Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Quem não se comunica se trumbica.” (José Abelardo Barbosa, o Chacrinha)

 Chacrinha comandou durante anos um dos mais conhecidos e populares programas de auditório do Brasil. Inovador, escrachado, mas atento à sua mensagem e ao seu público, foi imortalizado na música Aquele abraço, de Gilberto Gil: “Chacrinha continua/ Balançando a pança/ E buzinando a moça/ E comandando a massa/ E continua dando/ As ordens no terreiro”.

Comandou a massa e deu as ordens no terreiro porque percebeu, sem muita teoria, que a comunicação, sem qualquer sombra de dúvida, é uma ferramenta poderosíssima. É um exemplo que não pode ser desprezado por quem dirige, lidera, ensina.

De acordo com uma pesquisa online realizada pela rede Narrativas, a comunicação tem um poder transformador: “promove efetivamente algum tipo de mudança social, engaja, promove mudança de comportamento, informa com eficiência, produz reflexão, quebra paradigmas e sensibiliza/conscientiza”.

Estou enfatizando a comunicação por que muita gente não percebeu ainda, mas o publicitário Bah Galvão[1] já dizia na década de 1980 aos seus colegas de ofício: “Vocês não vão precisar se preocupar com trabalho, porque a educação será a maior atividade da área de comunicação”. Dizia ainda, quando o computador, o telefone e a televisão se unirem, que teríamos pela tela a maior plataforma de aprendizagem do mundo. E o que prevaleceria daqui pra frente seria a Pedagogia da tela onde aliando pedagogia e comunicação as pessoas poderiam aprender.

Há bilhões de pessoas no mundo que querem e só poderão fazê-lo por meio de uma tela, em qualquer lugar, em qualquer dia e a qualquer hora. E para isto precisa só de um comunicador criativo.

A maior criação do homem foi a linguagem, a maneira de poder transmitir aos seus semelhantes os seus sentimentos, aspirações e pensamentos. A comunicação foi a geradora que transformou ideias em ações e, com as mãos e com o correr do tempo, pela tecnologia criou o ferramental que nos trouxe até aqui. Hoje computador, televisão e telefone estão num aparelho só e pela tela temos o maior centro de aprendizagem do planeta. E em não menos de cinco anos estaremos nos intercomunicando, nos relacionando, ensinando e aprendendo simultaneamente em todas as línguas.

Dizem que a Comunicação e a Pedagogia são irmãs do mesmo pai e a primeira filha veio antes distanciada muitos milênios em relação à segunda. Nessa fraternidade, com algumas rusgas no percurso, vieram dar as mãos quando foram levadas às salas de aulas. Porém, à pedagogia tradicional parece-lhe faltar a comunicação, pois seus métodos caracterizam-se por um ensino “frontal” (em que a figura do professor é central e autoritária), rigoroso e essencialmente coletivo, no qual é papel dos alunos serem atentos, escutar e memorizar. O diálogo professor-aluno só existe na forma de perguntas-respostas das suas avaliações e o diálogo entre os alunos não é permitido, ao contrário, impera a lei do silêncio.

Está claro que, numa sociedade mediada por TICs- Tecnologias de Informação e Comunicação, essa “fórmula” tende a expandir-se. A evolução dos suportes midiáticos ampliou a possibilidade de toda pessoa comunicar-se e aprender e seus diversos meios deram condições não só para todos realizarem mais intensamente seus desejos de interlocução, como também para a aprendizagem ocorrer em múltiplos espaços, seja em sala de aula, seja em espaços virtuais de aprendizagem (ou não).

O nativo digital, que é hoje nosso aluno, está acostumado a comunicar-se “livremente” por meio de dispositivos, a participar de fóruns de discussão, a ter acesso, por esses mesmos aplicativos, a culturas diferentes. Em outras palavras, a ter “voz”, com a qual interage. Daí, porque um dos problemas, cada vez mais sérios, que enfrenta o professor “tradicional” é a indisciplina em sala de aula.

É necessária uma educação customizada, que só é possível com o concurso das TICs. Com elas, o professor passa a ser o facilitador, o mentor e o mediador que conduz o aluno a uma atividade comunicacional voltada à intercompreensão, à colaboração para garantir que ele esteja no centro do próprio processo de aprendizagem.

Ensino a Distância não é novidade no ensino superior, pois tem mais de 20 anos, se aprimorando com o tempo na oferta de cursos e seus alunos saindo-se muito bem na avaliação do Enade. Muitas etapas foram vencidas desde o hipertexto, quando se transcrevia a apostila ou se contratava um conteudista e um designer gráfico. A maioria dos cursos eram gravações feitas via satélite e apoiadas via CD e slides e conteúdo de artigos. Depois veio a internet que permitiu acesso a informações de todas as áreas de conhecimento. Mas a maior conquista aconteceu quando, com um smarphone na mão, podia se buscar qualquer dado ou fazer qualquer curso. Agora, pelo YouTube, a maior escola do mundo, se aprende qualquer coisa que se quiser. Sem falar dos dias de hoje com as lives e as reuniões com grandes grupos que se faz por meio de aplicativos (o ZOOM está tendo uma média de 20 milhões de usuários dia).

Esta pandemia está deixando um marco divisor que descaracteriza a sala de aula e o reconhecimento de que o aprendizado pela tecnologia começa a revolucionar o ensino, haja vista a necessidade de as escolas de ensino básico precisarem se estruturar para oferecer seus cursos de uma hora para outra. Logicamente as particulares vão dominando a nova mídia a toque de caixa, para se mostrarem aptas e não perderem seus alunos. O problema está com o ensino público, que vai ter dificuldades para se organizar para este novo momento face não haver homogeneidade, sua grandeza numérica e falta de coordenação nacional. Mas, acima de tudo, temos o problema com a ausência de percepção de que o mundo da aprendizagem vem se transformando e que sem uso de meios tecnológicos a educação brasileira naufragará.

Débora Noemi[2], no site Escolas Disruptivas, elenca as seis principais tendências da educação para os anos 20: flexibilização curricular; ensino por Projetos; conscientização e inclusão; exercício do diálogo e da escuta; uso da tecnologia; gamificação; mobile learning; Inteligência Artificial, robótica; ensino híbrido; Lean Education Technology (LET), que incorpora o empreendedorismo ao dia a dia de jovens, fazendo com que adquiram habilidades importantes para lidar com desafios, estimulando a criatividade, o pensamento crítico, a comunicação e a colaboração.

Para fazer face a esse “novo” aluno e a esse “novo” mundo, a escola – e o professor – vai precisar reinventar-se e reconhecer que vivemos uma era “transdisciplinar”, na qual a compartimentalização de saberes (que foi muito útil no Iluminismo do século 18) já não dá conta de resolver os problemas de um mundo em transformação exponencial. Um século que exige a comunicação e a cooperação das várias ciências e dos vários atores sociais. E onde quem oferecer o melhor conteúdo, a tela mais criativa e mais envolvente, terá condições de se comunicar com os 7 bilhões de terráqueos que precisam aprender a vida inteira.

 

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[1] Asdubral de Souza Galvão (1942- 2003). Pesquisador e comunicador. Sua experiência foi basicamente passagens por veículos de comunicação, agências de propaganda, emissoras de TV e produtoras, escolas de interior, campanhas institucionais e de serviço público,

[2] Débora Noemi: trabalha com Tecnologia Educacional há 14 anos, tendo coordenado projetos em parceria com grandes empresas como Microsoft, Intel, Conselho Britânico, IBM e HP. Hoje, é Diretora de Tecnologia Educacional e sócia da Happy Code.

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