Luciano Sathler
Membro do Comitê de Qualidade da Associação Brasileira de Educação a Distância e Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix
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Ao que tudo indica, o ano de 2020 será marcado por grandes emoções para quem atua na gestão de instituições de educação superior (IES).

O marco regulatório tem mudado bastante e promete ainda mais flexibilidade, no sentido da autorregulação.

As fontes públicas de financiamento escasseiam – tanto nas verbas para IES municipais, estaduais e federais quanto em programas como o Fies.

O ticket médio praticado pelas IES privadas e comunitárias está fortemente pressionado para baixo, diante de uma concorrência de inédito dinamismo no ensino presencial e na Educação a Distância (EAD).

A hibridização crescente dos cursos presenciais é incentivada pela promulgação da Portaria MEC nº 2.117/2019.

Os egressos têm encontrado dificuldade em conseguir empregos ou trabalho nas áreas para as quais se formaram, rareiam concursos públicos, a remuneração para os formados está abaixo das expectativas e o desemprego ainda se encontra em patamares muito altos.

Os empregos e funções sob ameaça de automação tornam as vagas de maior remuneração cada vez mais técnicas e especializadas, com fortes imbricações no campo científico e da tecnologia.

As chamadas soft skills[i] pedem tipos diferentes de metodologias e abordagens nas IES, em todos os cursos, para permitir o desenvolvimento do pensamento crítico, a comunicação, o poder de negociação, a liderança, o gerenciamento de conflitos, a positividade e a capacidade de tomada de decisão, dentre outras habilidades mais subjetivas de cunho comportamental.

O perfil da maioria dos estudantes se altera bastante, tanto na aprendizagem mediada por tecnologias digitais quanto em sua condição socioeconômica de origem – um aluno trabalhador, muitas vezes o primeiro da família a frequentar um curso superior.

Esses fatos e vários outros que poderiam ser elencados – mas não caberiam nesse breve texto -, exigem que cada IES tenha muita clareza sobre qual é a sua estratégia e a firmeza na execução de suas opções.

Para as IES que têm menor escala e cuja atuação é mais focada no âmbito regional é necessário e urgente buscar a diferenciação.

A ‘Matriz das Formas de Crescer’, apresentada por Tim Brown[ii], é uma ferramenta que pode colaborar bastante com o processo de ideação focado na construção de um posicionamento estratégico singular e valorizado pelos públicos com os quais se escolhe relacionar.

Tanto para IES públicas quanto privadas e comunitárias é fortemente recomendável que sejam criados vínculos com diferentes atores políticos, empresariais e da sociedade no sentido da inserção ativa que fortaleça os arranjos produtivos regionais.

O objetivo é ser capaz de cooperar com a melhoria de vida da população, aumentar a competitividade dos agentes econômicos locais, criar meios de internacionalização acessíveis e produtivos, além de melhorar a qualidade da formação das pessoas a serem empregadas ou que se desenvolverão como empreendedoras.

Essas ênfases a serem perseguidas com um olhar aberto para o mundo e um agir capaz de contextualizar as demandas ao desenvolvimento regional sustentável.

A União Europeia tem uma vasta produção a respeito dos arranjos produtivos locais desenvolvidos a partir de vocações regionais, em uma metodologia chamada ‘smart specialization’ – ver https://bit.ly/312BxPR.

A Câmara Federal produziu um riquíssimo material[iii], capaz de orientar o diálogo entre Academia, empresas, terceiro setor e governos para gerar iniciativas que mobilizem municípios e regiões, tendo as IES como ponto focal – ver em https://bit.ly/38TSa2D.

Em suma, para se diferenciar uma IES vai precisar voltar-se à sua vocação, a partir de um diálogo permanente com a sociedade. Investir na inovação educacional para que a pesquisa e a extensão universitária se tornem efetivamente intrínsecas às relações de ensino e aprendizagem – com tecnologia, eficiência, eficácia e foco.

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[i] Sugiro leitura de “Soft skills: o que são, tipos principais e como desenvolver’, disponível em https://fia.com.br/blog/soft-skills/, acesso em 29/01/2020.

[ii] BROWN, Tim. Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

[iii] GILIOLI, Renato (et al.). Instituições de ensino superior e o desenvolvimento regional: potencialidades e desafios. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2018.

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