Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Um homem desejoso de trabalhar e que não consegue encontrar trabalho, talvez seja o espetáculo mais triste que a desigualdade ostenta ao cimo da terra.” (Thomas Carlyle)

Professor universitário, meio desacorçoado com a situação em que está vivendo, desabafa num e-mail, contando um filme[1] baseado em fato real do menino que vivia dentro de uma bolha de plástico, por ter uma síndrome imunológica grave. Escreve meio apavorado: “O filme tem mais de 44 anos e não me sai da cabeça: tanto como professor quanto cidadão tenho a sensação de que cada um de nós terá que viver envolto em uma bolha ou vestido com um traje de astronauta, pois o mundo está cada vez mais exposto a vírus mutantes e desconhecidos. Com certeza afirmo que meus três filhos não voltarão a frequentar a escola enquanto a vacina ou o tratamento cientificamente validado sejam criados. Eu e minha esposa, professores universitários, não voltaremos a frequentar salas de aula pelo mesmo motivo. Não há garantias científicas, e o risco de vida é muito maior do que o benefício econômico ou acadêmico”.

Devem haver milhares de pais que pensam do mesmo jeito e, em mais de 50 países, por razões diversas, há o mesmo discernimento.

A quarentena deve continuar e as escolas particulares de ensino básico, de um jeito ou outro, vão se estruturando para oferecer o melhor que podem em suas aulas a distância. Mas o problema maior está nas escolas públicas situadas em rincões afastados e sem acesso à internet. Situação parcialmente sanada pela Secretaria de Educação de São Paulo, segundo seu secretário, Rossieli Soares da Silva, que informou que os alunos retornaram às aulas, estudando online, em casa, através do aplicativo do CMSP (Centro de Mídias da Educação de São Paulo).

E ficamos mais um ano sem um planejamento de fato para atender ao ensino básico, tão carente de um esforço nacional para formar gente capacitada a enfrentar os desafios de uma sociedade em transformação. Mas, meu caro Prof. Herivelto, há uma pandemia muito maior do que a atual: a nossa desigualdade social e a falta de uma educação capaz de dar oportunidade de formação básica a todos. Realmente, o coronavírus veio para escancarar e patentear a desigualdade social, que tem efeitos deletérios na educação, na economia, na saúde, na habitação, na infraestrutura, no lazer, em outras palavras, na qualidade vida de parte significativa da nossa população desassistida, que alguns acreditam que chegue em todo o país a 100 milhões, na absurda casa dos 50%.

Deveria haver um esforço nacional com Governo, empresas, instituições educacionais, famílias e sociedade e meios de comunicação para que a educação em todos os níveis fosse a mais qualificada a formar gente capacitada a vencer os desafios do mundo do conhecimento e também preparada a escolher com mais inteligência seus representantes políticos.

O Brasil real (está claro que não estou falando de ilhas de excelência, muitas vezes alienadas dos cruciais problemas da nação) não está preparado para enfrentar um futuro em que um contingente inimaginável de cidadãos de segunda categoria não terá armas para defender-se. Viverão todos a próxima epidemia: o desemprego, contra o qual a ciência não tem vacina. Vem aí um desemprego em massa e o país precisa encontrar soluções tanto para formar gente capacitada e empreendedora como a criar estratégias de desenvolvimento. Sem bater na mesma tecla é só copiar os Tigres Asiáticos que já a descobriram faz tempo: a educação!

É ela que, entre outras coisas, permite a mobilidade social, o acesso a trabalho mais humano e digno, o espírito crítico e criativo, a colaboração, o respeito pelo meio ambiente, uma renda per capita mais justa, o declínio da violência.

Mas, para atingir esse desiderato, é preciso esforço conjunto. A metáfora da Torre de Babel é muito apropriada para o momento político-social que vivemos. Hoje, depois de muitos milênios da maior criação humana, a linguagem, há múltiplas formas de comunicação, com línguas, códigos e dispositivos diversos, cada vez mais sofisticados e mais céleres e que graças à tecnologia, enredam e interconectam os seres humanos. Porém, apesar de tudo, exacerba-se a falta de comunicação e incompreensão entre nós, pobres mortais. Parece que, à medida que a modernidade avança, a comunicação se torna mais precária. As fake news, a exemplo das fofoqueiras de antigamente, atingiram um grau de sofisticação, que exigiu a criação de agências especializadas na sua detecção.

Quando todos falarem a mesma língua, no sentido de superar subjetivismos e ideologias, quando houver um plano de Estado, poderemos construir uma educação capaz de tornar nossa população apta a enfrentar o cenário que se desenha de desemprego em massa, pobreza avançando a galope acelerado, aumento de violência, precariedade habitacional, com ocupação desenfreada de áreas de mananciais, agressão cada vez maior ao meio ambiente.

Mas, como disse Caetano Veloso na música Gente, “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Assim, tenho a firme convicção de que uma educação sintonizada com as exigências do século XXI – não mais centrada em conteúdos (aliás disponíveis a um toque na tela ou a um clique do mouse), mas no desenvolvimento de competências e habilidades desde a escola básica – pode reduzir desigualdades e dar mais dignidade aos indivíduos.

As competências são essenciais para que o indivíduo tenha sucesso na sua vida social e profissional. São elas que lhe permitem tomar decisões. Criatividade para solução de problemas, liderar, resolver conflitos, utilizar conhecimentos adquiridos ao longo do processo ensino-aprendizagem. Elas são um conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas. Essas habilidades referem-se à aplicação prática de determinada competência para resolver uma dada situação, por exemplo, aplicar a habilidade de ler para compreender e interpretar um texto e ser competente nessa tarefa.

E nesse quesito, as mais variadas avaliações têm demonstrado que a pandemia (nome eufêmico para peste) da Covid-19 é “fichinha” perto do que o futuro nos reserva se não agirmos rápido e em sintonia. Educação não é mais (aliás nunca foi) dever só da escola. É um esforço conjunto – da sociedade, empresas, mídia, academia, família – é imprescindível para que seja possível atingir um patamar social mais justo e mais igualitário.

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[1] Filme “O Menino da Bolha”, com John Travolta (1976): https://www.youtube.com/watch?v=GfLpKXovD6Q
O caso real: https://www.youtube.com/watch?v=A_-aXB4Did0

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3 Respostas para “Desigualdade social: pandemia 100 vezes maior que a Covid-19”

  • valter stoiani says:

    A desigualdade social
    Meu caro prof. Gabriel, antes de mais nada minha gratidão por despertar a oportunidade de escrever e comentar seu artigo.
    Na sua metáfora da pandemia de desigualdade social, você destaca em negritos a questão importantíssima da linguagem. O que em essência é o que diferencia a humanidade de outros seres vivos. A capacidade de sentir, pensar e transformar os pensamentos em linguagem , informações e comunicação. Base da cultura adquirida através da educação.
    Cita a torre de Babel como exemplo da confusão reinante entre nós e que poderá ter consequências desastrosas do ponto de vista da sobrevivência da humanidade.
    Entretanto há na história uma experiência justamente oposta, a da criação pelo Rei Sejong da Coréia *anos 1444-1450 , de um alfabeto o “Hangul”, não para confrontar às divindades como na torre de Babel , mas para educar o povo coreano. Redimi-lo da ignorância , do cativeiro Chinês e do analfabetismo funcional. Convocando dez sábios especialistas,criou o “”Hangul” e transformou a Coréia. Até hoje todos os anos os Coreanos do Norte e do Sul rendem homenagem ao sábio Rei , que inovou a educação Coreana, libertando o povo da escravidão e da ignorância.
    Deveríamos nos inspirar nesta experiência fantástica , que permitiu ao povo coreano um desenvolvimento cultural , educacional , tecnológico em escala exponencial.
    Poderíamos nos inspirar na inteligência espiritual de Sejong e investir em ciência , pesquisas , para assim como nossos cientistas hoje, lutam bravamente para criar uma vacina eficaz contra o Covid-19 , também possamos ter os nossos cientistas , debruçados sobre o fenômeno chamado “educação”, para criar uma vacina , contra o vírus da ignorância, egoísmo , da indiferença afetiva e da desigualdade social.

     
  • Parabéns pelo artigo, Prof. Gabriel. Em tempos de pandemia, a gigantesca desigualdade social em nosso país fica ainda mais evidente. Concordo com o Prof. Zanotta quando diz que já passou o tempo do Governo cumprir seu papel. O que deveria ser responsabilidade do Estado – cuidar das pessoas – acaba sendo tratada com cruel descaso por muitos governantes. Cabe a nós fazer a nossa parte.

     
  • Prof. Gabriel, concordo plenamente, mas tenho uma ressalva, o tempo para o Estado criar seu plano de Educação já se exauriu tem mais de 20 anos, e diante da postura do atual governo federal, não há perspectiva para avançarmos. Acredito que precisamos de um Plano para a Educação estruturado pela sociedade civil organizada para definir os objetivos, metodologia pedagógica para gerar inovação, números estudantes a serem formados, orçamento, articulação com uma Rede de Instituições de Ensino para disponibilizar bolsas de estudo para os estudantes de menor renda e uma plataforma de ead única para chegar aos rincões, e uma Campanha para doações e investimentos de pessoas físicas e jurídicas. Nós é que temos que resolver esse problema, como o senhor bem disse, ele é muito mais grave que a pandemia e precisa ser atacado agora. Atenciosamente, Prof. Ricardo S. Zanotta

     

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