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Lioudmila Batourina
Consultora de parceria internacional da ABMES
lioudmila@abmes.org.br

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Relatório publicado em janeiro de 2019 pelo banco de investimentos JP Morgan analisou o setor particular de educação no Brasil e desenhou um quadro com os itens que são levados em consideração pelos alunos na hora de escolher uma instituição de educação superior (IES) para estudar. Além dos motivos patrimoniais bastante compreensíveis como localização, transporte e taxa de matrícula, o primeiro e o terceiro motivo são: “Qualidade” (39%) e “Outros” (11%). Juntas, essas razões totalizam 50% e dizem respeito a “reputação” da instituição.

No Brasil, o atributo “reputação” é construído pela soma das notas do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) aos impactos comunicativos, onde muitas vezes o que falam sobre sua qualidade é mais importante do que a sua real qualidade. A reputação representa a excelência percebida da instituição, fator que orienta a decisão dos futuros alunos a se matricularem.

Construir uma boa reputação e ter uma identidade sólida e reconhecida confere à instituição uma vantagem competitiva no mercado.

A importância da reputação nacional e internacional de uma universidade foi, inclusive, tema debatido em conferência internacional, realizada recentemente pela universidade russa Higher School of Economics (HSE), instituição visitada pela ABMES em 2017, durante nossa 1ª Delegação ABMES Internacional – Russia Experience.

Todos querem se vincular à uma boa universidade, mas é impossível concordar com uma definição única do que significa ter uma “boa reputação”. Com essa breve introdução, convido os leitores a participar da discussão, acrescentar e debater sobre as principais características de uma instituição com uma “boa reputação”. Recursos individuais, por si só, não são capazes de construir uma reputação, mas eles não devem ser subestimados.

Vamos lá:

Tradição: Instituições de boa reputação parecem ser as que já existem há muito tempo, mas a idade por si só não é um sinal de qualidade. Especialmente no Brasil, onde o setor de educação superior tem apenas 50 anos, em média, e a universidade mais antiga do país tem 84 anos. Como muito bem dito durante o XII CBESP por Bruno Pinheiro, empreendedor digital e fundador/CEO da be.academy, “se continuarmos ensinando da mesma forma, não conseguiremos reter jovens”.

Riqueza: Não é incomum conhecer IES que construíram sua reputação com base em legados ricos. Esse fato oferece ao aluno muitas comodidades e oportunidades que outras universidades não podem dar. Mas, no universo da educação particular brasileira, esse critério parou de funcionar. O que significa ser rico? Quem tem dinheiro é a instituição ou o seu dono? Não seria melhor avaliar uma universidade pelos serviços e oportunidades que ela de fato oferece, ao invés de presumir que a riqueza que a instituição possui dará aos alunos o que eles querem? Além disso, na maioria dos casos, quando uma instituição oferece muitos benefícios, ela está cobrando um preço alto por isso.

Dificuldade de entrada: Algumas universidades tendem a selecionar apenas alunos altamente talentosos. Porém, o talento por si só não é suficiente. As pessoas também precisam ter notas altas, dinheiro e uma lista de outras conquistas. Claro, se as universidades só permitem alunos talentosos, isso tende a fazer com que a instituição pareça boa. É uma profecia autorrealizável. Ademais, quem pode garantir que esses estudantes talentosos não se sairiam tão bem em outro lugar? No contexto brasileiro, em que há uma competição muito alta pelas poucas vagas oferecidas, isso também não é verdade. A qualidade do ensino em algumas universidades privadas pode ser ainda maior e a dificuldade de entrada não deve ser considerada para a reputação da instituição.

Empregabilidade: É um bom critério, especialmente em tempos de crise. Os empregadores ainda são viciados na ideia de reputação, sobretudo no contexto brasileiro, assim como os sindicatos de medicina, arquitetura e outros, que muitas vezes se opõem abertamente aos diplomas de universidades privadas. No Brasil, muitas instituições particulares focam em parcerias com empresas de sua região para tentar resolver esse problema e ter índices bons de empregabilidade. Pode ser que os alunos de IES privadas tenham notas mais baixas, ou venham de famílias mais pobres, isso não interfere no sucesso imediato, pelo contrário, por ser um caminho com mais desafios, seus resultados podem ser ainda mais impressionantes.

Rankings: Sejam eles internacionais ou nacionais, os rankings são uma escala linear que não mostram a verdadeira face de uma universidade. Com essa abordagem, corremos o risco de transformar a reputação, a marca ou a história de uma instituição em números únicos, e isso é fundamentalmente errado. Já escrevi sobre isso em outra oportunidade.  Eles medem pesquisas científicas, publicações em inglês e prêmios Nobel. Ou seja, têm pouquíssima proximidade com a rotina da maioria das IES particulares brasileiras e de seus estudantes.

Alta qualidade: Esse ponto é frequentemente associado ao anterior (ranking), mas é relativo. Qualidade de ensino ou qualidade de aprendizagem? Geralmente, esses dois processos não são paralelos. O conhecimento não cai “automaticamente” na mente dos alunos depois do pagamento das mensalidades ou só porque o estudante marcou presença nas aulas. O “diploma em troca de pagamento” é uma filosofia bem conhecida por indivíduos que buscam simplesmente o crescimento da carreira ao invés de conhecimento.

Mobilidade internacional: Esse é com certeza um requisito atraente, principalmente para os jovens, mas é errado definir a internacionalização apenas analisando a mobilidade estudantil. Ela é uma ferramenta, não um objetivo. No contexto brasileiro, a mobilidade estudantil ainda é uma questão de dinheiro e isso significa que a internacionalização deve ser construída de uma maneira diferente. Existem muitos exemplos de projetos criativos desenvolvidos por instituições particulares no Brasil. No mundo digital, é impossível realizar um o processo de aprendizagem completo sem parcerias estratégicas entre universidades. Especialmente em tempos de corrida tecnológica, conhecer a agenda global e tendências mundiais, aprender e vivenciar novas experiências é cada vez mais uma necessidade básica para professores e alunos, bem como desenvolver flexibilidade e mobilidade, que são qualidades essenciais em um ambiente onde a velocidade de mudança nos negócios e na vida tem aumentado constantemente. A construção de status e o branding estão intimamente ligados às razões por trás das decisões de internacionalização.

Tecnologia avançada: Tecnologia moderna não é necessariamente a tecnologia “da moda” ou “do momento”, que em geral tem uma vida útil curta. Como também foi mencionado no XII CBESP por Bruno Pinheiro “Pessoas gostam de se relacionar com pessoas, não com máquinas. A melhor forma de engajar o jovem hoje não é na sala de aula, é com a tecnologia”. Mas ele ressaltou ainda que a tecnologia deve ser utilizada para educar, não para reduzir custos. “Para prepare o aluno para a vida, não para o emprego”.

Após essa reflexão, convido os leitores para fazermos um brainstorming coletivo e darmos continuidade à essa lista. Na sua opinião, quais devem ser as principais características para uma universidade conquistar uma boa reputação?

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