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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos”.  Miguel Unamuno

Júlio Gregório Garcia Morejón faleceu no dia 21 de janeiro de 2017, depois de um coma profundo de mais de 13 anos. Amigos desde 1971, quero aqui registrar o trabalho desse educador em prol do ensino brasileiro e, em especial, na promoção das relações culturais do Brasil e Espanha que sempre estimulou.

O Prof. Morejón era entusiasta e fomentador do relacionamento cultural entre Brasil e Espanha. É importante registrar que foi dele a iniciativa da lei que tornava obrigatório o ensino de espanhol nas escolas brasileiras.

Nasceu em Valencia de Don Juan (Leon Espanha). Fez o bacharelado em Leon e licenciou em Filosofia e Letras pela Universidade de Salamanca. No Brasil, foi professor em Sorocaba e Assis e doutorou-se em 1965 com louvor na Universidade de São Paulo, de onde foi catedrático da Língua e Literatura Espanhola e Hispano-Americana. Foi fundador e primeiro diretor da Escola de Comunicações e Artes – ECA. Criou o Centro Hispânico Brasileiro de Cultura e foi mantenedor da Faculdade Ibero-americana de Letras e Ciências Humanas, mais tarde Centro Universitário Ibero-Americano. Foi membro conselheiro do CFE – Conselho Federal de Educação no período de 1979 a 1985.

Detentor de currículo privilegiado, de cultura artística invejável, escritor e poeta, com 34 livros publicados, e articulista das mais prestigiadas revistas de Letras da América Latina e Europa, conferencista de prestígio internacional especializado nas obras de criação literária e pensamento filosófico de Miguel Unamuno.

Acima de tudo, Morejón foi um humanista e a maior referência do humanismo quando tomou posse no CFE:  uma pessoa preocupada em valorizar o ser humano e sua condição humana acima de tudo. Suas ações estão relacionadas com a generosidade, a compaixão e a preocupação em enaltecer os atributos e as realizações das pessoas. E Morejón não as aplicava somente nas letras, na poesia, na música e nas artes, mas em tudo o que fazia. Sua personalidade era de uma generosidade ímpar em cada ato e ação de sua vida.

Nas férias de julho, quando viajava para a Europa, ele sempre me convidava para visitar a Espanha. Depois de muitos apelos, fui. Ao chegar ao aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas, a primeira coisa que me pediu ao nos recepcionar foi a minha carteira. “Aqui na Espanha você é meu convidado e nada vai gastar”. Era pessoa pródiga, sensível e amiga.

Mônica, sua filha, me contou agora que recebeu uma mensagem que muito a emocionou: à época do nascimento das filhas gêmeas de uma mantenedora, seu pai enviara quatro dúzias de rosas. Duas dúzias para cada criança.

Grande admirador de música clássica, tinha um acervo invejável de CDs e DVDs, e se deliciava ouvindo Mozart, Verdi, Puccini, Rossini, Donizeti, Bellini e outros.

Dedicava carinho especial ao diretor musical do “The Metropolitan Opera”, em Nova York, James Levine, na condução de “Os Mestres Cantores de Nuremberg”, do compositor Richard Wagner.

Sabemos que, antes de partir definitivamente, ele gostaria de ter continuado nossas conversas mantidas nos encontros sociais, nos eventos que participávamos e, em particular, nas nossas tertúlias da viagem à Espanha e nos fins de semana em sua fazenda.

Ele era ansioso por natureza e sei que a primeira coisa que gostaria de saber agora é sobre o que sucedeu no país no tempo todo de seu período “sabático”. Como vão os brasileiros, o Brasil, a educação, o MEC? E, principalmente, os amigos. Todos, como sempre, “correndo” juntos lá no Conselho?

Caro amigo, infelizmente o país não passa por bons momentos. A crise fiscal que se abate sobre o Estado atinge o Governo Federal e os Governos Estaduais. A revolta havida nas prisões é termômetro do que pode acontecer com os péssimos serviços públicos espalhados pelo Brasil.

Enfim, o cenário por aqui não é dos melhores. Além da turbulência mundial, onde os enfrentamentos pelo poder estão pondo em risco a integridade das pessoas (Aleppo).

Por aqui a inversão de valores gerou uma crise sem precedentes. A ética está quase em extinção no cenário socioeconômico político e os congressistas não pensam no bem comum, e sim no benefício próprio.

Está em andamento uma verdadeira batalha anticorrupção que “deixou cair o pano”, a poeira saiu debaixo do tapete e haverá punição para o crime de colarinho branco.

Atualmente é difícil encontrar trabalho e se manter nele. O índice de desemprego é muito grande, porém o brasileiro é forte e busca oportunidades para melhorar de vida.

A educação, como sempre, vai devagar. No Ensino Básico, Fundamental e Médio muito se diz, pouco se faz. Nossa classificação no PISA é para lá de sofrível. A impressão é de que estamos retroagindo no tempo.

No MEC foram criados órgãos específicos para credenciar, recredenciar e avaliar os cursos nos diferentes tipos de IES. As exigências são iguais para todos, sendo que as faculdades não têm nenhum contraponto que minimize essas imposições. As Universidades públicas passam por crises consecutivas e estão sucateadas.

Temos saudade do antigo CFE – Conselho Federal de Educação, no qual a agenda era focada no desenvolvimento. As tarefas do CNE foram reduzidas, pois a regulação do setor é desestimulante. Querem medir até as privadas e seguir os paradigmas das públicas – as pequenas e médias instituições, como se grandes fossem. Não há liberdade para inovar. A cabeça dos gestores continua focada no meio do século passado.

Ia me esquecendo de falar dos “amigos”… Não há mais aquele companheirismo parecido com o dos “Três Mosqueteiros” – um por todos, todos por um. Nada parecido como nos dos velhos tempos, quando uma autorização de Curso era aplaudida no Plenário. Hoje somos empresas concorrentes, disputando fatias de mercado, mantendo uma cordial e, de certa forma, distante e hipócrita harmonia.

Epílogo: somos o Brasil de sempre. Entra ano, sai ano, se enfeita, o samba toca, a escola vai para a avenida e, por mais que tudo possa parecer um caos, não podemos esquecer que o amanhã sempre será melhor do que o hoje.

Morejón, amigos dos amigos, este espaço, enfim, é pouco para mostrar o que foi a sua participação no ensino brasileiro e, acima de tudo, a sua lealdade, humanismo e paixão por tudo que lutava.

Outra característica sua que preciso realçar: sua modéstia e destituição de qualquer vaidade. Nunca nos falou de sua brilhante carreira acadêmica e de seus 34 livros.

Esteja feliz nas galáxias, por onde viver.

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2 Respostas para “Ao professor Morejón, amigo dos amigos, a nossa lembrança”

  • Teca La Macchia says:

    Um depoimento sobre Prof. JÚLIO GREGÓRIO GARCÍA MOREJÓN

    Prezado sr. Gabriel,
    Escrevo desolada por ter sabido há algumas horas a partida do Prof. JÚLIO GREGÓRIO GARCÍA MOREJÓN, há dois anos atrás.
    Não o conheci pessoalmente e creia era uma das personalidades que mais admirei.
    Minha carreira profissional aconteceu tão somente no SESC da rua Dr. Vila Nova, meu único emprego e onde me formei como cidadã e profissional programadora cultural. E por força de pesquisa que realizei sobre a história do Teatro Anchieta, descobri que prof. Morejón, em março de 1968, fez um evento para abertura do Ano Lorca – que o Sesc designou, para relembrar 30 anos do assassinato do poeta. E realizou com palestra e slides, e eu não assisti…
    Anos depois, mais trinta anos, fui responsável por um evento comemorativo ao centenário de nascimento de Lorca, por quem me apaixonei e pude ter contato com sua vida e obra, aqui e na Espanha. E lamentavelmente, desconhecia a fantástica contribuição do pro. Morejón e,mais uma vez, não nos encontramos.
    Mas, naquela pesquisa primeira, feita em 2006, descobri seu endereço e passei a ter contato com sua esposa, dª Olga, ela também de elevada cultura. Se pudemos nos falar, periodicamente por telefone, era tarde para conhecê-lo: já estava em coma. E me emocionava pelo lamento da companheira…
    E assim se passaram os anos…
    Porém nesses últimos dois anos, por decorrência da vida atribulada, rareei meus telefonemas… E de novo desencontrei-me com sua partida.
    Ao telefonar pra ela hoje, soube que segunda próxima fará 2 anos que partiu… Trocamos carinho, palavras de coragem, e vou intensificar nossas charlas…
    Ao pesquisar na internet sobre seu passamento, só encontrei essa sua homenagem… Linda, forte, mas… seria a única para um homem tão magistral?
    E quis me associar, humildemente, a esse depoimento, dois anos depois..
    Todo o acervo dele permanece no domicilio…
    Imagino quão precioso é…
    Tomara filhos, netos e bisnetos dêem destino adequado para que muitos possam sorver sua sabedoria e intelectualidade.
    Prof. JÚLIO GREGÓRIO GARCÍA MOREJÓN É IMORTAL!
    em 16/janeiro/2019

     
  • Mirian Nere Martins says:

    Prof. Gabriel, obrigado por compartilhar essa descrição emocionante sobre essa figura empolgante e importante do ensino superior brasileiro. A história e o reconhecimento àqueles que a construíram é fator determinante para evolução de qualquer setor, e no caso do ensino superior no Brasil, ela é muito recente para ser esquecida e ofuscada pelos grandes e novíssimos enormes conglomerados educacionais que se formaram, e que têm a incrível oportunidade de aprender muito como a trajetória e experiência de vida de professores empreendedores como o Morejon, o senhor, e tantos outros. Espero que eles percebam esse legado e o aproveitem da melhor maneira para o desenvolvimento da Educação do país.

     

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