Prof. Domingo Hernández Peña
Escritor, professor de Turismo, Honoris Causa pela Anhembi Morumbi, e consultor de Comunicação
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José María de Areílza, conde de Motrico (com quem mantive uma estreita relação pessoal, política e profissional), duvidava dos jornalistas e dos professores. Como político, ministro, embaixador e intelectual de renome, e até mesmo como presidente do grupo de empresas da sua família, Areílza sempre teve dificuldades para se entender com os que informam e opinam de tudo, e ensinam de tudo. Ele, vaidoso, culto, inteligente e exigente, achava impossível o milagre de tanta sabedoria, ganhando salários tão baixos… Ou não conheciam tanto como diziam, ou escondiam sentimentos e ressentimentos perigosos…

Eu, que me dediquei desde menino à Comunicação e ao Ensino, não poderia pensar exatamente como pensava o aristocrata que tanto me ensinou. Mas não tenho medo de confessar que “só sei que não sei nada”. Hoje, o conhecimento é tanto, e cresce e se diversifica de forma tão vertiginosa, que não há vida nem cabeça nas que possa entrar todo o saber surgido num instante. O que acontecia em séculos, agora acontece em minutos.

Para demonstrar aos meus alunos da UIMP o que acabo de dizer, já repeti com eles, algumas vezes, uma prova contundente: ficarmos uma manhã (umas poucas horas), como observadores, no escritório central de uma conhecida agência internacional de Marcas e Patentes… Com isso, acreditem, só com isso, é possível descobrir que o presente já é futuro, no mesmo mundo redondo em que tantas Universidades ensinam o passado.

Sim, é verdade: em muitas Universidades estamos ensinando o que aprendemos na nossa juventude, em livros escritos nos tempos da nossa infância… Em boa medida estamos ensinando a fracassar, porque, ainda que o conhecimento antigo e consolidado seja indispensável, o êxito só se encontra agora no conhecimento emergente.

A questão não é simples nem pequena: como transmitir o conhecimento do que ainda não se conhece? Como ensinar o que nunca antes se aprendeu?

A nossa velha soberba de escrevedores e mestres, de opinantes e donos da verdade soberana (“escuta aqui, menino, presta atenção!”), nestes tempos velozes resulta ridícula. Os leitores já sabem, desde ontem, o que hoje publicam os jornais. Os alunos andam pelo ciberespaço como Pedro pelo seu quintal.

A humildade é um bem raro – escasso. E por isso é tão difícil aceitar a idéia de que ninguém está ensinando nada se alguém não está aprendendo. Se ensinar não é possível, o que sobra é, só, a possibilidade de aprender. O conhecimento já não é coisa de quem ensina (ou ensinava); é coisa dos que estudam, sempre que saibam e queiram aprender ao longo da vida toda, porque as certezas deixaram de ser completas e não param de se transformar…

O meu filho Enrique colabora com um centro universitário de uma pequena, rica e bela cidade do estado de Nova Iorque, no qual, na prática, não há professores. Há livros. Livros recheados de conhecimento emergente… As carreiras são feitas lendo 100 desses livros, especificamente selecionados; discutindo a leitura dos mesmos, todos os dias, com os companheiros de curso; e, ao final, depois de meses, semestres e anos, fazendo uma única prova escrita a mão (em 4 folhas de papel branco, 4, nem mais nem menos), para obter, ou não, sem apelação, o caríssimo diploma…

Eu não sei bem, pobre de mim, se a solução poderia ser essa, tão inovadora. Mas tenho certeza de uma coisa: de que o ensino, como o jornalismo, como a política, são coisas bastante deterioradas, que, por terem perdido sentido e valor, foram a parar em boa medida, e melhor preço, às mãos de agentes periféricos, escassos de preparação, experiência e compromisso. A realidade global vai por um caminho e os “formadores de opinião” vão por outro, ou não vão. Que mundo!

Onde não se ensina Futuro tampouco se ensina Iniciativa. Quando acabam seus estudos, milhões de estudantes ficam parados no meio do nada, sem saber o que fazer com a bonita coleção de diplomas desatualizados. Desorientados, apáticos, muitas vezes se perdem no labirinto do mundo real. Outras vezes se dedicam a fazer infinidade de cursinhos nas academias de bairro, intentando encontrar na escuridão o que não encontraram nas luminárias da Universidade. E quase sempre reclamam: a culpa do seu fracasso é da família, da escola, do “sistema”, do governo, da sociedade, dos empresários, da globalização, da “crise”… O mundo todo tem culpa, menos eles. Eles não se sentem culpáveis porque nunca, ninguém, lhes ensinou Futuro nem Iniciativa… Não sabem andar pelo fio incerto da realidade. E, sem iniciativa própria e cultivada, só entendem de direitos, mas não de obrigações. Acabam tendo dois carros, três namoradas, quatro cartões de crédito, antes (e com mais facilidade) que emprego, empresa, ou projeto de vida… Poucos se perguntam como foi possível que os seus pais, vindos do sertão em muitos casos, sem lenço e sem documento, conseguiram fazer tantas coisas grandes, boas e bonitas…

O que estou querendo dizer é que andar pelo mundo moderno e globalizado é coisa muito complicada. O conhecimento é cada vez mais infinito. O que começamos a estudar agora será completamente diferente daqui a pouco, quando esse estudo estiver terminando… E, ao final, por muito que se saibamos, não saberemos quase nada. Daí a importância da iniciativa. Se ninguém sabe nada (em comparação com o que poderia e deveria saber-se), a diferença entre o êxito e o fracasso estará marcada pela capacidade de iniciativa… Porém, onde é que se aprende a ter iniciativa? Alguém conhece alguma Faculdade que ensine a desenvolver, mesmo, de verdade, essa coisa aparentemente tão etérea?

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