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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“A revolução tecnológica mais importante do século XXI é a capacidade de hackear seres humanos, significando compreender os seres humanos melhor do que eles compreendem a si mesmos.” (Yuval Harari)

Onde Yuval Harari põe a mão, é como tirar vários coelhos de sua cartola e, às vezes, todos ao mesmo tempo. Em cada obra (ele tem três: Sapiens, uma breve história da humanidade; Homo Deus e 21 lições para o século 21), Harari traz considerações realmente inovadoras que, se não incomodam, assustam, mas também deslumbram. Ele é capaz de atuar como um autêntico multitarefas, um grande polvo inteligente, com seus oito tentáculos, transitando na movediça ciência, tecnologia, exponencialidade, transformação, inventividade, etc. Com absoluta firmeza e qualificação, ele mostra, sem ser vidente, o que vem por aí, sob encantamento dos leitores e da plateia.

Tenho escrito neste blog diversos artigos apoiados em muitas afirmações de seu livro 21 lições para o século 21 (Cia. das Letras). E foi, portanto, enorme a satisfação de ver Yuval Noah Harari acolhido pelos pela crítica especializada em eventos realizados em São Paulo e Brasília. Também pela repercussão que o Valor Econômico, O Globo e a TV Globo, a TV Cultura e outros veículos deram à sua passagem pelo Brasil, com entrevistas e matérias que retratam seu modo de analisar os problemas por que passa a humanidade no âmbito de suas nações e as pessoas em seus projetos de vida.

O resumo de sua obra sensibiliza leitores e ouvintes sobre como contrabalançar a questão do desenvolvimento civilizatório, a sustentabilidade dos países e o bem-estar humano. Yuval carrega nas tintas, quase impiedosamente, como alerta de trombetas, que as consequências da inércia em relação ao futuro irão desde o colapso absoluto de países que não conseguirão acompanhar a corrida “patrocinada” por algoritmos, até a criação de uma classe humana totalmente “dispensável”, pois irrelevante social e economicamente.

Para salvar o homem dessa completa desumanização é preciso, conforme o professor de história, nos livrarmos da estupidez em que estamos mergulhando, reunir as aquisições científicas e filosóficas válidas e nos preparar para mudanças que podem em breve causar a perda da própria noção de humanidade. Sua dica mais útil é cultivar a clareza de pensamento para compreender o significado de situações como a desilusão política, o pânico social e as perturbações tecnológicas.

O que Harari mais tem presente, centro de suas preocupações, é a combinação do rápido avanço da biotecnologia e da inteligência artificial, o que, segundo ele, pode ser um grande desastre para a humanidade, se não se cobrar, no guichê da ciência, que a sociedade não se omita e reflita seriamente sobre isso, com muita rapidez.

Cada um está preocupado com seus problemas e em como ganhar a vida, mas sem tomar conhecimento das interferências e interesses globais que existem nas relações entre nações. Bem por isso, o sistema político dos países precisa refletir os interesses dos cidadãos e, ao escolher seus candidatos, Harari sugere que se pergunte ao político o que pensa sobre os riscos de uma guerra nuclear; o que pensa sobre a mudança climática; o que pensa sobre a regulamentação das tecnologias, Inteligência Artificial e bioengenharia e, principalmente, qual é a sua visão de futuro.

Imaginemos um cenário além de Blade Runner[1], já que disrupção tecnológica é a grande preocupação do historiador, e as palavras são dele:

“A menos que criemos redes de segurança mundial, para proteger os humanos contra os choques econômicos que a IA [inteligência artificial] poderá provocar, países poderiam desmoronar e o caos, violência e ondas de migração disso resultantes desestabilizariam o mundo inteiro”.

Impensável que o mundo científico não reaja a isso, daí tais perspectivas sombrias, e as questões que as acompanham terem grande receptividade no ninho da tecnologia: o Vale do Silício. Tudo indica que já está aí o império da Teoria de Malthus (linearidade [progressão aritmética] versus exponencialidade [progressão geométrica]). Alimentos de menos e gente de mais.

Diante de tal cenário, quase dantesco ou asimoviano, Bill Gates assistindo pela primeira vez a Yuval deixou uma pergunta lapidar para ele responder: “O que dará sentido à nossa vida nas próximas décadas e séculos?”

Harari tem uma equação para alguns problemas atuais: {conhecimento biológico X capacidade de computação X dados = capacidade de hackear os humanos}. Para ele, hackear seres humanos significa “compreendê-los melhor do que eles compreendem a si mesmos”. Nisso reside um grande perigo com a perda da individualidade.

Sim, como inúmeros outros cientistas “prospectivos”, ele enfatiza o poder da biotecnologia e do Big Data e propõe algo diferente – disruptivo e empoderador. Atualmente, ferramentas de IA monitoram os indivíduos a serviço de corporações e do governo, “mas podemos inverter o jogo e optar por desenvolver um tipo muito diferente de ferramentas de IA que monitore governos e corporações a serviço dos indivíduos (grifo nosso)”, sugere Harari.

E, por fim, no capítulo 19 do livro 21 lições para o século 21, ele faz uma pergunta sobre como preparar nossos filhos para um mundo repleto de transformações tão radicais:

“Uma criança que nasceu hoje terá por volta de 30 anos em 2050, (…) o que ensinar a este bebê que o ajude a sobreviver e progredir no mundo de 2050 ou no século XXII, de que tipo de habilidades ele ou ela vai precisar para conseguir um emprego, compreender o que está acontecendo a sua volta e percorrer o labirinto da vida?”

Essa pergunta deixo para os leitores responderem.

De acordo com o historiador e filósofo israelense, as habilidades mais importantes neste século são o autoconhecimento e a flexibilidade (eu diria também a resiliência). Para alcançar esse status empoderado, para não ser manipulado (hackeado), o ser humano tem de conhecer a própria mente e reinventar-se indefinidamente ao longo da vida para ajustar-se ao rápido progresso da tecnologia e às mudanças do mercado de trabalho.

É nesse sentido que o poder transformador da educação mostrará a que veio. Se o atual modelo secular da educação escolar está falido, os aportes da neurociência, as novas metodologias ativas e o desenvolvimento das várias inteligências, dando-se o devido destaque às competências socioemocionais, terão papel decisivo na formação de uma geração que explore, desenvolva e reinvente, constantemente, seu potencial pleno e qualidade de vida.

___________________________

[1] Blade Runner é um filme de ficção científica de 1982, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford. O filme se passa em novembro de 2019 numa decadente e futurista cidade de Los Angeles decaída com a poluição, o consumismo exacerbado e a consequente busca de novas formas de colonização em outros planetas, para a qual as pessoas são convidadas a se aventurarem em face do colapso da civilização humana, tanto material quanto moralmente. (Wikipédia)

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3 Respostas para “Como dar sentido à nossa vida num mundo em transformação?”

  • valter stoiani says:

    A propósito do sentido em nossas vidas.
    Se nós invertermos a pergunta:
    Que mundo vamos deixar para nossas crianças ?
    Para:
    Que crianças vamos deixar para o nosso mundo ?
    Veremos a urgência desta segunda resposta que tem mais sentido e possibilidades que a primeira, pois que ao preparar adequadamente nossas crianças estaremos contribuindo para a salvação do planeta.
    Yoval H. Harari , concluindo seus comentários , no programa roda viva de 13/11/19 , nos aponta a urgência de nos conhecermos com mais profundidade, pensarmos com mais clareza , desenvolvermos nossa inteligência espiritual , para que possamos encontrar e viver a essência da nossa vida, sermos autênticos , verdadeiros e assim podermos encontrar um sentido em nossas vidas.
    É precisamente isto que devemos ensinar primeiro aos educadores e professores e em seguida às nossas crianças .
    Mas como ?
    Com ajuda da tecnologia , IA , conhecimentos biológicos e psicológicos, criarmos uma plataforma científica voltada à educação , que poderia ser uma referência científica , para gratuitamente orientar , planejar e atender às necessidades de orientações cientificamente comprovadas à luz de evidências.
    Ou seja usando um modelo biológico:
    Criarmos um grande cérebro artificial para atender as necessidades educacionais de um grande organismo complexo, como o de uma comunidade-educadora que poderá abranger cidades e mesmo uma nação.

     
  • PAUL IVAN VADAS says:

    Excelente tema a ser constantemente considerado: quais competências o aluno do presente precisará desenvolver para sobreviver e progredir no mundo do amanhã.

    Em um mundo onde a criatividade e a inovação são constantes, a única resposta que posso sugerir é “aprender a continuamente aprender, e continuar aprendendo”. Principalmente, aprender a visionar um mundo em constante mudanças, entender as tendencias,e constantemente atualizar as competências necessárias para os devidos contextos”.

    Nos últimos 30 anos, a partir de 1990, as tecnologias de informação, comunicação, biotecnologias, etc., revolucionaram as atividades humanas, em todos os sentidos.

    Se considerarmos a exponencialidade dos avanços tecnológicos, será difícil prever os próximos dez anos. Imagine então os próximos 20 anos. Os próximos 30: impossível.

    Hoje já temos tecnologias para transformar capim em carne (algo que qualquer herbívero já faz a séculos). Temos tecnologias para eliminar a necessidade de ruas e estradas para automoveis (imagine um mundo onde o meio de transporte é o drone). Imagine as ramificações só destas duas possibilidades e como isso vai afetar o setor agrícola, o setor de transportes, e os outros setores afins.

    Talvez o que as escolas devam fazer é parar de focar somente o passado e começar a trabalhar a imaginação dos seus alunos para o desenvolvimento inovador e criativo.

     
  • Wandy Cavalheiro says:

    Muito boas as considerações sobre, sem duvida, o maior historiador de nossos tempos.
    É gratificante sempre ler sobre Yuval Harari, e entre tantos desencontros atuais, sobre o que o Brasil tem publicado que bom que a mídia séria soube valoriza-lo.
    Ele nos preocupa ,mas também nos instiga. Muito bem lembrada a menção a Blade Runner que chegou (2019) aos nosso dias.
    Parabéns por seus comentários

     

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