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Janguiê Diniz*
Diretor presidente da ABMES
Reitor da UNINASSAU – Centro Universitário Maurício de Nassau

Fundador e Presidente do Conselho de Administração do Grupo Ser Educacional
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Os recentes debates envolvendo a aplicação da tecnologia na educação para que a modalidade a distância seja incentivada nos ensinos médio e superior têm motivado uma espécie de demonização de toda a proposta e até do tema – como se fosse proibido o Brasil revisar sua legislação, antevendo o avanço das possibilidades de educar nossos jovens e os condenando a viver no passado. Um exercício interessante é pedir para as pessoas responderem de supetão há quantos anos Steve Jobs apresentou em São Francisco, nos Estados Unidos, o primeiro modelo de smartphone e revolucionou nossa sociedade. A resposta é surpreendente: apenas 11 anos.

Precisamos compreender a velocidade com que se desenvolve a era digital e buscar formas para que ela contribua com a redução de mazelas da educação brasileira. O que não podemos é ignorá-la, como se o mundo não estivesse em transformação. Mas isso só será possível se nossas leis estiverem atualizadas e, importante, permitam que a tecnologia seja aplicada, sem jamais obrigar seu uso. Até porque é notório que nem todo aluno ou escola estão aptos a mudanças de forma homogênea.

O tempo se encarregará de trazer equilíbrio ao modelo educacional e indicar o caminho adequado. O Ministério da Educação (MEC) poderá, então, utilizar os instrumentos tradicionais ao seu alcance, como portarias e decretos, para adequar a legislação. No ensino médio, por exemplo, que concentra 88% dos alunos na rede pública, em vez de lamentar a eterna falta de bibliotecas, laboratórios e professores, bem como a dificuldade com o transporte, devemos refletir de que forma computadores portáteis e smartphones podem amenizar a deficiência de aprendizado que os jovens apresentam na formação, causada pela falta de infraestrutura.

A discussão na educação superior, com 75% dos estudantes nas instituições particulares, passa pelos mesmos questionamentos. Conselhos profissionais querem fazer crer que um aluno não pode ter parte de seu aprendizado a distância. Tentam criar a falsa impressão de que se incentiva a formação de um enfermeiro, por exemplo, que nunca esteve presencialmente com os professores, sendo que isso jamais foi sequer cogitado. A regulamentação do MEC prevê que atividades presenciais obrigatórias, definidas em diretrizes curriculares nacionais, continuem sendo realizadas. Mais uma vez, o que se propõe é o uso da tecnologia como instrumento facilitador do aprendizado.

O debate sobre a permissão ou não da inclusão da educação a distância na carga horária dos ensinos médio e superior precisa levar em conta a realidade do aluno. Se em casa ele joga, assiste aos mais diversos vídeos e pesquisa em segundos sobre qualquer tema utilizando um smartphone, que atrativo ele encontrará na sala de aula com carteiras e quadro-negro? A professora Lucia Dellagnello, doutora e mestre em educação pela Universidade de Harvard, representou recentemente a América Latina na presidência do júri que escolheu, em Paris, os melhores projetos de tecnologia na educação do Prêmio Unesco, organismo da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ela informa que as pesquisas às quais teve acesso indicam que, para a tecnologia ter um impacto positivo na educação, é importante que seja trabalhada em quatro dimensões: visão clara do objetivo para quê e como vou usar a tecnologia; competência dos professores e gestores no uso da tecnologia; qualidade dos conteúdos e recursos educacionais digitais desenvolvidos; e infraestrutura. Considera fundamental, também, que a política educacional seja abrangente e de longo prazo.

E cita uma realidade muito próxima da nossa, na Índia, onde é alta a evasão no que seriam os nossos fundamental 2 e ensino médio. “O jovem faz a escola primária, aprende a ler e escrever, e depois tem muita dificuldade em seguir adiante não só por problemas econômicos, mas também porque, em vilas muito pequenas e distantes dos grandes centros, não existe oferta de ensino médio. Não há quem dê aula de física e química nesses lugares, por exemplo.”

A solução, segundo Lúcia, se dá por meio de videoaulas a distância, usando uma parceria com a (universidade americana) MIT no desenvolvimento de tecnologia e laboratórios virtuais. “A medida conseguiu baixar o índice de evasão de jovens oferecendo um conteúdo de muita qualidade.” No Brasil, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, em torno de 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos (14,6% do total) já abandonaram os estudos.

Mesmo assim, em vez de fazermos nosso dever de casa, vemos entidades respeitáveis e especialistas ignorarem as chances de mudar nossa realidade e pedirem ao ministro Mendonça Filho que impeçam a iniciativa do Conselho Nacional de Educação (CNE) de abrir a possibilidade da utilização da modalidade a distância no ensino médio. Por que não enxergamos que o problema do Brasil está justamente na falta dos pontos que a professora Lúcia indicou: política educacional abrangente e de longo prazo, não no uso da tecnologia? Enquanto isso, embarcamos em um trem sem volta rumo ao passado: a proibição, restrição ou qualquer outra forma de impedir a discussão de uma solução moderna, que passa necessariamente pela adoção de modelos ligados à educação a distância.


* Publicado no Correio Braziliense de 1º de maio de 2018

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