Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“O que acontecerá com a crise do mercado de trabalho? Se, ao final do processo, ela vai enfraquecer ou fortalecer o trabalho organizado, depende de nossas escolhas e de decisões políticas que não são determinadas pelo vírus.” (Yuval Noah Harari)

Já escrevi neste espaço sobre o ambiente VUCA (acrônimo de volatility, uncertainty, complexity e ambiguity, em português volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade), em que o mundo todo está imerso.
Pois é, a crise do coronavírus veio patentear essa realidade: o planeta inteiro está vivendo nesse ambiente, pois poucas vezes na nossa história um cenário complexo como este traz tanta intranquilidade.

Mas, se é verdadeira a frase que do caos nasce a luz, estamos diante de um ponto de inflexão na humanidade. A Wikipédia define essa expressão matemática com uma analogia bem-vinda: “Pode-se comparar com a condução de um veículo ao longo de uma estrada sinuosa, sendo o ponto de inflexão aquele em que o volante é momentaneamente ‘endireitado’ quando a curva muda da esquerda para a direita ou vice-versa”.

Em outras palavras, estamos à procura, desenfreada, de soluções para a crise que se instalou em todas as partes e aqui no Brasil, as disputas políticas irresponsáveis tiram o foco de como administrar com inteligência a solução do problema.

Há alguns anos o escritor e palestrante Bob Johansen , do Instituto para o Futuro, no Vale do Silício, desenvolveu outro acrônimo – VUCA Prime – como antídoto ao mundo VUCA, usando quatro atributos (que também se iniciam com as letras VUCA: Vision (Visão), Understanding (Entendimento), Clarity (Clareza) e Agility (Agilidade).

Ele diz é preciso ter visão, planejar, mas, ainda que impactos sejam sentidos e alterações no planejamento aconteçam, a resiliência é o Norte em meio à volatilidade: cada desafio encontrado pode ser uma nova oportunidade para aprender, construir ou inovar.

E aqui quero falar de serendipidade, que nada mais é do que encontrar soluções ao acaso. Tenho certeza de que os esforços científicos para deter a pandemia vão resultar em descobertas inesperadas para outros problemas. Assim como aconteceu com os experimentos de Fleming, que estudou o desenvolvimento de um antibiótico por anos sem sucesso e foi descobrir, “por aparente acaso”, a resposta que faltava. E descobriu a penicilina em meio ao bolor.

Ele, assim como tantos outros pesquisadores ou não, percebeu que em todas as coisas no universo existe um conhecimento potencial, aquilo que se pode observar e transformar em conhecimento adquirido. Mas isso depende de já haver um “repertório”. A serendipidade exige que as pessoas estejam preparadas para absorver esse “acaso”, apropriar-se dele. Ou, como diz Daiane Monteiro, em seu artigo “Serendipidade, networking e a gestão do agro”: “As descobertas não acontecem para qualquer desavisado. Acontecem quando conseguimos relacionar o que sabemos com o que acabamos de encontrar pelo caminho”.

Daí a necessidade das empresas, escolas, serviço publico e todo mundo se prepararem a utilizar o ferramental VUCA prime (visão, entendimento, clareza, agilidade, pois o mundo mudou e nada será como já foi um dia”. De nada adiantam os conhecimentos compartimentados e imutáveis na situação que vivemos hoje. Totalmente diferente de qualquer outra.
O que vivemos hoje é mais trabalho em casa, auge dos pagamentos eletrônicos, mais controle nas fronteiras, educação e medicina a distância, e menos viagens transoceânicas e convenções, tudo convivendo, aqui no Brasil, com contingentes imensuráveis de pessoas que sobrevivem de bicos e da economia informal.

O fantasma de um cenário de recessão econômica severa no mundo todo vai exigir criatividade e inovação, pois, se a crise da Covid-19 virou de ponta cabeça as vidas de tantas pessoas, acabará produzindo um grande número de novas oportunidades de negócios. E nesse quesito, o “jogo de cintura” do brasileiro é imbatível. Não demorou muito tempo para o camelô vender máscaras, para que a “tia” do café da manhã se organizasse para o delivery, para que músicos e artistas em geral fizessem as suas lives.

Mas há um fato novo evidenciando que a vida vai mudar mesmo. As empresas já perceberam que não precisarão mais de suntuosas sedes alugadas se seus colaboradores trabalharem em casa. Estes, por sua vez, já sentiram que não precisam perder duas horas por dia no trânsito para ir e voltar do escritório. Isso significa menos carros nas ruas, menos poluição, mais tempo livre e não precisar cursar uma faculdade a noite. Há cursos online aos milhares. E, para os mais otimistas, uma visão racional: para que morar na periferia de uma cidade grande, em apartamento apertado, se posso retornar ao interior e alugar uma casa espaçosa pela metade do preço? Há coisa ainda melhor: com um laptop na praia, poder trabalhar em multinacional com sede em qualquer lugar do mundo.

Embora o novo coronavírus ainda seja uma incógnita para a medicina, para a economia seu efeito já é certo: ele nos fará repensar o uso dos espaços, o modelo de produção e consumo que temos hoje. E, por consequência, a criatividade, a colaboração e o compartilhamento de ideias são fundamentais, para que se possam construir caminhos e soluções melhores para nós mesmos e para o país.

O coronavírus veio mostrar realidades tão desafiantes, como ter um sistema de saúde pública que atenda à população condignamente e uma economia capacitada para sair da crise e desenvolver o país. Mas escancarou de vez para todos verem a nossa desigualdade social, a ausência de saneamento básico, as incipientes moradias das comunidades empobrecidas, a falta de trabalho digno, um sistema de representação política viciado desde Cabral e governos polarizados. E o pior que ninguém enxerga que só uma formação de recursos humanos compatíveis será capaz de enfrentar um ambiente empresarial e institucional tecnológico que se desenvolve exponencialmente.

O poder secular do EUA foi conquistado por ter aço, petróleo e mentes privilegiadas às custas da boa educação. Os tigres asiáticos são potencias por causa do investimento em educação e a China, em particular, está vencendo a competitividade tecnológica mundial graças à educação. Enquanto isso, no Brasil as estruturas políticas não têm interesse em país moderno e de gente educada, para não perderem o poder. Infelizmente a verdade e essa.

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Uma resposta para “Como será o amanhã?”

  • Wandy Cavalheiro says:

    Caro Gabriel,
    Mais que nunca este artigo é para
    termos esperança que as pessoas precisam ser
    valorizadas.
    Pessoas educadas,competentes,criativas estão
    procuramdo oportunidadess de trabalho,
    não necessariamente emprego.
    A todos os executivos que comandam seus
    negocios peço que avaliem como aproveitar estas pessoas

     

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