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Matheus Gorovitz*
Professor de estética e história da arte da UnB
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Este texto discorre sobre a educação do olhar para poder legitimar o ajuizamento do belo como expressão da totalidade humana. Corrobora com a convicção de que a formação do cidadão, do artista e do indivíduo emancipado é interdependente. Visa a instrumentar o estudante a identificar a beleza como expressão de autonomia, fator que distingue a condição propriamente humana – poder determinar o modo de existência. Servirão de lastro conceitual para embasar tal hipótese as seguintes categorias: julgamento de gosto, totalidade, belo, identidade e diferença.

Julgamento de gosto

No reconhecimento do belo pelo juízo estético, o sujeito vivencia a condição de possibilidade de ser emancipado. O ajuizamento de gosto é livre porque não coagido por fatores pré-determinados: os de ordem conceitual, os utilitários, os sedimentados pela tradição, ou ainda os que, ao aprazerem os sentidos na sensação pela agradabilidade, motivam o sujeito a invocar o belo para expressar sua emoção espontânea e natural – a sensibilidade inata. “Que bela rosa” exemplifica o uso prosaico da estética, e o distingue do uso poético, cuja condição de possibilidade do ajuizamento pressupõe necessariamente a presença da obra de arte.

Juízo é uma asserção fundamentada em uma razão, ou seja em relações apercebidas no caráter sistêmico da obra de arte. À medida que a composição relaciona de modo harmônico ou dissonante as partes da obra permite que o sujeito, ao recompô-las por meio das capacitações sensíveis, intelectivas e volitivas sincronizadas, possa assim objetivar sua identidade como pessoa.

A faculdade de julgar permite comunicar sentimentos que distinguem a subjetividade particular do sujeito – aquilo que o diferencia, e a expectativa de reconhecimento de sua identidade pressupõe a abertura ao outro, a reciprocidade promove a convivialidade (RENAUT 1998: 88), Rimbaud sintetiza: “Je est un autre”.

A noção de arte como instrumento de emancipação comparece na proposição de Artigas ao reconhecer: “A arte é uma das formas concretas e necessárias da ação do homem na criação de uma natureza propriamente humana” (ARTIGAS 1981: 45). E a espécie humana se distingue das outras porque suas capacitações podem se desenvolver infinitamente.

A atividade artística é uma práxis, a ação do sujeito que numa relação dialética ao transformar a natureza transforma a si mesmo e objetiva, neste processo, sua condição humana essencial. Assim, ao produzir ou reconhecer um artefato como “obra de arte”, como belo, o indivíduo se humaniza – manifesta sua condição de autonomia – de ser emancipado – livre. Schiller situa: “O fundamento da beleza é acima de tudo a liberdade no fenômeno. O fundamento da nossa representação da beleza é a técnica na liberdade” (SCHILLER 2002: 85). Sobre a obra de Schiller, Educação estética do homem, Hegel comenta: “Schiller parte da ideia central de que cada homem individual possui em si a disposição para um homem ideal” (HEGEL 1979: 62). No dizer de Marx:

A “obra de arte” – e, do mesmo modo, qualquer outro produto – cria um público sensível à arte e capaz de sentir prazer com a beleza. Por conseguinte, a produção não cria apenas um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto (MARX 1974: 60).

Admitindo que “Só em objetos reais, sensíveis, pode [o sujeito] exteriorizar sua vida” (MARX 1978: 400), a correlação arte-liberdade é engendrada na interação sujeito-objeto, na qual o objeto é a “obra de arte”, e é balizada pelo critério do belo em que o sujeito se identifica pelo julgamento de gosto: “Ele (o homem) quer sentir-se a si próprio, por isso se defronta com a beleza na arte” (HOLDERLIN, 2003, 83).

Arbitrar sobre o belo identificando as condições que o objetivam requer, na prática didática, educar o juízo de gosto, seja propondo ou, ainda, reconhecendo o belo na obra de arte. Tal modo de ajuizar implica em assumir uma decisão na ausência de uma razão prática ou de uma razão lógica e, assinala Schiller, apenas considera os aspectos intrínsecos à obra: “O julgamento estético, tendo em conta seus fins, considerará apenas a beleza nela mesma, nada do que precede imediatamente e especificamente sua origem levado em conta” (SCHILLER 1998: 51).

O juízo de gosto não tem como parâmetro de avaliação nenhum valor pré-estabelecido, herda, como referencial, o trabalho humano plasmado no acervo de obras de arte onde o objeto não é aferido pela razão instrumental, pelo valor prático utilitário – a capacidade de satisfazer uma necessidade particular predeterminada e tampouco se alicerça em valores estabelecidos a priori, conceituais, éticos ou os que, sedimentados pela tradição, passam a ser consensuais. A interação das capacitações racionais, intelectivas, volitivas e sensoriais engendra o juízo de gosto e, desse modo, constitui-se como práxis – ação autônoma e autodeterminada, diferenciada assim do discernimento fundamentado cognitiva ou teoricamente, e corroborada por conhecimentos sedimentados e argumentação lógica que asseguram a certeza inexorável do julgamento justo.

Ao promover a interação das dimensões subjetivas e objetivas e exercitar tais prerrogativas, a “obra de arte” faculta ao indivíduo, seja no instante da concepção ou da apreciação, objetivar a consciência da totalidade – a plenitude das capacitações individuais.

Totalidade

A totalidade subentende o conjunto de necessidades e possibilidades humanas exercidas de modo integrado; quando o lado sensível e o racional não comparecem fragmentados, o sujeito é auto consciente, seja na plenitude ou na adversidade da condição existencial.

O ser emancipado, cujo comportamento não é heteronomicamente determinado ou pré-determinado, mas  que determina os parâmetros de sua ação e nesta determinação se autodetermina, implica articulação das esferas subjetivas e objetivas – da sensibilidade e da racionalidade, da dupla condição de indivíduo particular: motivado pela razão prática e pela subjetividade, e de ser genérico: motivado pela vocação social e mediado pela universalidade do pensamento objetivo, lógico e cognitivo.

A totalidade subentende a indissociabilidade das esferas do subjetivo e do objetivo. Sujeito e objeto são, na concepção dialética, antitéticos e complementares, e interagem num processo do qual a “obra de arte” emerge como uma das sínteses possíveis. Síntese onde nenhuma das dimensões sensoriais, racionais, volitivas e intelectivas consideradas isoladamente é determinante. Denuncia sim o equilíbrio, tensão ou conflito dessas capacitações do ser. A estética fundamenta-se na homologia entre a autonomia da “obra de arte” e a autonomia do ser (a coerência interna da forma e a concordância entre esta forma e o conteúdo a ser expresso).

Belo

A mediação entre o universo subjetivo e o universo objetivo se faz pelo conceito de belo; ao afirmar, mediante o juízo de gosto, que algo é belo, quero que meu sentimento (particular e subjetivo) possa ser compartilhado coletivamente, por isto associo um conceito (objetivo e universal) à singularidade subjetiva. Atribuo um valor universal a um sentimento afetivo particular.

O juízo estético envolve uma contradição, ou antinomia, pois embora exprima uma experiência do sujeito, da sua sensibilidade particular, pretende que a significação dessa experiência seja comunicável aos outros e encontre ressonância universal. Eis porque Kant nos diz, a propósito da quantidade do juízo, que “belo é o que agrada universalmente sem conceito […] No juízo estético, portanto, verifica-se o acordo, a harmonia, ou a síntese, entre a sensibilidade e a inteligência, o particular e o geral” (KANT apud CORBISIER 1987: 67- 68).

No conceito de belo é sublinhada a consciência do ser como ser social, pois ao valer-se de um conceito (universal), que se manifesta como fenômeno (particular) na “obra de arte”, pode então se comunicar.

Autonomia e cidadania

A síntese entre o significado (sujeito autônomo) e o significante (objeto autônomo) adjetivada como beleza e objetivada pela obra de arte, é uma práxis e, enquanto tal, aufere um sentido volitivo e libertário: promove a consciência da autonomia e liberdade, entendida esta como consciência de necessidades e possibilidades objetivas, historicamente constituídas e, como corolário, o sentido de responsabilidade – móvel da cidadania.

Ao contrário dos processos naturais ou necessários, e das ações que resultam da coação e da violência, as ações humanas consideradas livres são intencionais, visam a determinado fim, têm motivo que as explica e incluem um projeto, bem com a decisão de um agente responsável. A intencionalidade é a característica fundamental do comportamento consciente e livre (CORBISIER 1987: 160-161).

Compete ao artista contribuir para a construção da cidade democrática valendo-se da “obra de arte” como fator promotor da autoconsciência e autodeterminação (consciência de si) e da consciência da cidadania (consciência dos outros).

Fundamentada na noção de isonomia, participação igual de todos os cidadãos no exercício do poder (VERNANT 1981: 56), a polis grega ilustra a noção de autonomia auferida pela relação das partes entre si: na obra, os componentes formais reunidos pela composição e no sujeito, as dimensões humanas harmonizadas.

A proporção, relação entre as partes, pressupõe o reconhecimento da relevância de cada parte na formação do todo, da autonomia de cada unidade do sistema formal e, de modo homólogo, de cada indivíduo na sociedade.

A noção essencial é, de fato, a de proporção; a cidade forma um conjunto organizado, um cosmos harmoniosamente constituído se cada um de seus componentes situa-se em seu local e possui a porção de poder que lhe é conferida em função de suas virtudes próprias (VERNANT 1981, 90).

A autonomia inerente ao julgamento de gosto, com o qual nos apropriamos da obra de arte, tem um corolário – exclui toda forma de autoritarismo: “Nenhum privilégio, nenhuma autocracia de qualquer espécie pode ser tolerada onde impera o gosto” (SCHILLER 1982: 217).

Identidade na diferença

A identidade na obra de arte nasce da racionalidade, a coerência proveniente da rigorosa estruturação em si determinada de modo singular pela obra. A lógica interna de construção consubstanciada pela composição que ao relacionar as partes entre si e destas com o todo confere autonomia e faculta a decodificação do sentido geral por meio dos elementos intrínsecos à obra. Para Deleuze e Guattari a composição qualifica esteticamente o artefato: “Composição, composição, eis a única definição da arte. A composição é estética, e o que não é composto não é uma obra de arte” (DELEUZE / GUATTARI: 1992: 247).

A identidade da “obra de arte” promove a consciência de si e como corolário a diferença do coletivo e do individual, distinção que legitimará o ajuizamento do belo. Hölderlin resume assim: “A identidade na diferença é a essência da beleza” (HÖLDERLIN 2003: 85).

Em resumo, a identidade da obra, passível de ser apreciada com precisão objetiva – mensurável, desencadeia a ação de reinterpretação e o ajuizamento de gosto pela conjugação das prerrogativas racionais, sensíveis, volitivas e intelectivas despertadas pela obra no sujeito – incomensuráveis. Neste modo de fruição o sujeito se posiciona criticamente diante da obra e, portanto, diante de si.

Obras citadas

ARTIGAS, V. O desenho. In: Caminhos da Arquitetura. São Paulo: Lech, 1981.
BOTTOMORE, T. (ed.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
CORBISIER, R. Enciclopédia filosófica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.
COSTA, L., Arquitetura. In: Biblioteca educação é cultura. Rio de Janeiro: MEC/Fename/Bloch, 1980.
DELEUZE G. e GUATTARI F. O que é a filosofia. São Paulo: Editora 34, 1992.
HEGEL, G.W.F. Introduction to the Aesthetics Lectures. Oxford: Clarendon, 1979.
HÖLDERLIN, F. Hipérion. São Paulo: Nova Alexandria, 2003.
MARX, K. Manuscritos Econômico Filosóficos. In: Marx. Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).
MARX, K. Sobre literatura e arte. Lisboa: Estampa, 1974.
RENAUT, A. O indivíduo. Rio de Janeiro: Difel, 1998.
SCHILLER, F. On the aesthetic education of man. Oxford: Clarendon, 1982.
SCHILLER, F. De la grâce et de la dignité. Paris:Hermann, 1998.
SCHILLER, F.  Kallias ou sobre a beleza. São Paulo, Zahar, 2002
VERNANT, J-P. Les origines de la pensée grecque. Paris: PUF, 1981.
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* Professor titular da área de estética e história da arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, onde ingressou em 1973 e se aposentou em 2010. Publicou: Eliat town plan (1996); Brasília, uma questão de escala (1985) e A invenção da Superquadra (2009) (coautoria Marcílio Mendes Ferreira). gorovitz@terra.com.br

** O texto, na íntegra, foi publicado na edição de nº 39 da Revista Estudos – ABMES, na seção Pontos de Vista sobre Políticas Públicas para o Ensino Superior Particular. Mais informações sobre a publicação pelo número (61) 3322-3252.

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