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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“[…] E deve ser lembrado que não há nada mais difícil para iniciar, mais perigoso para conduzir, ou mais incerto no seu sucesso, que assumir a liderança de uma nova ordem de coisas. Porque o inovador tem como inimigos todos aqueles que se saíram bem nas condições antigas, defensores mornos, aqueles que poderiam se sair bem nas novas. Esse frescor surge em parte do medo dos opositores que têm as leis ao seu lado, e em parte da incredulidade dos homens que não acreditam prontamente em coisas novas, até que tenham uma longa experiência com elas. […]” (Nicolau Maquiavel)

No bairro Barra do Una, em São Sebastião, São Paulo/SP, há um memorial denominado “18 anjos da linha 12” que homenageia 18 estudantes mortos em 8 de junho de 2016 em um acidente de ônibus na serra da rodovia Moji-Bertioga. O veículo tombou na estrada por falha mecânica e matou os universitários que retornavam às suas casas após a aula. Este não foi o maior acidente com estudantes, em agosto de 1960, no município paulista de Guapiaçu, um ônibus trafegando de S. José do Rio Preto para Barretos caiu de uma ponte no rio Turvo, ocasionando a morte de 59 alunos.

Não deve haver dados mais profundos sobre acidentes rodoviários com universitários, mas, se houvesse, certamente as décadas de 1970 e 1980 os retratariam com números mais expressivos. Sei que há alunos que viajam diariamente dezenas de quilômetros para frequentar uma faculdade, mas isto não será habitual. Desde a década de 1970, por só existir faculdades nas grandes cidades, alguns cursos eram ofertados aos fins de semana. Os alunos cumpriam sua carga horária na sexta à noite, e sábado inteiro e retornavam na semana seguinte.

Os chamados cursos vagos, livres ou de “final de semana”, que espocaram desde aqueles tempos em todo o país, não deixavam de ser cursos semipresenciais graduando milhares de estudantes. Por ser uma inovação na época, eram desdenhados e recebiam críticas e considerações pejorativas. Talvez um ou outro pudesse sê-lo, mas não todos. A maioria deles era bem planejada e apoiada por apostilas, indicação de livros, professores animados, compartilhamento de ações e colaboração entre os alunos para vencer os desafios das tarefas curriculares. Imagine fazer um curso com duração de 200 viagens semanais e ter disposição para rodar, entre ida e volta, cerca de 300 quilômetros, mesmo faltando às vezes, não era tarefa para qualquer um.

Uma constatação tenho certeza, a da responsabilidade dos promotores desses cursos não era menor do que a dos atuais mantenedores, que dependem do sucesso do aluno para se manterem sustentáveis. Porém, o que desejo destacar neste texto é que hoje, graças à tecnologia, ninguém precisa viajar tanto, pois o ensino online está se desenvolvendo amparado pelas melhores estratégias educacionais. Hoje, quem quiser de fato aprender não precisa sair de casa.

A aprendizagem a distância no ensino superior começou há mais de um século e meio, no Reino Unido, quando a Universidade de Londres (fundada como “a universidade do povo”) criou, em 1858, o seu sistema externo, ou cursos por correspondência. Mahatma Gandhi (1869-1948), por exemplo, fez todo o curso de Direito a distância numa época na qual um navio levava dois meses para transitar entre Londres e seu país. Nelson Mandela, prisioneiro na Cidade do Cabo por suas atividades contra o apartheid, também cursou Direito a distância a partir de Londres.

A chamada EAD, embora guarde certa novidade, não é tão nova assim que não mereça reflexões, pois, a rigor, educação não presencial vem lá dos anos 40. Os cursos do Instituto Monitor, escola pioneira em cursos a distância, vem desde 1939 trabalhando com mais de 6 milhões de alunos que estudaram e cresceram profissionalmente. Seu concorrente, o Instituto Universal Brasileiro, fundado em 1941, é outro pioneiro da educação a distância. Ambos desempenham um papel importante na aplicação como   modalidade de ensino, colaborando decisivamente para a formação de profissionais por meio de cursos profissionalizantes, supletivos e técnicos. Não podemos esquecer os telecursos da TV Cultura e da Rede Globo.

O ensino superior a distância entrou no país na metade dos anos 90 e vem se consagrando como uma estratégia para democratizar a educação brasileira. É do Guia do Estudante a publicação de 19 de setembro último, cujo título é: “Número de vagas em graduação a distância supera de graduação presencial”.  Em 2018, foram 7.170.567 vagas de EAD, contra 6.358.534 presenciais. Esses números são do Censo da Educação Superior, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que sempre mede, os resultados do ano imediatamente anterior a sua publicação. Embora não corresponda à quantidade de matrículas, o aumento de vagas sinaliza uma tendência mundial que chega ao Brasil. Segundo a mesma notícia, “este ano, o MEC também liberou a oferta de mestrado e doutorado a distância mediante alguns requisitos específicos que devem ser cumpridos pelas universidades interessadas”.

Dentre as vantagens da educação a distância, destaca-se a capacidade de possibilitar inclusão social e digital para aqueles que têm, por exemplo, dificuldade de locomoção ou moram em regiões distantes de grandes centros urbanos ou não podem arcar com os preços dos cursos presenciais. Mas não só isso.

O conjunto de recursos materiais e intelectuais empregados pelos sistemas de aprendizado sempre sofrem modificações e atualizações ao longo do tempo. Razão pela qual os meios utilizados pelos processos educacionais acabam numa constante evolução. A educação ganhou complexidade no decorrer das décadas a partir de alterações socioeconômicas e do aprofundamento da teoria do conhecimento, refletindo no aparecimento de abordagens pedagógicas mais abrangentes e evoluídas. Mas, nada se compara ao cenário inédito estabelecido nos últimos anos.

A modalidade EAD exige investimentos contínuos em recursos tecnológicos, em formação de professores e tutores, material didático, sistemas de comunicação, mediação e orientação da aprendizagem, entre outros aspectos que diferenciam a experiência a distância da presencial.

Um ponto de atenção é que a EAD precisa se diferenciar do presencial. Quando isso não ocorre, a sobreposição do presencial para o online, torna a modalidade desestimulante, repercutindo na baixa qualidade dos cursos e, consequentemente, numa maior evasão de alunos.

Quanto à aceitação dos egressos da EAD, a necessidade faz com que os candidatos desenvolvam características muito necessárias para o mercado de trabalho, entre elas, independência, criatividade, organização, iniciativa, gestão de tempo e foco. No ensino presencial o professor era o mesmo a cada ano e o conteúdo mudava depois de 20 anos, a distância é diferente: a cada semestre a disciplina aparece renovada.

Pelas razões expostas, não tenho a menor dúvida de que, dentro de poucos anos, os cursos online ou semipresenciais terão uma demanda muito maior do que os presenciais e com melhor aproveitamento qualitativo pelos alunos. A competitividade entre as instituições de educação superior (IES) obrigará sucessivos aperfeiçoamentos dos cursos, para o desenvolvimento constante do aprendizado.

É o inimaginável mundo novo onde uma simples tela de um computador ou de um smartphone será capaz de ensinar por meio dos incríveis recursos tecnológicos de comunicação e informação colocados à disposição para as pessoas aprenderem.

Dominar a Pedagogia da Tela será a maior estratégia para quem quiser ser um bom profissional de educação. Quem dizia isto em 1983 era o publicitário Bah Galvão prognosticando que a tendência para o futuro seria a fusão do computador com a televisão e o telefone e na tela estariam todas as informações para se produzir o conhecimento. Ele dava a receita: “a tela deve ser tão persuasiva como uma mensagem publicitária, capaz de entreter e argumentar, de modo absoluto para que o consumidor seja convencido pelo seu conteúdo”.

Daqui pra frente quem ensinará será a tela, aliás, como sempre o fez, desde a tela na areia, no barro, na madeira, na pedra, no papel e no quadro negro. Ensino é um só. A tela sem dúvida alguma dará o grande show de aprendizagem daqui pra frente.

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Uma resposta para “EAD: muito além da experiência milenar do ensino presencial”

  • valter stoiani says:

    A pedagogia da tela
    Sem dúvida , a pedagogia da tela , veio para ficar e sanar um grave problema da distância e do tempo na questão educacional.
    Porém convém ter a consciência de que se ela supre atualmente e com muita eficiência o ensino dos conteúdos é muito limitada quando a ensinagem se propõe a desenvolver aspectos éticos e de personalidade, pois estes valores são transmitidos essencialmente pela experiência de vida, pela convivência no lar , na escola e nas comunidades, pelo brilho do olhar, pelo abraço e pelo aperto de mão. A pessoa e a experiência emocional da presença é insubstituível quando a questão é o desenvolvimento da espiritualidade. E a espiritualidade e a inteligência espiritual poderá ser a força transformadora do futuro, que permitirá a humanidade usufruir dos avanços tecnológicos e da inteligência artificial, sem se deixar escravizar por elas. Mas sim utiliza-las para promover sua qualidade de vida.
    Como diz, o historiador Yuval N. Harari, no fórum econômico mundial. *
    “ É um erro achar que os conflitos humanos são decorrentes da falta de recursos materiais , ou conteúdo de conhecimentos. Mas na maior parte das vezes é por interpretar equivocadamente as próprias histórias e conhecimentos, e o seu lugar no mundo, ou seja por uma incapacidade ou falta de uma inteligência e educação espiritual .”
    *Ciência. F.S. P. 5/11/19

     

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