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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Família é determinante no ensino, mas o país pode dar um salto se investir em criatividade e pensamento crítico”. (Ricardo Paes de Barros – Economista Chefe do Instituto Ayrton Senna)

Nos últimos meses, acordamos, trabalhamos, almoçamos e jantamos lendo, ouvindo e assistindo ao noticiário político, social e econômico da realidade brasileira. Há uma penca de problemas e o país assiste a uma encenação onde os atores, protagonistas e coadjuvantes, são todos do mesmo figurino e não se salva um. E ainda estamos apenas no começo das investigações – e não me venham dizer que só a Odebrecht, a JBS, os irmãos Batista, os senadores, os deputados e os governantes são bandidos e o restante “todos anjinhos”.

Para fugir desse marasmo em que vivemos, nada melhor do que ver o comportamento dos jovens, começando por Darci Lynne, extraordinária garota americana de 12 anos que fez uma espetacular apresentação de ventriloquismo no programa America’s Got Talent. Mais do que isso, chama atenção o contentamento e o sorriso de satisfação de seus pais ao assistirem os aplausos da plateia, que premiavam seus incentivos e encorajamento para que o sonho artístico da filha se concretizasse.

Na contramão desse cenário estão as palavras amargas do jovem Felipe Lima, de 19 anos, estudante secundarista de Nova Olinda (CE). “Como meus pais não foram bem-sucedidos na vida, eles não me influenciaram e não me deram força para estudar. Acho que nunca me sonharam como sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo professor e nunca me sonharam como médico”.

Nunca me sonharam”, dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes, é um documentário do Instituto Unibanco que, como descreve seu executivo, o economista Ricardo Henriques, na coluna Tendências e Debates da Folha de S.Paulo de 08/06/17, retrata os anseios da juventude que estuda nos colégios públicos de ensino médio do país.

Contrariando a maioria dos pais que, pelas agruras da vida, nunca puderam pensar em dias melhores para suas crianças, os jovens sonham com um país melhor e querem participar para que todos alcancem dias melhores. É o que diz Jamile Melo, de Santarém (PA): “Eu quero participar da mudança, não quero só aplaudir a mudança. Se eu quiser e meus amigos quiserem, a gente faz a mudança”.

O filme retrata o desejo dos jovens das pequenas e grandes cidades deste Brasil de usufruírem melhores oportunidades. Antes, os que assistiam à TV nada podiam fazer. Tudo estava tão longínquo, mas hoje a internet aproximou as pessoas por meio das redes sociais, onde trocam informações e ideias de como construir um mundo melhor. Além disso, os jovens sabem que uma educação mais propositiva é meio caminho andado para materializar seus sonhos. Haja vista, conforme a edição 2534 da revista Veja, como uma menina de 8 anos, a Rivânia Silva, reagiu, com as aguas à sua cintura, quando avisada pela avó que o barraco onde moravam iria soçobrar com a enchente do rio na cidade de São José da Coroa Grande, em Pernambuco. Ela precisava pegar suas coisas e sair. No lugar de apanhar sua roupa, encheu sua mochila de livros. Entrevistada pela TV, declarou que não podia ir à escola sem eles.

Outro caso que o Cotidiano, da Folha de S.Paulo, publicou no mesmo dia é a reportagem sobre Roberto Ferreira, professor de uma escola municipal no bairro da Paciência, na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), região onde há constante conflito entre o tráfico de drogas e a polícia. Mês passado, um vídeo registrou e a internet viralizou a estratégia adotada pelo professor para distrair as crianças quando o tiroteio começa junto aos muros da escola. Ele retira os alunos das salas de aula e os coloca sentados no corredor para os tiros não os alcançarem. Pega seu violão e canta com eles para acalma-los, usando a música para esquecer da violência.

“Para brotar do meu peito / Dentro do meu coração / muita alegria, mil fantasias, paz e mais compreensão / Música, brindes e cores / Sonhos de um mundo melhor / Força criança, criança esperança / Fé que levanta o astral”.

Diariamente somos entupidos pelo negativismo do noticiário agressivo dos meios de comunicação e da troca de informações desestimulantes da internet e suas redes sociais. O mundo sempre foi construído, apesar das guerras e atribulações, com muito trabalho, sacrifícios e determinação por pessoas que acreditam que os desafios podem ser vencidos. Nele vivemos porque nossos ancestrais lutaram para construir uma sociedade onde a miséria pudesse ser eliminada. No Brasil, há muita pobreza e a exclusão impede o progresso e o desenvolvimento. Se uma criança nasce numa família pobre, a possibilidade de se realizar profissionalmente é mínima. Os que nascem pobres se desmotivam porque não superam os desafios escolares. Desestimulados, abandonam a escola ainda no ciclo fundamental, tornam-se aprendizes de bandidos e, no correr do tempo, são banidos pelo ambiente.

Somos uma sociedade desigual, sustentada pelo patrimonialismo de compadres e de governo, além da corrupção generalizada, e de difícil mutação. Num século onde o capital humano passa a ser o valor mais procurado para gerar desenvolvimento e progresso, as instituições educacionais deveriam direcionar todas as suas forças, além da preparação profissional de seus estudantes, para formar homens e mulheres preocupados com o destino do país.

Não se resolvem problemas novos com soluções velhas e nada é fácil mudar da noite para o dia. Por isso é que estamos batendo sempre na mesma tecla do Projeto Vota Certo Brasil. A eleição de 2018 vai trazer de volta os mesmos malabaristas que estão em cargos públicos devido à nossa inapetência política. Se não conseguirmos mecanismos para a mudança, tudo ficará no mesmo.

Transformar implica em atitude. Atitude implica em mudar crenças e valores limitantes, motivada em ações apoiadas na liberdade, no conhecimento, na confiança e na criatividade para buscar soluções novas, além de sustentada nas habilidades que impulsionam o nosso fazer. Transformar implica na decisão de que, mais importante do que acertar, é ousar e assumir o risco de tentar.

Ainda há muita esperança em milhões de Felipes, Darcis, Jamiles, Rivânias e outros milhões de estudantes e milhares de professores como Roberto Ferreira, além de cidadãos e cidadãs como eu e vocês, que estejam dispostos a transformar o Brasil. Eu acredito.

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Uma resposta para “Brasil, um país que ainda precisa ser sonhado”

  • hermes Ferreira Figueiredo says:

    Gabriel, amigo: Quando tomei conhecimento de todas as materias que voce menciona, cá pensei comigo, o Gabriel tem aqui excelente material para seus proximos artigos. Voce as assimilou corretamente. Assim tenho me manifestado nas oportunidades que me aparecem. Num painel sobre a inovação, sobre inteligencia artificial, sobre inteligencia digital eu disse que “limitado” à minha inteligência “superficial” recomendo que detenhamos-nos em nossa IES a formar cidadãos éticos, responsáveis, idôneos, solidários, comprometidos com a diversidade, não preconceituosos, tolerantes com a diversidade religiosa, respeito ao outro etc. Na mesma direção coloquei-me ao final do Seminario do Semesp – O futuro do Ensino Superior no dia 9/6 onde houve duas apresentações de linhas diferentes – MIT – marcadamente preocupada em tecnologia e Harvard marcadamente humanista/liberal demecrática. Parabens pela perseverança em bater nessas teclas. Fo9rmemos cidadãos. Nossos jovens precisam continuar “sonhando-se”. Hermes.

     

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