Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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Os desafios do mundo do trabalho cabem em três categorias principais: o que fazer para impedir a perda de empregos; o que fazer para criar empregos novos; e o que fazer se, apesar de nossos melhores esforços, a perda de empregos superar consideravelmente a criação de empregos. (Yuval Noah Harari)

Kai-Fu Lee[1], autor do livro “Inteligência Artificial – como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamentos, trabalhamos e vivemos” (Globo Livros), ao participar de painel recentemente promovido pelo movimento Brazil at Silicon Valley, disse que a inteligência artificial poderá prever e até evitar novas pandemias. Chatbots instruídos por I.A. nos vestibulares recentes têm feito a captação de milhares de alunos para suas universidades. Autores anteveem que, com a experiência adquirida, a I.A. superará os humanos.

Para abordar um pouco sobre essa realidade, entrevistei o cientista digital prof. Maurício Garcia, que, além de pesquisador das tecnologias que estão atrás da I.A., tem experiência educacional de mais de quarenta anos[2].

Gabriel Mario Rodrigues – Já faz bastante tempo que estamos vendo as máquinas fazendo os trabalhos repetitivos. Mas agora a inteligência artificial começa a substituir o pessoal de colarinho branco. Quais são as perspectivas para o mundo do trabalho?

Maurício Garcia – O medo das máquinas roubarem os postos de trabalho dos humanos não é novo. No início do século XIX, a Revolução Industrial iniciou a automatização das fábricas e os trabalhadores da indústria têxtil da Inglaterra realizaram um movimento chamado “Ludismo”, que era uma reação ao avanço das máquinas. Mas o tempo mostrou que ao invés de diminuir, aumentou a quantidade de postos de trabalho nas indústrias, com os humanos operando as máquinas. Há quem denomine o atual receio do fim do trabalho por conta da inteligência artificial como “Neo-Ludismo”. A meu ver, porém, é uma preocupação infundada, fruto principalmente do desconhecimento dos limites da computação. Afinal, alguém precisará planejar novos computadores e desenvolver novos sistemas.

GMR – De maneira mais realista, como você vê a I.A. penetrando em todas as áreas e dando poder imenso às empresas e aos governos que as construíram?

MG – A inteligência artificial é apenas uma ferramenta computacional, só isso. A questão é como ela é usada. Por exemplo, quando você abre um celular usando o reconhecimento de sua face, o poder está do seu lado, ou seja, você consegue fazer uma coisa que antes não seria possível. Por outro lado, quando uma câmera de segurança reconhece sua face num determinado ambiente, o poder está do lado do dono da câmera. O reconhecimento facial, em si, não determina poder, o que determina é quem está utilizando e com qual propósito.

GMR – A luta pelo poder pelas empresas ou governos poderá colocar em risco a humanidade? Como você vê a luta entre os algoritmos do bem contra os algoritmos do mal?

MG – Sem querer ser repetitivo, não acredito que existam algoritmos do bem ou do mal. A energia nuclear pode ser usada para construir uma bomba atômica ou para combater o câncer. A energia nuclear, em si, não é do bem nem do mal. O mesmo vale para os algoritmos. O que vejo é a luta para a sociedade se organizar e evoluir, assegurando a igualdade de direitos e o resgate de dívidas sociais históricas. Contra isso há toda uma sorte de forças que se valem de qualquer coisa que possa facilitar sua missão ilícita. Isso não começou com a inteligência artificial e nem vai acabar com ela.

GMR – Alguns autores que falam dos humanos sendo substituídos por máquinas preveem que teremos milhões de pessoas sem ter o que fazer. Será que a sociedade brasileira já pensou nisso?

MG – A resposta remonta à primeira pergunta. Os ludistas não podiam imaginar a infinidade de novas fábricas, novos produtos e novos mercados que surgiram por conta daquilo que a Revolução Industrial permitiu. Da mesma forma, nós sequer imaginamos o que será possível ser feito com aquilo que a inteligência artificial irá permitir. Velhos empregos irão sumir, mas novos irão surgir. Podemos sim aprender com experiências ocorridas, mas o que já aconteceu é para ser olhado pelo espelho e não se pode olhar para o futuro com lentes do passado.

GMR – Tenho duas bisnetas que nascem no próximo semestre e daqui a poucos anos estarão na escola. Como o sistema educacional brasileiro deverá se preparar para receber estas alunas?

MG – Os currículos das escolas de educação básica precisam urgentemente incluir o tema do letramento digital. As crianças, desde a tenra idade, precisam desenvolver suas habilidades digitais, da mesma forma que desenvolvem suas habilidades de relacionamento e comunicação. Estamos evoluindo para um mundo em que a falta de fluência digital será equivalente ao analfabetismo hoje. Além disso, temas como raciocínio lógico e resolução algorítmica de problemas deverão ser tratados na base desse letramento digital.

GMR – Os sistemas educacionais num mundo onde tudo se transforma exponencialmente terão sempre dificuldades em acompanhar o que está acontecendo com o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Como você pensa que a universidade deve se preparar para os desafios da mudança?

MG – Muitos falam, há muito tempo, que o modelo das universidades entrará em crise, mas parece que essa crise não chegou. A pandemia da Covid-19, porém, tem todos os componentes para mudar esse cenário. Tenho lido e assistido pessoas falando sobre como os alunos estão questionando gastar até US$ 70 mil por ano para estudar em uma universidade de elite americana. O YouTube se tornou a maior universidade do mundo, é o maior repositório de objetos instrucionais. É claro que o papel da universidade não é apenas o de ensinar e, mesmo no ensino, não basta o acesso ao conteúdo. Mas as universidades que não fizerem claramente essa distinção, ou seja, aquela que são meramente “hotéis” de professores, que vêm apenas para “dar aula”, essas sim terão sérios problemas. Resumindo, para sobreviver nesse futuro, a universidade precisa fazer muito mais do que “dar aula”.

GMR – Yuval Nohal Harari foi categórico “O problema crucial não é criar novos empregos. É criar novos empregos no qual o desempenho dos humanos seja melhor que o dos algoritmos”. O que você pensa sobre isto?

MG – Não vejo muito essa competição entre humanos e algoritmos. Até porque, se forem competir, os algoritmos, cedo ou tarde, vão sempre ganhar. Cada um deve ter seu papel. Um algoritmo não nasce sozinho, é preciso um humano para criá-lo e aperfeiçoá-lo. É uma parceria e a demanda por novos algoritmos só tende a aumentar. Além disso, existe um componente de inovação, criatividade e arte que sempre dependerá de humanos talentosos. Eu não consigo imaginar, por exemplo, um computador esculpir um bloco bruto de mármore e produzir algo que desperte o mesmo sentimento que um Moisés de Michelangelo. Não consigo imaginar um algoritmo combinar letras e palavras e entregar um Em Busca do Tempo Perdido de Proust. Não consigo pensar num algoritmo ter a sutileza de combinar simples notas musicais e produzir uma Claire de Lune de Debussy.

GMR – Todos os estados disputam poder para liderar o mundo. Mais cedo ou mais tarde teremos a disputa dos algoritmos do bem e do mal e o mundo poderá se destruir. Você acredita que uma harmonia entre nações poderia salvar o fim do planeta?

MG – Parte da resposta foi citada anteriormente, não acredito que existam algoritmos do bem ou do mal. Existem pessoas do bem e do mal. Sem dúvida, a harmonia entre as nações é crucial para a evolução da sociedade humana. A pandemia da Covid-19 deixou isso muito claro, mas infelizmente pudemos presenciar nações disputando entre si compras de respiradores, ao invés de cooperarem. Entretanto, a solidificação de organismos multilaterais em escala global é mais que um desejo, é uma necessidade para um planeta que nunca esteve tão fragilizado.

GMR – Com o avanço da inteligência artificial, corre-se o risco do ser humano ser desnecessário?

MG – Há uma cena no filme “Tempos Modernos“, do genial Charles Chaplin, em que é criada uma máquina para alimentar os trabalhadores de uma indústria, de forma que eles não precisem parar de trabalhar para comer. O que era para ser uma solução incrível para o aumento da produtividade revela-se um fracasso, com a máquina repleta de erros e imperfeições. No final, o mecânico vai e desliga a máquina. A cena é de 1936, mas não poderia ser mais atual. As pessoas fantasiam sobre como o mundo será dominado por robôs, mas se esquecem que máquinas quebram. Sempre será necessário um ser humano para consertá-la e, se for o caso, desligá-la.

_____________________

[1] Kai-Fu Lee é presidente e diretor executivo da Sinovation Ventures e ex-presidente do Google China.

[2] Maurício Garcia é cientista digital. Durante quase 40 anos de carreira profissional, atuou em diversos grupos educacionais públicos e privados em vários países. Atualmente, pesquisa tecnologias ligadas à inteligência artificial e análise de dados, auxiliando instituições, empresas e organizações a inovar e se transformar digitalmente, tanto no Brasil, quanto em outros países como Estados Unidos e México. É mestre e doutor pela Universidade de São Paulo e MBA pela Fundação Getúlio Vargas. Realizou projetos, cursos e estágios em instituições como a Universidade de Milão, a Escola Nacional de Alfort em Paris, a Universidade de Montreal no Canadá e a Universidade de Stanford nos Estados Unidos.

 

 

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Uma resposta para “Algoritmos do bem versus algoritmos do mal”

  • valter stoiani says:

    Algoritmos do bem versus algoritmos do mal
    Caro prof. Gabriel, seu comentário anterior no qual cita a possibilidade de um VUCA do mal e um VUCA prime do bem e a sua questão sobre os algoritmos, tem algo em comum e a nosso ver muito importante. É Uma proposta cartesiana para tormarmos decisões , ou do bem ou do mal. Ou o homem ou a máquina. A nosso ver há uma outra alternativa que poderá ser muito construtiva, uma associação entre o homem e máquinas , na qual a inteligência espiritual e criativa do ser humano seria imbatível e passaria a assumir o controle desta sociedade.
    Caberá à sociedade a responsabilidade de investir no ser humano, para desenvolver plenamente suas capacidades criativas e operacionais que nos foram dadas pela evolução milenar de nossos cerebros e
    de nossa Inteligência espiritual.
    Assim caberá ao ser humano com sua inteligência, ética, compaixão , tomar as decisões com segurança equilibrando a liberdade com a capacidade de pensar e decidir bem. Ou seja em poucas palavras, investir em uma educação plena , criativa, democrática, baseada em dados científicos e evidências .
    Para isto será necessário superarmos o egoísmo , a ignorância ,materialismo e um propósito cínico e mesquinho das oligarquias financeiras, de manterem uma desigualdade social , conveniente para seus propósitos espoliativos e destrutivos.
    Talvez esta pandemia do Covid-19 , possa mostrar-nos o valor da verdadeira ciência, da solidariedade e da educação com respeito às nossas crianças.
    Caberá aos homens de consciência lançarem as sementes.

     

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