Wanda Camargo
Educadora e assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil – UniBrasil
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A história brasileira parece sempre ter sido contada para consumo público, como se tivesse ocorrido apenas por protagonismo de alguns personagens, restando a nós outros a figuração e o pagamento de impostos. Nossa independência de Portugal teria sido mera consequência do capricho de um príncipe – e a libertação dos escravos, ato benigno de sua neta. Como se as ações, a coragem, a pressão, o sacrifício, os ideais de muitos não tivessem tido maior importância.

Essa simplificação maliciosa e infantilizante vem até os nossos dias. Os calendários oficiais contemplam os “autores” dos acontecimentos importantes, citando-os como exemplos a serem seguidos, esquecendo a participação e os sofrimentos reais dos que os seguiram e viabilizaram seus atos.

O sentimento de não influir nos destinos do país leva ao sentimento de não pertencer a ele, de não ser cidadão pleno – e isso é extremamente pernicioso para as relações pessoais e sociais. O senso de comunidade perde importância – e termina-se indiferente aos demais, à sociedade, a tudo que não seja muito próximo.

Sendo mais competitivos que participativos, temos dificuldade para formar equipes, distribuir tarefas equitativamente, comemorar vitórias ou lamentar derrotas pacificamente. Mesmo nos bancos escolares, é fácil perceber obstáculos à participação na realização de tarefas em grupo: alguns preferem assumir toda a incumbência, para alegria daqueles que não desejam mesmo colaborar, e todos perdem: centralizadores e ausentes, uns pela perda da oportunidade de compartilhamento, outros pelo gasto de tempo, assinando trabalhos que meramente incrementam o egoísmo.

Assim é também que, enquanto em muitos países as empresas mantêm parcerias profícuas com instituições universitárias, fazendo a estas grandes doações e tendo como retorno pesquisas e formação de massa crítica essenciais para suas atividades, aqui, indústrias, comércio e setor de serviços estão, com poucas exceções, distantes das escolas – para prejuízo de todos.

No entanto, há uma esperança: os jovens, que pareciam não ter valores, não se interessar pelas grandes questões sociais, dedicar-se apenas ao consumo e às redes sociais, nos surpreendem com suas manifestações de indignação, inconformismo e generosidade, trazendo um vento de renovação, em que muito pesem alguns exageros e vandalismo. Uma centelha produz incêndio onde existe combustível – neste caso, a insatisfação difusa e generalizada com a violência, a corrupção, a impunidade e o descaso, além da descrença nos sistemas político e judicial, que deveriam ser os fiadores da democracia, os interlocutores legítimos dos anseios da sociedade.

Os jovens manifestantes parecem saber que o Brasil que está sendo construído hoje é o seu país – e o querem muito melhor. Percebem que muitos de nossos políticos padecem do excesso de visão de futuro (o seu próprio) e que deveriam mirar mais o passado (lembrando as propostas e promessas pelas quais foram eleitos) e menos a próxima eleição. Se continuarmos valorizando apenas o pessoal, em detrimento do coletivo, mais a esperteza que a inteligência, mais a sorte que a dedicação, será difícil realizar o sonho que nos é manifestado pelas ruas.

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