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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“Ninguém que em 360 dias do ano acorde antes do amanhecer deixa de enriquecer a família.” (Provérbio chinês)

No primeiro artigo do ano publicado no blog da ABMES citei o livro “Inteligência Artificial”, de Kai-fu Lee, onde ele descreve que depois de dar uma palestra à noite em universidade chinesa, saindo do auditório não enxergou estudante algum. Só escuridão. Mas ao chegar à rua viu jovens com livros e cadernos nas calçadas sob os postes de iluminação, pois as luzes da universidade eram desligadas às 23 horas.

Impressionado com este comportamento, pensei em conhecer as razões e, indagando aqui e ali sobre o porquê da garra dos asiáticos, me indicaram o livro “Fora de série” (Outliers: The Story of Success), de Malcolm Gladwell, que em seu capítulo 8 escreve sobre os arrozais e a matemática.

Cheguei também ao psicólogo James Flynn, que, pesquisando de onde procediam os melhores colocados asiáticos do MIT – Massachusetts Institute Tecnology, descobriu que vinham da área do delta do Rio das Pérolas, no sul da China. Ele se dedicou a estudar os motivos.

A nascente do Rio das Pérolas, na cidade de Guangzhou, fica na região dos arrozais onde estão os vestígios da velha China, com sua antiga agricultura familiar e a dedicação de todos para vencer os desafios da vida.

A China é modelo aos países asiáticos sobre a cultura do arroz que pratica há milhares de anos. Os arrozais são construídos e não abertos como os trigais. Não basta remover o matagal, as árvores e as pedras e depois plantar. Os campos de arroz são feitos nas encostas dos morros, criando-se terraços em charcos e planícies fluviais que precisam ser represadas. Fora todo o preparo do solo a ser nivelado para a água se distribuir de forma regular. Mas o detalhe mais significativo é que o arrozal tem um tamanho de um quarto e a fazenda de arroz, de dois a três cômodos.

Diz a antropóloga Francesca Bray em seu livro “The Rice Economies – Technology & Development in Asian Societies”:

“a rizicultura depende da habilidade, porém mais ainda da disposição do agricultor em arrancar ervas daninhas com um pouco mais de cuidado; de conhecer melhor os fertilizantes, de destinar mais tempo à monitoração dos níveis de água, de manter a camada de lama absolutamente monitorada e de aproveitar cada centímetro quadrado do arrozal, para ter safra maior.”

O grande segredo é trabalhar 14 horas por dia, 360 dias por ano. Diferentemente de outros países que param no rigor do inverno, os chineses, enquanto isto, estão batalhando sempre. Na pausa de novembro a fevereiro estão envoltos em tarefas extras: fazer cestas ou chapéus de bambu para vender no mercado. Reformar a moradias e construir ferramentas para o trabalho e ajudar algum parente que more próximo enviando um dos filhos.

O rizicultor tem recompensa, pois há relação de valor entre esforço e resultado. Quanto mais se trabalha, mais produz. Mas precisa ser diligente e cuidadoso, porque controlar a irrigação da plantação não é para qualquer um.

A devoção ao trabalho é marca registrada do camponês chinês. Basta ver a comparação feita pelo historiador David Arkush entre provérbios chineses e russos que é de deixar o queixo cair:

“Se Deus não prover, a terra não fornecerá”, reza um típico provérbio russo, mostrando o fatalismo e o pessimismo de um sistema feudal repressivo, onde os camponeses não tinham como acreditar na eficácia de seu trabalho. Enquanto isso, os provérbios chineses mostram a crença no trabalho duro, na confiança e cooperação.

Os ditados chineses são incisivos:

“Sem sangue e suor não há comida”.

No inverno o homem preguiçoso morre congelado.”

“Não dependa do céu para obter comida e sim de suas   próprias mãos para fazer o trabalho pesado.”

“Para o homem esforçado a terra não será preguiçosa”.

E, o mais oportuno de todos, que aproveitamos para nossa epígrafe:

“Ninguém que acorde 360 dias do ano antes do amanhecer deixa de enriquecer a família.”

Stanislas Dehaene explica em seu livro “The Number Sense” outro aspecto em que os asiáticos se destacam: a matemática. As palavras chinesas que expressam os números são bem pequenas. A maioria delas pode ser dita em menos de um quarto de segundo (por exemplo, 4 é si e 7 e qi). Em inglês four e seven. A diferença de memória entre falantes de inglês e chinês deve-se aparentemente a essa distinção. Mais claramente, as crianças chinesas contam mais depressa de 1 a 100, do que as de outros países.

O sistema chinês é metodologicamente mais lógico. No nosso sistema dizemos “dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove”. Mas não contamos “deze e um, deze e dois, deze e três” e assim por diante. Essa diferença faz com que as crianças chinesas aprendem a contar mais rapidamente e a realizar as operações básicas com mais facilidade. Aqui as crianças somam 37+42= (7+2=9 e 3+4=7) 79. As chinesas 37+42= (30+40+7+2) 79. Muito mais fácil de memorizar.

No livro há outros exemplos, que mostram que o estudante chinês é mais teimoso em ficar tentando resolver problemas.

Vejam esse vídeo, que ilustra bem:

Gladwell menciona em “Fora de série” um conceito do professor de matemática Alan Schoenfeld que diz que muitos pensam que a matemática é uma capacidade inata. É equívoco dizer ter ou não ter capacidade. Trata-se de atitude. Domina a matemática quem se dispõe a tentar.

Outra demonstração é o exame TIMSS (testes abrangentes de matemática e ciências) com alunos do ensino fundamental de todo o mundo, para comparar níveis educacionais de diferentes países. É um teste maçante com 120 questões de conhecimento e também sobre o que acham do ensino do país e o que seus pais acham da matemática. Muitos deixam em branco de 10 a 20 questões. O pesquisador Erling Boe, da Universidade de Pensilvânia, descobriu que os acertos de matemática têm correspondência com os alunos que concluem as provas. Isto quer dizer que seria possível avaliar as provas comparando sem as questões de matemática.

Ou seja, podemos conhecer os melhores em matemática pelos que entregaram a prova toda, que coincidem com as culturas nacionais que dão mais ênfase ao esforço e ao trabalho duro. Sabem quem lideram as duas listas? Sem surpresas: Cingapura, Coreia do Sul, China (Taiwan), Hong Kong e Japão. E o que têm em comum é o fato de terem sido moldadas pela tradição da rizicultura irrigada e de trabalho significativo.

E lógico que o modelo chinês mostra uma cultura milenar de invejar. O EUA tem outra também bem sucedida e cada pais tem a sua. “Mais vale quem Deus ajuda do quem cedo madruga” é um dos nossos ditados mais populares de origem portuguesa, achando que as divindades ou o Deus estado é quem resolverá nossos problemas. Isto está na nossa história desde nosso misticismo rural até as plateias religiosa dos programas de TV.

Resido próximo ao colégio que cobra as mensalidades mais altas de são Paulo, onde ao final da tarde há uma fila quilométrica de carros com motoristas para apanhar os estudantes. Um pouco à frente há escolas públicas onde depois da saída os alunos andam a pé por quilômetros. A diferença social começa por aqui, uns têm todas as oportunidades de se dar bem na vida e outros absolutamente nem tanto.

Enquanto não solucionarmos esta situação de desigualdade nada mudará. E como acredito no Deus que nos deu a inteligência para vencer os desafios, a Educação é base de tudo para formar gente que tenha capacidade de solucionar os nossos problemas. Comparado a culturas milenares o Brasil tem só quinhentos anos. Precisa apenas de um Projeto de Nação para saber o que deseja ser e onde deseja chegar.

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