nascem com doutorado. Por outro lado, elas não têm capacidade criativa, não sonham, não tem imaginação, não tem visão, não tem discernimento moral ou ético, não tem sentimentos, e não tem iniciativa própria: dependem totalmente de como são programadas.

GMR – A luta pelo poder pelas empresas ou governos poderá colocar em risco a humanidade? Como você vê a luta entre os algoritmos do bem contra os algoritmos do mal?

PV – As IAs são amorais. Enquanto ferramentas de captação e processamento de dados, elas têm diminuído a privacidade de cada indivíduo e promovido usos para as mais variadas finalidades, tanto para o bem como para o mal dependendo de como e para que foram programadas. Cabe ao cidadão informado defender seus direitos, saber quais suas responsabilidades pessoais, políticas e profissionais, e desempenhar suas obrigações dentro dos parâmetros socialmente aceitáveis. É esse o ponto fraco da educação formal, desde o maternal até a pós-graduação: ela pouco promove a educação do civismo e da civilidade, da moral e da ética, dos direitos e das responsabilidades sociais.

GMR – Alguns autores que falam dos humanos sendo substituídos por máquinas preveem que teremos milhões de pessoas sem ter o que fazer. Será que a sociedade brasileira já pensou nisso?

PV – O certo é que já temos milhões de pessoas sem ter o que fazer e que teremos muito mais na era do desemprego. No Brasil crianças até certa idade não podem trabalhar e, portanto, vivem dos pais ou, na falta deles, são mantidas por instituições públicas ou privadas que lhes garantem o sustento, a educação, e a saúde. O mesmo acontece com pessoas aposentadas e com pessoas com deficiências físicas que recebem ajuda da família e/ou do estado. Portanto, ser sustentado não é novidade e instituições públicas de sustento já existem. O que não existe é a consciência que o desemprego será a norma para a grande maioria das pessoas. A nova teoria econômica deverá abordar a “normalização do desemprego em massa” como fator real de um futuro altamente tecnológico onde a mão de obra intensiva é substituída pela reduzida demanda por intelectos intensivos. Os gênios terão trabalho, mas a grande massa da população não. Para estes, a renda mínima vem aí.

GMR – Tenho duas bisnetas que nascem no próximo semestre e daqui a poucos anos estarão na escola. Como o sistema educacional brasileiro deverá se preparar para receber estas alunas?

PV – Que escola? Além de um novo sistema econômico, devemos começar a pensar profundamente em como será o sistema educacional altamente permeado pela IA. Se algo aprendemos da pandemia causada pelo COVID19, é que o mundo das relações, dos negócios, da aprendizagem, etc., está migrando online. As escolas tijolo e cimento vão acabar. As Kahn Academy, Coursera, EdEx, e outras “escolas” online, gratuitas, serão o fundamento de um sistema educacional transmitido via Zoom, FaceTime, WhatsApp, etc. O que vai reinar é a educação autônoma, multi-mediada, assistida por coaches e por tutores, desenhada sob medida por curriculum designers, disponibilizadas em gadgets  (instrumentos) ao alcance da mão, com informações curadas pertinentes, relevantes, e constantemente atualizadas, oferecidas em formato áudio, visual, textual, sensorial. O próprio aluno vai desenhar seu currículo e buscar informações, em tempo real, via Google, Youtube, PBS, e inúmeras outras fontes de informação das mais variadas e em vários formatos, disponibilizadas 24 horas por dia, em qualquer lugar do mundo, no idioma que queira. Suas bisnetas vão vivenciar a realidade virtual, tridimensional, holográfica, tematizada, gameficada, etc., que toda uma geração digitalizada vai compartilhar em um verdadeiro mundo.

GMR – Os sistemas educacionais num mundo onde tudo se transforma exponencialmente terão sempre dificuldades em acompanhar o que está acontecendo com o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Como você pensa que a universidade deve se preparar para os desafios da mudança?

PV – A universidade só vai garantir sua existência se ela se tornar promotora das mudanças. Infelizmente, instituições enraizadas e institucionalizadas há décadas, não tendem a promover mudanças. As universidades SEMPRE ensinaram seus alunos a ver o futuro com o conhecimento do passado.

GMR – Yuval Nohal Harari foi categórico “O problema crucial não é criar novos empregos. É criar novos empregos no qual o desempenho dos humanos seja melhor que o dos algoritmos”. O que você pensa sobre isto?

PV – Estamos entrando na era do desemprego. Os novos empregos serão preenchidos por talentos de altíssima competência em qualquer área de atuação. Os gênios criam seus próprios empregos.

GMR – Todos os estados disputam poder para liderar o mundo. Mais cedo ou mais tarde teremos a disputa dos algoritmos do bem e do mal e o mundo poderá se destruir. Você acredita que uma harmonia entre nações poderia salvar o fim do planeta?

PV – A história da humanidade é de conflitos de interesses em todos os aspectos. É da natureza humana suprir o EU e defender interesses pessoais. É também da natureza humana a entrega do EU em função da identificação com o NOSSO. Em sendo um “ser social” o ser humano se identifica com outros com quem ele vê similaridades. A identificação de interesses une os similares e os divide daqueles que são vistos como diferentes – os OUTROS. A discriminação racial, religiosa, de gênero, de nacionalidade etc, tem gerado a desarmonia entre as nações como regra e a busca da harmonização como fator temporário de convivência. Hans Morgenthau, considerado pai da escola realista de relações internacionais já dizia na década de 40: “Países não tem amigos. Só interesses”. Em outras palavras, a longo prazo, as nações não se misturam. Corintianos e Palmeirenses que o digam.

GMR – Com o avanço da inteligência artificial, corre-se o risco do ser humano ser desnecessário?

PV – Aí depende do que estamos falando, como entendemos o conceito “desnecessário” e como, filosoficamente/religiosamente entendemos a razão da vida. Creio que, pelo menos para a procriação e manutenção da espécie, o ser humano ainda será necessário. Se o ser humano se tornar totalmente desnecessário, a IA vai a reboque: sem seres humanos, a IA não faz sentido.

 

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[1] Paulo Vadas é professor, palestrante, autor, executivo, diretor e consultor em vários departamentos de diversas instituições de ensino superior no Brasil e nos Estados Unidos durante os últimos vinte e cinco anos, período em que participou ativamente em várias funções e atividades de ensinar, palestrar, assessorar, desenvolver projetos educacionais, escrever artigos e blogs, entre outras atividades da área da educação. É Master of Arts em Ciências Políticas, California State University Northridge, EUA; bacharel em Ciências Políticas, California State University, Northridge, EUA; Programa Trainee em Gestão Empresarial – National General Corporation – EUA.

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