Marcos Tarciso MasettoMarcos T. Masetto
Líder do Grupo de pesquisa Formação de Professores e Paradigmas Curriculares (FORPEC) da PUC-SP
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O ensino superior brasileiro no período de 1970 a 2010 se viu atingido por dois fenômenos que o afetaram significativamente. O primeiro, com a evolução da democratização do acesso ao ensino superior, grande número de alunos começou a participar dos cursos de graduação. As classes se tornaram numerosas, muitos professores precisaram ser contratados para atender a essa nova população universitária.

O segundo fenômeno, nesse mesmo período, que atingiu o ensino superior brasileiro, diz respeito à revolução das tecnologias de informação e comunicação, com seus efeitos e consequências sobre as áreas do conhecimento, da aprendizagem e da formação de profissionais.

Na área do conhecimento: as fontes de produção se multiplicaram exigindo uma abertura de diálogo da universidade com elas; o acesso às novas informações se tornou imediato, em tempo real, e possível a todas as pessoas. Pode-se chegar a esses dados através de um grande número de aparelhos eletrônicos, com vários aplicativos. O professor, na graduação, deixa de ser a única fonte de informação para seus alunos.

Na área da aprendizagem, resgata-se o conceito complexo de que o aprender envolve um desenvolvimento da totalidade do aluno em seus aspectos cognitivo, afetivo-emocional, no campo de suas habilidades e nos aspectos de atitudes e valores. Valorização da aprendizagem significativa, colaborativa e ao longo da vida.

Na área da formação de profissionais: as novas exigências e necessidades de serviços da sociedade brasileira, o fenômeno da globalização e a própria revolução tecnológica começaram a exigir a criação de novas profissões, como por exemplo, nas áreas de comunicação, design e computação. Profissões surgem da integração de duas outras já existentes, sem falar nos avanços tecnológicos presentes em todas as áreas.

Este dois fenômenos transformaram as exigências para a docência nos cursos de graduação. Foi necessário descobrir um novo papel para o professor e as competências para um docente agir que respondesse ao novo cenário do ensino superior brasileiro.

Identificaram-se três desafios para este novo papel:

  1. Desafio cultural

Os docentes se formaram em uma universidade onde o papel central é: um especialista em uma área do conhecimento, cuja precípua atividade é comunicar aos alunos seus conhecimentos e práticas profissionais. Diante disso, o desafio que encontramos é mudar a cultura desse professor para que ele valorize o estudante como sujeito da construção de seu conhecimento, desenvolvendo suas habilidades de pesquisar, buscar informações, registrá-las, analisá-las, compará-las, socializá-las com os colegas, conhecer as colaborações dos companheiros, organizar e sistematizar os dados e integrá-las a seu mundo intelectual. O docente torna-se um mediador entre o aluno e sua aprendizagem. Trata-se de uma mudança cultural radical no papel do professor.

  1. Desafio de uma docência com profissionalidade

Há um consenso nas IES de que a exigência básica para alguém se tornar um educador é ter cursado uma graduação, e se formado Mestre e Doutor em uma Pós-Graduação.

No cenário atual, o ensino superior assume uma dimensão de profissionalidade. Como o exercício de qualquer profissão exige competências específicas, a docência também demanda de capacidades próprias para realizá-la, e, por decorrência, determina também uma formação adequada para a aquisição e desenvolvimento. O desafio está em trabalhar com o professor para que ele assuma essa sua nova atividade, para que ele adote, assim como as demais profissões, que agora ele precisa aprender a ser um docente e a atuar de forma profissional.

  1. Desafios de Competências

Atuar como professor de forma profissional requer:

a)      Competência na área do conhecimento, que compreende, além de possuir uma formação básica em uma área específica, um trabalho de atualização e especialização no assunto, abertura para um conhecimento interdisciplinar e o desenvolvimento de pesquisa.

b)      Competência na área pedagógica que lhe permita compreender o processo de aprendizagem de adultos em sua complexidade e saber orientar o aluno para desenvolvê-lo; entender e explicitar os objetivos de formação profissional; organizar os temas e conteúdos de sua disciplina de acordo com os objetivos estabelecidos; selecionar metodologias ativas que incentivem o educando a aprender, os tornem participantes nas atividades em classe e extraclasse; rever o processo de avaliação de tal forma que ele incentive os universitários a aprender e lhe forneça continuamente informações que lhe permitam corrigir os erros e progredir em direção à sua formação esperada. Competência pedagógica que permita ao professor criar uma relação com seus estudantes com a característica de um relacionamento entre adultos, com parceria, corresponsabilidade, diálogo, confiança e trabalho em equipe; a criar uma mediação pedagógica.

c)      Competência na dimensão política. Com a abertura da formação do profissional para além de sua competência específica e técnica para uma formação para as dimensões ética, política, econômica e de responsabilidade social e de cidadania. O docente precisa aprender a trabalhar com seus alunos abrindo espaços para que estes aprendam a ver e analisar sua profissão sob os aspectos da cidadania.

 

* Ministrará a palestra: Quais os caminhos para aperfeiçoar e enriquecer a ação docente?” no GEduc 2014. O Congresso acontecerá nos dias 26, 27 e 28 de março de 2014 no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo/SP. Para mais informações, acesse: www.humus.com.br/geduc ou entre em contato com a Central de Atendimento: (11) 5535-1397 / humus@humus.com.br.

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