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Manual de Redação PUC/RS
http://www.pucrs.br/manualred/faq/duv-campus.php
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Entre nós, é ampla a área de dúvidas, de contradições ou de conflitos. A toda hora vêm à tona questões deste tipo: ensinar ou não ensinar gramática? Que gramática ensinar? Que norma adotar, uma norma idealizada ou uma norma real, derivada dos usos reais da língua? Estabelecer barreiras alfandegárias à importação de palavras estrangeiras ou ver no fenômeno algo natural, próprio da natureza e da história das línguas? Aportuguesar as palavras estrangeiras ou não? Colocar acento circunflexo em “campus” (“câmpus”)? Etc.

De um modo geral, gramáticos, professores e aqueles que têm mostrado a outros como falar, como escrever, têm feito isso numa base meramente normativista, insistindo para que os utentes da língua sigam as regras. Não raro apelam para a lógica, para o peso da tradição e, às vezes, para o peso de sua própria recomendação ou autoridade. Com isso, estão muito longe de basearem suas conclusões na observação acurada, exata, objetiva dos fatos lingüísticos. Importa ressaltar que, antes de emitirmos parecer ou opinião acerca de uma questão lingüística, devemos sempre ter outros fatos necessários ao nosso dispor e compreender como trabalhá-los, organizando-os e interpretando-os cientificamente, verificando sempre o que a ciência lingüística tem a nos dizer. Caso contrário, nossa pretensa solução ou resposta ao problema não passa de uma simples conjectura ou expressão subjetiva de nossa preferência.

As questões lingüísticas não se resolvem, pois, em princípio, mediante a consulta ou a citação de gramáticos ou dicionaristas, a cujos registros se confere “status” de lei ou regra. Se autoridade têm, é simplesmente porque se restringem à tarefa de observar, pesquisar e anotar os usos vigentes na comunidade lingüística. Fácil de ver, então, que a autoridade são sempre os fatos lingüíisticos, os usos, a realidade, as tendências lingüísticas, a deriva de Sapir.

A observação atenta da realidade lingüística – condição primeira, como dissemos, de todo trabalho sobre língua – permitiria, seguramente, classificar os fatos ou usos, no caso, da linguagem culta formal, de acordo com a seguinte ordem:

  1. muitos estão firmemente estabelecidos, não havendo, pois, hesitações, alternativas ou discordâncias entre os usuários da língua, ou, entre professores e / ou gramáticos;
  2. outros estão em variação livre, oferecendo a lingua alternativas ou soluções diversas de emprego;
  3. alguns, finalmente, são de baixíssima ocorrência: ou são verdadeiros arcaísmos ou quase, ou são inovações recentíssimas.

    Essa maneira de ver os fatos pode-se aplicar, com alguma modificação, ao aportuguesamento de palavras. Com efeito,

    1. há muito um número significativo de palavras estrangeiras se acomodou ao gênio de nossa língua: abajur (fr: abat-jour), espaguete (it: spaghetti), réquiem (lat:requiem), vade-mécum (lat:vade mecum), drinque (ingl:
      drink)
      , múnus ( lat: munus), ônus (lat: onus), quiosque (tur: kioxk), kyrie, eleison (gr: quirielêison), memorando (lat: memorandum), etc.
    2. num passado mais recente, outra leva de palavras estrangeiras ganhou foros de cidadania, com roupagem portuguesa, conforme se pode atestar confrontando-se o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) e a “lista de estrangeirismos já aportuguesados”, publicada por Celso Luft em seu Guia Ortográfico (Porto Alegre, Globo, 1973); sirvam de exemplo os seguintes casos: biquíni/biquine (ingl: bikini), boate (fr: boîte), brevê (fr: brevet), cachê (fr: cachet), camelô (fr: camelot), náicron (ingl: nycron), náilon (ingl: nylon), pierrô (fr: pierrot), referendo (lat: referendum), escrete (ingl: scratch), para citar alguns;
    3. mais recentemente, generalizou-se a grafia de “plugue“, “trupe“, “eslaide“, “teipe“, entre tantos outros exemplos que poderiam ser citados;
    4. no momento presente, há variação ou hesitação quanto ao emprego de “stress/stresse“, “lobby/lóbi“, “standard/estândar“, “slogan/eslogã“, “habitat/hábitat(s)“, “gangster/gângster“, etc.É nesse grupo que se encontra a palavra “campus/câmpus“.
    Disse-o bem o Prof. Cláudio Moreno:

    “Essa é uma daquelas palavras mutantes, que se encontra numa espécie de limbo entre o Latim e o Português. Alguns a usam no latim, dando-lhe a grafia e a flexão latina: o campus / os campi; outros já a tornaram nossa, grafando-a como outros vocábulos latinos similares (ônus, ângelus, éctus, múnus, tônus, etc.) – já dentro de nosso sistema flexional e ortográfico.”

O “limbo” a que se refere Cláudio Moreno é um dos estágios em que permanecem as palavras estrangeiras antes do aportuguesamento definitivo.

Eis, pois, que nada impede a que se grafe “Câmpus Universitário II – PUCRS” (os câmpus universitários), embora o circunflexo possa ferir os olhos de muitos gramáticos, professores e utentes da língua. “Os cães ladram e a caravana passa” repetia o superno e saudoso Mestre Luft, referindo-se aos usos que se instauraram na língua, malgrado a reação de muito gramático, dicionarista e professor de Português. Provavelmente nossos bisavós também torceram o nariz quando viram, pela primeira vez, a forma aportuguesada “espaguete” (it: spaghetti). Depois, acostumaram.

Em resumo:

  • se quiser escrever em latim, escreva: o campus/ os campi
  • se quiser escrever em português, escreva: o câmpus/ os câmpus

Em tempo: para escrever em português, basta um pouco de coragem.

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Por Sérgio Simka
http://www.uniblog.com.br/sergiosimka/98214/campus-ou-campus.html
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Uma palavra que pode suscitar polêmica, principalmente no âmbito acadêmico, é a grafia da palavra campus. A palavra é de origem latina: escrevemos campus e seu plural é campi. Podemos também grafá-la câmpus, com o devido acento, aportuguesando-a, para o espanto de muitos. É aí que começa a polêmica.

Ora, a palavra passou a fazer parte de nosso sistema flexional e ortográfico, isto é, passou a receber o acento por tratar-se de uma palavra paroxítona terminada em US. E todas elas devem receber acento. Aconteceu o mesmo com as palavras latinas similares (ônus, íctus, múnus, tônus). Por isso: o câmpus, os câmpus.

Agora, encontramos defensores respeitáveis de ambas as correntes. Tanto o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa quanto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (da Academia Brasileira de Letras) registram a palavra campus (plural campi). O gramático Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, no entanto, defende o aportuguesamento. Escreve Napoleão:

“Por que não aceitar palavras que tragam para o idioma o sentido de coisas novas? Se de um lado a novidade já vem de outras plagas com o nome que a designa, se de outro o noticiário a propala rápida e insistentemente com o nome originário, que fazer senão dar à roupa que a veste o feitio da terra? (…) Aceita a palavra, basta acrescentar-lhe um enfeite ortográfico obrigatório, o circunflexo sobre a primeira vogal – câmpus – e empregá-la com igual terminação no plural, exatamente como acontece com ônibus, ônus, cúmulus, númbus: Sem câmpus não pode haver educação universitária – Os câmpus são uma necessidade para a educação social – São Paulo, um dos maiores câmpus universitários do mundo.”

O Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo também recomenda o aportuguesamento: o câmpus, os câmpus. O professor Cláudio Moreno, doutor em Letras pela PUCRS, na sua página virtual Sua Língua, também abona a grafia câmpus. Assim se expressa o eminente mestre:

“Essa é uma daquelas palavras mutantes, que se encontra numa espécie de limbo entre o Latim e o Português. Alguns a usam no Latim, dando-lhe a grafia e a flexão latina: o campus, os campi; outros já a tornaram nossa. Eu sempre aconselho o uso da forma evoluída câmpus, já que a outra pressupõe conhecimento do Latim (que a maioria de nosso público acadêmico infelizmente não tem) e acarreta complicações desnecessárias na forma de escrevê-la (como não é Português, deve vir sempre em itálico ou sublinhada). O Inglês, muito menos flexível que nossa língua, vive às turras com esses plurais latinos – datum, data; memorandum, memoranda; erratum, errata; agendum, agenda; etc. Nós, que usamos o Português, filha direta do Latim, temos a tendência de deixar a palavra entrar no nosso sistema flexional, já que ela é mesmo de casa: o memorando, os memorandos; a errata, as erratas.Queres saber mais? Acho que deveríamos estender isso a córpus, com todas as pompas: o córpus, os córpus (deixando o uso latino o corpus, os corpora).”

Diante dos argumentos apresentados, podemos propor uma solução, ainda que esta não agrade a todos e possa ainda levantar mais polêmica. Se quiser escrever em latim, escreva: o campus, os campi. Se quiser escrever em português, escreva: o câmpus, os câmpus. Sem medo.

* Sérgio Simka é professor do Departamento de Letras da Universidade do Grande ABC (UniABC), de Santo André-SP.

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