Gabriel Mario Rodrigues 1Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da ABMES e Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
***

“Você nunca muda a realidade lutando contra ela. Para mudar algo, você cria um novo modelo que torna o modelo existente obsoleto”. (Buckminster Fuller[1])

A possibilidade de o nosso planeta abrigar qualidade de vida e bem estar para toda a população somente será viável com a contribuição de recursos humanos bem formados e excepcionalmente educados em todos os níveis e idades. Para que isto se concretize, será preciso que a sociedade se beneficie cada vez mais das tecnologias de informação e comunicação que estão mudando o mundo e levando para o ambiente educacional suas melhores práticas visando promover o aprendizado das pessoas.

Tal como mencionei em artigos anteriores, a educação será o setor mais importante da indústria da comunicação.

De acordo com a pesquisa realizada pela New Media Consortium (NMC) Horizont Report 2014 – Edição de Educação Superior as estratégias de marketing e comunicação, pela sua importância e eficácia, unem a informática aos modernos processos de ensino. Assim, depois de conhecer o que está acontecendo no mundo educacional, a pesquisa revelou as “seis tendências-chaves” que as instituições de ensino usam para promover a inovação nos seus processos de aprendizagem.[2]

 

Primeira tendência. As pesquisas que visam conhecer profundamente os estudantes, identificar os seus desejos de formação e as formas como aprendem e aplicam o que aprenderam, ao lado do uso da programação de dados para orientar a aprendizagem e avaliação, estão atualmente em ascensão no mundo desenvolvido e vão impactar o ensino superior nos próximos anos.

Na Universidade de Wisconsin, por exemplo, o programa piloto, conhecido como “Estudante de Sucesso” foi iniciado em 2013 para identificar alunos e seus padrões comportamentais. Os resultados forneceram subsídios para planejar e melhorar o ensino, identificar áreas de melhoria e aprofundar futuras coletas de dados. Muitas instituições estão utilizando os dados de seus estudantes para se tornarem competitivas, ágeis e flexíveis.

O ensino personalizado já é aplicado no Brasil como é o caso do Geekie Lab[3] que é usado na preparação dos alunos às provas do Enem. Aulas online são preparadas com conteúdos diferentes, para atender a estudantes de acordo com suas dificuldades registradas no questionário prévio sobre seus conhecimentos.

 

Segunda tendência. As mídias sociais serão cada vez mais aproveitadas no processo de ensino-aprendizagem.

Os meios de comunicação social estão mudando a forma de interação entre as pessoas. Mais de 72 milhões de pessoas usam o Facebook regularmente no Brasil. Educadores, alunos, ex-alunos e o público em geral usam rotineiramente as mídias sociais para compartilhar notícias sobre questões políticas, empresariais, culturais, científicas entre outras. O impacto das informações na comunicação acadêmica é extraordinário apesar da sua credibilidade muitas vezes ser vista com restrições. Mas é inegável que a mídia social tem encontrado recepção significativa em quase todos os setores da educação.

Os usuários da web de hoje são profícuos criadores de conteúdo e fazem, aos milhões, uploads de fotografias, áudios e vídeos para a nuvem. Produzir, comentar e classificar estes meios de comunicação se tornarão tão importantes quanto pesquisar, ler, ver e ouvir. Sites como o Facebook, Twitter, Pinterest, Flickr, YouTube, Tumblr, Instagram e muitos outros facilitam o compartilhamento e o relacionamento com os meios de comunicação. Para as instituições de ensino estes meios de comunicação social propiciam vias de diálogos entre alunos, futuros estudantes e educadores. Como as redes sociais continuam a florescer, os educadores passaram a usá-las como prática profissional em comunidades de aprendizagem e como plataforma para compartilhar histórias interessantes sobre tópicos que os alunos estudam em classe.

 

Terceira tendência. O ensino híbrido, que significa a integração do ensino presencial com o ensino online e com a aprendizagem colaborativa, ampliarão seus espaços nas instituições de ensino.

A primeira vista nada supera o ensino presencial mas a realidade da evasão atual de estudantes nesta modalidade aponta para a necessidade de melhorar as estratégias de comunicação visando validar a articulação desses dois meios e permitir a colaboração entre pares. Os estudantes utilizam, de forma independente, grande parte do seu tempo livre na internet, na troca informações, o que contribui para desenvolver as suas habilidades online. Tais ambientes de aprendizagem oferecem complementações temáticas diferentes do campo físico, propiciam maior colaboração e integração e ampliam o potencial de colaboração ao incorporar oportunidades para os alunos se comunicarem fora da sala de aula e trocar ideias sobre um assunto ou projeto. Em um comentário para The Chronicle of Higher Education, David Helfand, um dos fundadores da Universidade de Quest no Canadá, mostra que a colaboração estudantil será a melhor estratégia de aprendizagem do século XXI. Muitos educadores estão descobrindo que as plataformas online podem ser usadas para facilitar a resolução de problemas de grupos, desenvolver habilidades de comunicação e agregar valor aos estudantes. O benefício para a sua aplicação é que este processo de aprendizagem – já utilizado no Brasil – pode ser reproduzido em escala.

 

Quarta tendência. A implantação da aprendizagem orientada por informações advindas do ensino em rede permitirão que novas fontes de dados sejam capazes de personalizar a aprendizagem e de medir o desempenho dos estudantes.

Ao participarem de atividades online, os estudantes deixam pistas cada vez mais claras que podem ser analisadas e utilizadas para modificar processos e estratégias de aprendizagem.

No comércio em geral os dados são medidos, coletados e analisados ​​ desde o início da década de 1990 para informar as empresas sobre o comportamento do cliente e suas preferências. Uma tendência recente na educação é empregar este mesmo método para melhorar o ensino-aprendizagem nos diversos níveis de cursos. Como os alunos e educadores geram muitos dados, especialmente em ambientes online, há interesse crescente no desenvolvimento de ferramentas e algoritmos para revelar e aplicar novos padrões visando à melhoria dos sistemas de ensino. Embora as questões de privacidade e ética estejam apenas começando a ser abordadas, o potencial de utilização de dados para aperfeiçoar serviços, reter alunos e melhorar o desempenho do alunado são claramente evidentes. A interligação de informações (residência, frequência a biblioteca, participação a programas de tutoria e pesquisas) permite não só compreender e prever por que alguns alunos são mais propensos a abandonar os estudos do que outros bem como propor soluções para o problema. A aprendizagem adaptativa já está sendo usada ​​para medir a compreensão do estudante em tempo real e para ajustar o conteúdo e estratégia conforme necessário.

 

Quinta tendência. Os estudantes dentro de uma ampla variedade de disciplinas, em vez de simplesmente ouvir seus professores, produzirão e criarão conteúdos e viabilizarão a aprendizagem proativa.

A criatividade demonstrada pelo crescimento de vídeos gerados por usuários, comunidades produtoras e projetos com financiamentos específicos estão sendo cada vez mais usados para viabilizar a aprendizagem proativa. As instituições universitárias em áreas que não têm tradicionalmente laboratórios ou componentes proativos estão se transformando para incorporar experiências e práticas de aprendizagem como parte integrante do currículo. Cursos e planos de graduação em todas as disciplinas estão em processo de mudança para refletir a importância da criação de mídia, design e empreendedorismo. A tendência crescente nos campi é a participação de alunos em criação e design de conteúdo em todas as disciplinas. As instituições universitárias estão desenvolvendo ambientes e facilitando oportunidades para aproveitar essa onda de criatividade, além de construir espaços físicos nos quais os alunos podem aprender e criar em conjunto, integrando as atividades de conteúdo e produto como parte de sua instrução. Esta tendência está ganhando força e deve atingir o seu impacto total em cerca de três a cinco anos.

 

Sexta Tendência. O Movimento Maker[4] – “Faça você mesmo” ( Do-It-yourself) – antes baseado em livros instrutivos, transformar-se-á, graças às tecnologias de informação e comunicação, em atividade criadora de novos produtos e de práticas para estimular a inovação e o empreendedorismo.

Os educadores estão trabalhando para desenvolver novas abordagens e programas baseados nesses modelos que estimulam os estudantes a apreender e materializar suas iniciativas e ideias. As mudanças podem ser implementadas por meio de uma ampla gama de configurações institucionais. Assim, o uso da tecnologia permite o desenvolvimento de programas experimentais visando à melhoria do ensino e ao aperfeiçoamento da estrutura organizacional e, com isso, alimentar de forma mais eficaz o empreendedorismo entre alunos e professores.

Em outubro de 2013, o Departamento de Comércio dos EUA publicou um relatório intitulado “A universidade inovadora e empreendedora”, que destaca as formas com as quais as instituições de todo o país estão alimentando o empreendedorismo dentro de suas práticas de infraestrutura e de ensino. A pesquisa revelou uma ênfase crescente em ambos os programas formais e informais que constroem os interesses dos alunos na resolução de problemas sociais e globais, criando produtos e contribuindo com o conteúdo, para ajudar as empresas existentes.

Todos estes fatos estão acontecendo no mundo educacional e retratam as iniciativas que vão transformar o ambiente das instituições.

Para não nos surpreendermos sempre é bom acompanhar e refletir. Nesse sentido, recomendo fortemente a leitura e a análise do MMC Horizont Report 2014.

 

[1] Richard Buckminster Fuller (1895/1983) – visionário, designer, arquiteto, inventor e escritor estadunidense.

[2] O NMC Horizon Report 2014: Higher Education Edition é um esforço colaborativo entre o NMC e a Iniciativa Educause Aprendizagem (ELI) – um Programa Educause.  http://www.nmc.org/publications/2014-horizon-report-higher-ed; http://www.horizon.wiki.nmc.org

[3] http://www.geekie.com.br/geekie-lab/‎

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Maker

Avaliar

Uma resposta para “Seis tendências apontam a nova realidade universitária”

  • Excelente artigo.
    Grato ao Professor Gabriel Mário Rodrigues por publicar este artigo cujo conteúdo de fácil leitura aborda temas recorrentes levando o leitor a refletir o seu papel enquanto agente de mudança tendo em vista as suas atitudes.

     

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics