Rosely Sayão
Folha de São Paulo, publicado em 23 de abril de 2013
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Recebi uma mensagem muito sofrida de um jovem que iniciou seu curso universitário neste ano. Como ele trata de questões que atingem –ou irão atingir– um grande número de pessoas, decidi tomar a mensagem dele como um guia para nossa reflexão semanal.

A primeira coisa que nosso jovem leitor anunciou em sua mensagem foi o arrependimento pela decisão de fazer o curso que faz. Ele lamentou profundamente não ter pesquisado mais cursos antes de prestar o vestibular, não ter feito um trabalho de orientação profissional, não ter procurado conhecer novos cursos. Lamentou, enfim, todas as atitudes que, do seu ponto de vista, não tomou.

Você tem ideia, caro leitor, de quantos jovens se arrependem da escolha que fizeram ainda no primeiro ano da faculdade? Por que será que isso tem acontecido com tanta frequência? Para você ter uma noção desse fenômeno, um número pode ajudar: o índice de evasão de alunos universitários é, em média, 20%, mas varia bastante entre os diferentes cursos chegando a quase 40% em alguns deles.

Essa é uma desistência precoce, sem dúvida alguma. Afinal, com alguns meses de aulas não dá para saber nada a respeito do curso ou do exercício da profissão a qual ele levará. O arrependimento tem relação, portanto, com o que não foi escolhido.

Decidir por algo tem sido uma atitude cada vez mais difícil. Um dos motivos é que, quanto maior o leque de escolhas possíveis, mais árduo é o processo de renunciar.

Outro motivo é o compromisso. Hoje, o maior compromisso das pessoas é consigo mesmas, com a busca de satisfação e de felicidade. O problema é que nenhuma escolha realizada oferece garantia de encontrar o que se busca e, portanto, o que se procura pode estar em outro lugar. Assim, desistir da escolha feita é sempre uma alternativa aberta.

Uma outra questão levantada pelo leitor foi o fato de que ele não quer prolongar sua dependência em relação aos pais e, por isso, quer trabalhar. O problema, para ele, é que seus pais não aceitam essa sua decisão.

Parece que os pais de classe média fazem questão de que os filhos tenham um diploma universitário. Não importa muito se o jovem quer, se o diploma vai oferecer uma vida melhor ao filho etc. Mas é bom saber que fazer faculdade deve ser uma escolha do jovem. Trabalhar pode ser outra escolha. O que ele não pode escolher, a essa altura da vida, é não escolher nada.

Carregamos conosco a informação, já vencida, de que o fato de cursar uma faculdade garante um bom emprego aos portadores do diploma. Isso não é mais verdade. E obrigar o jovem a fazer o que não quer só resulta em fatos negativos: heteronomia, dependência, imaturidade. E creio que já chega de termos jovens que não entram nunca na maturidade, porque, entre outras coisas, prolongam seu curso universitário por anos, trancam a matrícula para voltar a fazer cursinho e ficam com inúmeras disciplinas em dependência.

Talvez esta seja a hora de ajudar o jovem a se comprometer com suas escolhas e a perceber que a felicidade se encontra mais facilmente na vida pessoal do que na profissional. Esta oferece a possibilidade de reconhecimento social.

Será que temos ensinado aos mais novos a importância da atuação social?

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