Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
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 “A sala de aula representa os metros quadrados mais nobres de qualquer organização educacional”. (Jacir J. Venturi)

Participei, no dia 26 de março, em São Paulo, de uma mesa de discussões do XII Geduc 2014 [1] sobre o tema O modelo do ensino superior presencial está chegando (ou chegou) ao fim?”. O mediador dos trabalhos, Daniel Castanho, presidente da Anima Educação, desafiou, logo de início, a plateia com a pergunta: “Como classificar um aluno que sai da classe, deixa um Ipad ligado para gravar o que disse o professor e que durante o retorno para casa ouve a aula. Trata-se de um aluno presencial ou a distância?”

Na sequência, Ronaldo Motta, Fundador da EdUKationBr, descreve o novo professor como um designer institucional, com domínio da tecnologia digital e de todos os aparatos de multimídia para transmitir informações, visando ao aprendizado do aluno.

Tais questões me fizeram meditar sobre o perfil e o papel do mestre atual, quer seja no modelo presencial, quer seja no ensino a distância; tanto o que ainda usa velhas mídias – lápis, papel, cuspe ou giz – quanto o que usa as novas e modernas tecnologias – vídeos, satélites e Internet.

Importante destacar que conservo em relação aos exemplos citados uma convicção: deverá haver sempre a figura do mestre e/ou de um intermediário entre o conhecimento e o aprendiz.

Em geral, o corpo docente de uma escola é formado mais por indicação do que por mérito, na velha prática do “quem indica” (QI). Há escolas em que o candidato é selecionado pelo coordenador de curso e há outras em que a seleção e a contratação do candidato são feitas pelo setor de Recursos Humanos da instituição, independentemente da aprovação da coordenação. E há ainda outras formas de seleção: submeter os candidatos a uma banca examinadora para que ministrem uma aula-teste sobre tema previamente sugerido, independentemente do currículo pessoal e profissional do interessado.  Há também os cursos mantidos em localidades distantes que padecem de absoluta falta de docentes qualificados, especialmente de mestres e doutores, raros nas cidades do interior. Nestes casos, há que se contar com os recursos humanos locais sem especialização nas diferentes áreas e sem conhecimento básico das técnicas pedagógicas e didáticas.

Mas afinal, o que é uma boa aula? “Quando” e “como” acontece? Quais são os requisitos para transformar a aula num evento marcante de aprendizado? Que recursos utilizar para deixar a plateia boquiaberta e que se recusa a deixar o recinto porque quer mais ? São questões complexas e difíceis de serem respondidas.

Sabe-se que no Brasil as matrículas no ensino em tempo integral avançam. Porém, o tempo de permanência nas escolas, por si só, não resolve os problemas básicos da qualidade das aulas e da qualificação do professor.

A maioria dos professores das nossas instituições não tem vocação e se diplomou em escolas cujos projetos pedagógicos dos cursos são comprovadamente fracos. Assim, os profissionais formados vão comprometer seriamente o processo de ensino-aprendizagem. Este quadro é agravado por um outro fato:  do contingente de professores, 600 mil vão se aposentar nos próximos anos sem nenhuma chance de serem substituídos por colegas de melhor qualidade, dado o crônico desinteresse pela carreira.

O número de ausências de professores da rede municipal de São Paulo em 2013 se manteve na mesma média dos últimos quatro anos. No ano passado, os 61.855 docentes tiveram 1,77 milhão de ausências. É como se, na média, cada professor tivesse faltado 29 dias no ano. Em 2012, essa média foi de 28 dias.  No Estado, o número de faltas de professores também é alto. Em 2012, cada um dos 230 mil professores faltou, em média, 21 dias de aulas usando licença-saúde. Salvo se substituídos a tempo, milhares de alunos ficaram sem ter aulas.

Nesse quadro, como falar em boa aula?

Ivanilson da Costa, em sua obra Novas tecnologias: desafios e perspectivas na educação, observa que “todos os educadores são professores mas nem todos os professores são educadores”. E que não se pode confundir os processos de instruir e educar, que são distintos. Segundo ele, enquanto a educação imprime credibilidade, a instrução gera dúvidas, primordiais para despertar o interesse dos alunos por novos conhecimentos.

Em artigo publicado no ano passado pelo Gazeta do Povo –Foco na aprendizagem e não na Ensinagem”– Jacir J Venturi[2] expõe três questões muito oportunas.

Em primeiro lugar, ele relata uma passagem de Lauro de Oliveira Lima – cearense, falecido em 2013, autor de mais de 30 livros sobre educação – que ao receber amigos professores em sua casa os surpreendia com graça ao perguntar: “Estão vendo este meu cachorro? O nome dele é Dog, e eu o ensinei a falar!” E prosseguia: “Vem cá, Dog! Diga boa noite! Boa noite, Dog!” Fazia-se um silêncio sepulcral, e evidentemente sem um grunhido sequer a sugerir um boa noite. Então, Lauro se safava: “Ensinar eu ensinei, só que ele não aprendeu”.

Venturi explica, em segundo lugar, que há uma dicotomia entre aprendizagem e “ensinagem”: o professor só ensina se o aluno aprende, e cita Albert Einstein: “Não ensino os meus alunos. Crio condições para que aprendam”.

Finalmente, Venturi destaca uma passagem do filósofo colombiano Bernardo Toro: “quando o ensino é mais importante que a aprendizagem e algo vai mal, os culpados são os alunos. Se a aprendizagem é mais importante, nós, adultos, é que temos a responsabilidade de mudar as coisas. A escola é lugar de aprender e não de ensinar”.

O aprendizado cobra reciprocidade dos atores na relação docente-discente, com inúmeros fatores e interseções: público da sala, conteúdo a ofertar, atuação performática do docente, linguagem empregada, pontualidade e assiduidade, atratividade com relato de cases, emprego de modernas tecnologias de comunicação (tablets, smartfones, etc, etc) em aulas diurnas e/ou noturnas, envolvimento do professor, atenção que desperta no aluno, formação adquirida pelos alunos em graus anteriores, qualidade e atualidade de informações e conhecimentos e flexibilidade.

A educação pela internet ainda engatinha no país, mas já é possível considerar a divisão do ensino em “a.w” (antes da web ) e “d.w” (depois da web). Este poderá transformar a sala de aula em reduto de carteiras vazias. Resta saber se o aprendizado será melhor, igual ou pior do o adquirido no modelo “a.w”.

Pelo exposto, as diferenças cognitivas, culturais, étnicas e socioeconômicas encontradas numa mesma sala de aula nos conduzem a pensar sobre os desafios enfrentados pelos professores.

Não se pode deixar de reconhecer também que o professor não é mais respeitado no Brasil tal como era no passado. Basta lembrar o prestígio das escolas normais que formavam professores. No Japão, por exemplo, os docentes são respeitados pelo próprio Imperador que se “curva” na presença deles.

Voltando às questões de fundo do artigo, deixo aos leitores, em vez de respostas, algumas perguntas para reflexão: Como é possível propor conteúdos a alunos que vivem em realidades tão distintas? Como perceber essas diferenças e como lidar com elas?  Como preparar de forma mais adequada os professores? Como resgatar a importância da carreira docente? Como adequar a forma de ensinar com o uso das novas tecnologias, sem perder de vista a relação professor-aluno?



[1] Congresso de Gestão Educacional Brasileira, promovido pela Humus.

[2] Professor e gestor escolar, é presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR).

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