Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
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“Competência comportamental é a capacidade de contatar, integrar e identificar as próprias emoções, motivações e pensamentos, vivenciando-os e gerenciando-os conscientemente, para expressá-los eficazmente na forma de comportamentos e atitudes que garantam mais satisfação e realizações em sua vida profissional e pessoal”. (Instituto de Desenvolvimento da Pessoal, Indepe)

Lembro-me de um filme da Universal de 1987 – “O segredo do meu sucesso” – que relata os anseios de um jovem americano do interior, recém-formado, sonhador, de família pobre. Para convencer os pais de que precisava vencer na vida, em Nova York, afirmou se destacar entre os colegas pelo seu tino comercial. Ao despedir-se dos pais, sua mãe lhe entregou um cartão de um suposto tio, a quem ele pudesse recorrer no caso da aventura não dar certo.

Apesar de todo o seu entusiasmo, motivação e capacidade de convencimento, o jovem não foi aprovado nas entrevistas realizadas em dezenas de empresas. Assim, não lhe restou alternativa senão a de procurar seu presumível tio. Ele mesmo nem sabia que o parente era presidente de uma grande organização com mais de 30 mil funcionários. Recebido a contragosto pelo empresário, foi por este indicado, mesmo sendo bacharel em administração, para trabalhar no setor de entrega de correspondência da companhia.

Há 30 anos, sem os recursos da internet, as comunicações entre departamentos das grandes empresas eram realizados por boys sem formação alguma que percorriam com um carrinho de madeira os birôs dos funcionários para pegar e distribuir a papelada da empresa. O rapaz fazia com gosto este ofício. Sendo curioso, lia todos os documentos e tirava cópias daqueles que continham assuntos mais importantes. Ele estudava e analisava tudo e no fim de algum tempo, astuto como era, dominava todas as informações interdepartamentais. Com esta estratégia, passou a conhecer a empresa mais do que todos os demais funcionários.

Para impressionar uma jovem executiva, “criou” para si um cargo de diretor de departamento (na firma grande ninguém percebe…). Ao participar das reuniões de diretoria, percebeu que a empresa ia “mal das pernas”. Propôs então um plano de desenvolvimento para reerguê-la e, como ninguém havia sido capaz de fazer tal façanha, conseguiu enfrentar e destituir o tio que perdera a liderança.

Sabe-se que o desenvolvimento da humanidade sempre foi feito primordialmente pelo poder da informação, corroborado pela história ora relatada. O mundo é o que é pela informação e quem a detém domina seu ambiente, detém o poder.

A comunicação entre os homens, por sua vez, iniciada nos tempos mais remotos está em processo constante de evolução. O homem sempre necessitou de informação que, consolidada, se transforma em conhecimento e estratégia de poder, de acordo com o estágio cultural, técnico, econômico e social de cada período da história da humanidade.

Assim, desde os tempos remotos até aos dias atuais, a humanidade aprendeu e experimentou grande evolução sempre apoiada nos instrumentos de comunicação que dominava.

Vive-se uma era de plena transformação paradigmática. A universidade tradicional presencial está com os dias contados. A forma de aprender mudou e muitos não acreditam nisto. A Academia como um todo é avessa e completamente contrária às inovações. Pela primeira vez na história da humanidade, a informação está acessível por um clique. As pessoas nunca tiveram tanto acesso a conteúdos diversos em diferentes mídias. As redes sociais conectam pessoas, que compartilham experiências, conhecimentos, notícias, curiosidades, trocam seus repertórios pessoais e profissionais.

As tecnologias da comunicação e da informação estão mudando tudo. A educação foi impactada pelo desenvolvimento tecnológico. O potencial do conhecimento agora está nas mãos das pessoas que escolhem o “que” querem e “como” querem aprender. Os usuários da rede deixaram de ser simples ouvintes e passaram a ser autores de conteúdos e informações. O “pensar” e o “fazer” estão atrelados e são condições imprescindíveis para o desenvolvimento profissional. Uma revolução silenciosa ganhou força e democratizou o conhecimento que está disponível em todos os lugares do mundo, sem distâncias para os que querem aprender e se tornar bons profissionais.

Para Sandra Loureiro, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)[1], as competências que realmente distinguem os profissionais são as denominadas competências humanas ou competências comportamentais; são as que aliam ao conhecimento técnico profissional um comportamento mais produtivo e correto das pessoas no dia a dia na empresa. No rol dessas competências, a autora destaca a capacidade de comunicar-se; de trabalhar em equipe; de expressar ideias e pensamentos; de negociar na busca de soluções; de ser flexível; de agir de acordo com princípios éticos.  “São competências difíceis de serem desenvolvidas, pois exigem investimento pessoal e coragem para lidar com as próprias emoções e  humildade para encarar as próprias limitações”, diz a autora.

O mundo virou uma aldeia global como profeticamente sinalizou o teórico da comunicação Marshall McLuhan. Estamos em plena civilização global. Uma revolução silenciosa ganhou força e democratizou o conhecimento que está disponível em todos os lugares do mundo sem distâncias para aqueles que querem aprender. Não há mais fronteiras do conhecimento entre países. A universidade não está mais numa rua, no bairro, no estado ou no país. Está no mundo.

As escolas têm de preparar os cidadãos para um mundo globalizado, complexo, de mudanças, centrado no conhecimento, onde todos competem com todos, sem fronteiras e onde a capacidade de cada um de criar valor, com empenho e inovação, passou a ser fator crítico de sucesso e de sobrevivência.

Mas, cá entre nós, será que as nossas instituições universitárias estão preocupadas com essas questões?



[1] Competências comportamentais diferenciam profissionais no mercado de trabalho. Estado de S.Paulo (16.03.2014). Ver também:  http://blogs.estadao.com.br/radar-do-emprego/competencias-comportamentais-diferenciam-profissionais/

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