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Eduardo Viana
Jornalista e produtor audiovisual da ABMES
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Foram 15 dias, sete cidades, frio, calor e fuso horário invertido. O objetivo era conhecer e estreitar laços com instituições de ensino do país mais promissor da atualidade. Honrado, recebi a missão de realizar a cobertura cinematográfica da 3ª Delegação ABMES Internacional – China Experience.

 As cerca de 20 horas de voo e a estranha sensação de só ter oceano abaixo dos pés valeram cada segundo, cada frio na barriga. Depois de muita incerteza a respeito do acesso à comunicação, dos hábitos alimentares, da qualidade do ar, das filas, a China se mostra uma grata e colorida surpresa. Claro que as restrições existem e, obviamente, “pegam” muito mais para os chineses do que para turistas, mas, por onde andamos, as cidades encheram os olhos por sua organização, limpeza e beleza no tratamento de seus espaços. Canteiros que percorrem, com impecáveis azaleias, extensos elevados, do início ao fim. Rodovias bordeadas por roseiras frondosas, por onde milhares de motoristas e transeuntes podem limpar a vista e seguir viagem.

Tamanho zelo e ornamentação também têm uma motivação especial: as comemorações do aniversário de 70 anos da República Popular da China, proclamada por Mao Tse Tung em 1º de outubro de 1949, quando o país alcançou a pacificação com o fim da guerra contra o Japão e também de guerrilhas internas. Já em 1978, dois anos após a morte de seu líder, o Partido Comunista define novas metas e estratégias de modernização do país, contando, para tanto, com investimento e parceria internacional. Quatro décadas depois, a implantação da política de reforma e abertura resultou na elevação da China para segunda potência econômica do mundo. Fazendo emergir também o potencial latente de pesquisa e inovação daquele povo e de suas entidades de ensino. Um terreno fértil para os mantenedores e gestores participantes da nossa delegação. Convênios foram firmados no sentido de viabilizar programas de intercâmbio, pólos de EaD, troca de conhecimento e tecnologias, entre outros recursos.

Devo assumir, porém, que, para mim, enquanto trabalhador da imagem, as possibilidades se apresentaram de fato nas formas, nas cores, na mescla de tradição e tecnologia presente em cada paisagem. No inesperado colorido da Cidade Proibida, que se espalha em grafismos meticulosos pelas paredes e tetos das casas, estatuetas míticas enfileiradas nos beirais, seus jardins de árvores milenares, de texturas quase rochosas. Nas sinuosas curvas e pontos de fuga a perder de vista da Grande Muralha, emoldurada, ou emoldurando, o verde das montanhas. Chocando seu cinza com as novamente presentes flores que rememoraram a proclamação. De outro modo, no painel que sugeria um imenso circuito de microchip no Parque Tecnológico de Pequim. Nas histórias talhadas em pedra no museu da Faculdade de Medicina Tradicional Chinesa. Na névoa que sobrepunha as águas do Lago do Oeste, em Hangzou, e no silêncio que suas ilhas e construções misteriosamente nos conduzem. No ar quase carioca que as praias e vales verdes de Hong Kong me proporcionaram respirar. Sensação que se renovou em Macau, pelas pedras portuguesas dispostas num padrão similar às da orla de Copacabana.

Tantos outros paradeiros. Tantas outras belezas dignas das mais precisas lentes, dos mais sensíveis olhares e detalhistas edições. Mas a paisagem não é apenas o lugar, a geografia se faz e é feita por gente. E uma imagem que permanecerá por um bom tempo em minha mente é a de duas jovens a meditar no meio da Ladies Market, avenida dedicada ao comércio em Hong Kong, uma das mais movimentadas da cidade. Em meio à efusão de letreiros luminosos, lojas, tendas, barganhas… as moças meditavam. Ao que parecia, tratava-se de um protesto, pois estavam cercadas por jornais e cartazes em mandarim. Busquei não fazer juízo de valor, nem me posicionar, até porque não conseguiria, analfabeto que me senti diante daqueles inacessíveis caracteres. Apenas guardei a imagem, a forma, as cores. E agora o silêncio.

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