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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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A sala de aula do Futuro será um lugar aberto e mutável onde professores e alunos podem satisfazer as necessidades de introspecção e de amizade, de amor e de divertimento, de beleza e de convívio. É uma ‘academia platônica’ onde se cultiva a teoria e, ao mesmo tempo, uma ‘oficina renascentista’ em que se exercita a prática. É uma comunidade pedagógica onde não se ensina a competitividade destrutiva, mas sim, a competição solidária.” (Domenico de Masi)

 Já comentei outras vezes aqui neste blog da ABMES (A escola nas nuvens) as atividades do consultor de educação tecnológica Vanderlei Martinianos que dá o alerta: “Preparem-se para a quinta revolução industrial”.

Martinianos foi diretor regional do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Neurociência Aplicada (Institut de Recherche et Développement em NeuroSciences Appliquées – IRDNA), na França, e liderou a fundação de um instituto de pesquisa Aplicada em Neuroeducação, o Ipane, para radicalizar na implantação de novos métodos educativos e formar pessoal especializado para escolas futuristas, além de certificar e aplicar conhecimentos da área.

Fez parte também da equipe do projeto de criação de uma unidade da revolucionária École 42, de Paris, um espaço de estudos gratuito, sem professor, sem provas, que não emite certificado de conclusão e com um teste seletivo para o ingresso baseado em padrões cerebrais e desempenho lógico.

A especialista Denise Da Vinha[1] afirma que na educação, como em qualquer outra aplicação da ciência, “estimar mudanças no futuro é fruto de tendências, de probabilidades, de contextos globais e regionais, de atitudes, de escalabilidade e, principalmente, engajamento para mudanças no padrão de comportamentos”.

Martinianos se apresenta em eventos no Brasil e no exterior como futurista da educação e discute como a humanidade pode se preparar para “uma forte transformação nos processos de ensino e aprendizagem”.

Em entrevista à reportagem da Gazeta do Povo, ele explicou o que é ser um futurista da educação: “Trata-se de um profissional que une duas competências, dedicação e foco em processos educativos e que segue as premissas do movimento internacional de futuristas”.

São pessoas que se preocupam com o contexto de amanhã e vislumbram cenários possíveis, trazendo possibilidades tendo em vista as ações do presente.

Tomando como base o que Denise Da Vinha considera como regras para estimar o futuro de qualquer aspecto do negócio, do conhecimento ou da vida, listamos três atitudes fundamentais:

1) conhecer a história e os desdobramentos relevantes para o atual status quo do tema, ou seja, a forma de ver o mundo e as coisas – inegavelmente tecnocêntrico, mas, quase paradoxalmente, altamente empático: trata-se de um exercício de superação de conceitos, práticas e paradigmas, pois é necessário que o professor desenvolva novas trilhas mentais e uma nova maneira de observar, analisar e concluir sobre o mundo que o cerca e onde ele atua profissionalmente;

2) conhecer o que estabelece o atual status quo desse tema, ou seja, aquilo que o faz ser o que é nos dias de hoje: o que está em jogo é a transformação da visão do processo de “ensinar e diplomar” para a de “educar e formar”, o que está em jogo é a necessidade de inovação em modelos de aprendizagens ativas, por parte de professores e cursos;

3) acompanhar e conhecer os elementos de inovação incremental e disruptiva que intervêm sobre o status quo do tema: as salas de aula perderão suas paredes e ganharão o mundo, porque os estudantes não irão mais às aulas em busca de “conteúdo”, que em todas as áreas é farto e abundante e está a um clique dos dedos e na palma das mãos. Nesse contexto, o maior valor de um professor será sua expertise em transformar conteúdo em conhecimento, conhecimento em significação, significação em insights e insights em inovação. Assim o papel do professor será o de tutorar, inspirar, engajar, estimular a colaboração e dividir responsabilidades.

Martinianos aponta que aqui no Brasil o movimento futurista ainda é tímido, mas a temática se torna mais evidente considerando EUA, Canadá e Europa, especialmente Itália e França, onde há diversos núcleos de composição futurista.

“Eu particularmente, apesar de viver na França, tenho uma boa inclinação no movimento futurista dos EUA, especialmente com uma organização chamada Humanity Plus, que é composta de diversos cientistas e filósofos ligados ao atual engenheiro-chefe da Google, Ray Kurzweil, principal incentivador e líder do movimento denominado transumanista. Na França, este movimento se chama tecnoprogressismo.”.

Um dos cursos que Martinianos considera relevante trazer para o Brasil é o de Engenharia das Tecnologias Educativas, que deve ter formação ampla e focada na solução de problemas complexos em educação.

O profissional teria que ter entre as competências necessárias para sua atuação: conhecimento em tecnologias em educação; gestão estratégica e estruturada de projetos; habilidades de lidar com recursos humanos e com a compreensão dos processos cognitivos do homem, em especial a neuroeducação; domínio de pelo menos dois idiomas e compreensão da aplicação das pedagogias inovadoras para uma educação que esteja em consonância com o século 21.

“É primordial que este novo profissional acompanhe a evolução das diversas tecnologias observadas pelo movimento futurista, as implicações da tecnologia na educação e a direta relação da mesma com a “Lei de Moore” (Gordon Earl Moore, co-fundador da Intel Corporation)[2].”

Ciente de todo esse cenário, Martinianos vaticina que a educação tenderá a não fazer mais parte dos conglomerados educativos que temos hoje, pois a tendência é que as empresas de tecnologia dominem a educação, deixando Harvard, ou outras instituições congêneres, para trás ou fazendo-as se sentir obsoletas.

Ele é enfático ao afirmar que praticamente a totalidade das escolas está fora do processo para um tempo regido por computadores que irão competir em inteligência com os homens. Só ficarão de pé as que fizerem a completa revisão de processos educativos, será um tempo de grandes oportunidades e riscos.

Considerando como o papel quase “evangelístico” de ser futurista da educação, Martinianos alerta o setor educacional de que esse novo movimento precisa ser “o mais democrático possível”.

“Infelizmente esse é um movimento que exclui boa parte da população, que tende a ser engolida por processos tecnológicos agressivos, caso não se prepare desde já.”

O que amedronta como aspecto negativo nesse processo de exclusão é que haverá eliminação em massa de empregos e um fluxo recessivo que abalará as economias mundiais, segundo a previsão de diversos economistas.

Por outro lado, viveremos em breve um tempo em que será possível ter de forma instantânea uma análise das ondas cerebrais e de nossas sinapses, recebendo avaliação por meio de softwares e dispositivos, como relógios ou óculos inteligentes com sensores ultrassensíveis, sobre como está nosso foco mental em determinado dia, ou se estamos retendo e aprendendo de fato no ambiente em que estivermos inseridos. O diagnóstico do aprendizado será instantâneo, “on demand”.

Hoje temos um relógio de pulso que conta quantos passos a pessoa deu, se caiu, quanto dormiu ou calorias que consumiu. Num futuro próximo, teremos um que saberá quanto a pessoa leu, o que reteve de informações e o quanto da capacidade do cérebro se está usando, por exemplo.

O mundo está mudando e quem não mudar sua forma de atuar e interagir profissionalmente vai perder o metrô da história.

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[1] Especialista em Metodologias Ativas de Aprendizagem e em Design Thinking for Education

[2] Segundo esta Lei, publicada em uma revista científica americana na década de 1960, os dispositivos eletrônicos passarão a ficar a cada dois anos em média duas vezes mais velozes, 50% mais baratos e cada vez menores. Essa lei rege todo o mercado de informática na atualidade, e é observada pelas grandes empresas do grupo GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon), pois por meio de sua aplicação consegue-se prever com exatidão as tendências tecnológicas. Por exemplo, você consegue saber que em 2020 um computador terá uma performance x, um preço y e uma velocidade z, e neste mesmo raciocínio como serão os computadores em 2040 até que esta Lei tenha o seu fim e entremos em um novo paradigma computacional, que será o da Computação Quântica. Para Kurzweil, do Google, que desenvolveu a ‘Lei dos Retornos Acelerados’, uma extensão da Lei de Moore, as máquinas serão mais inteligentes do que homem e entrarão em competição com eles. Trazendo o conceito da física da singularidade para a educação, as máquinas não só serão mais inteligentes que os homens, como não precisarão deles para aprenderem.

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Uma resposta para “Cenários futuros dos ambientes educacionais”

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