Prof. Dr. Antonio Manzatto*
Assessor de Assuntos Internacionais e Institucionais da PUC-SP
*** 

Desde sempre a dimensão internacional esteve presente na educação superior brasileira e, segundo as épocas, de diversas maneiras. As relações com a Universidade de Coimbra, por exemplo, e, posteriormente, com instituições francesas bem o demonstram. Naturalmente, as condições e objetivos que presidiam tais relações internacionais eram bem diferentes daquilo que é hoje. Ao longo do tempo, os universitários brasileiros tiveram contatos internacionais com textos que vinham do exterior, com professores que visitavam o país e outros que, tendo estudado lá fora, agora lecionavam nas instituições nacionais. No horizonte, de uma forma ou de outra, estava sempre presente a tal dimensão internacional.

Claro que a situação atual é outra. Vivemos em contexto de globalização e de intercâmbio cultural multilateral. Por conta dos meios de comunicação e de informação postos à disposição das populações, e do encurtamento de distâncias pelo aumento de velocidade e popularização dos meios de transporte, nenhuma cultura pode fechar-se sobre si mesma, nenhuma instituição vive isolada. Não é apenas o mercado que se globaliza, mas também, de certa forma, a população. E se globalização nos faz pensar diretamente no mercado, para o ambiente educacional a busca será de internacionalização.

De maneira mais efetiva, a preocupação com a internacionalização movimentou mais intensamente as instituições a partir dos anos 90. Passou-se a olhar a questão com outros olhos, com outro significado de importância. Políticas passaram a ser estabelecidas nas instituições visando instalar práticas. A rede Web que agiliza a comunicação possibilita, também, uma dinâmica maior de relacionamentos e, suprimindo distâncias, deixa entrever possibilidades de parcerias as mais diversas.

Mais próximos de nós, a internacionalização se instala em todas as instituições de maneira incisiva neste século XXI. Não se trata mais de possibilidade, mas de necessidade. E ela se desenvolve em diferentes direções, com múltiplos objetivos, algumas condições e muitos desafios. Trata-se de realidade cambiante, que se modifica na velocidade do mundo contemporâneo. Se não forem ágeis, as instituições acadêmicas correm o risco de verem ultrapassadas as políticas de internacionalização que acabaram de definir.

Os aspectos mais comumente abordados começam por falar de uma presença internacional. Nesta perspectiva, buscam-se, então, meios para colocar-se, de alguma forma, nas instituições estrangeiras. De início, de forma muito espontânea, e depois, de maneira mais organizada, buscava-se estabelecer convênios e relações formais de proximidade, mais do que parceria. Esta perspectiva tinha, muitas vezes, objetivos absolutamente internos, no sentido de poder divulgar, no país, que aquela instituição tinha presença internacional.

Em seguida veio a mobilidade estudantil, hoje componente necessário de toda política institucional de internacionalização. Acolher estudantes internacionais e, muitas vezes visto como mais importante, enviar estudantes para o estrangeiro fazia com que a instituição tivesse, também internamente, um marketing diferenciado. Muitas vezes parece que tal mobilidade tem objetivos claros de atrair novos alunos para a instituição, daí a possibilidade de se perguntar se tais práticas visam realmente uma presença internacional. Os mesmos métodos podem ser lidos de outra perspectiva, dependendo do que se entende por internacionalização e o que se busca com tal política.

Hoje se fala preferencialmente de educação internacional. A mudança não é apenas semântica, é de perspectiva. A presença internacional não visa especificamente o público interno, mas a participação ativa e efetiva na produção de conhecimento que se faz em todos os lugares. Ultrapassa-se, assim, a perspectiva de que o melhor conhecimento é o que se desenvolve nesta ou naquela instituição; passa-se a ver a organização melhor ou pior dependendo de sua capacidade de trabalhar em parceria com outras entidades similares de diferentes culturas, interesses e proveniências. Por isso, as práticas atuais apontam para o estabelecimento de realizações conjuntas na pesquisa, no ensino e na extensão. Também a prática de Educação à Distância tem algo a ver com isso, na medida em que supera distâncias físicas e permite relacionamentos que vão em perspectivas completamente novas.

As práticas internacionais atuais são muito diversificadas e permitem responder a variados interesses, fazendo com que a preocupação com esta realidade permeie todos os níveis da vida universitária. A mobilidade estudantil permanece no horizonte, sobretudo em tempos de Ciência Sem Fronteiras. Os chamados intercâmbios vão mesmo para além da vida universitária e abrangem a vida da família, pois em diversos momentos da vida a pessoa pode participar de cursos de verão, cursos de línguas ou outros que são oferecidos por instituições internacionais.

De forma mais institucionalizada, há possibilidades atuais de dupla diplomação, de cursos realizados conjuntamente ou de pesquisas desenvolvidas em parcerias, tudo ultrapassando a dimensão espontânea e pessoal. A presença internacional, para além dos rankings, se dá também por publicações de textos que reúnem autores de diversas origens ou por relacionamentos que permitem referência a pessoas e organizações de impacto. Os convênios estabelecidos entre instituições atualmente têm em vista esta perspectiva, mesmo se não excluem as outras.

As práticas internacionais custam caro muitas vezes, mas há práticas que se podem desenvolver com baixo custo. Se elas não esgotam as possibilidades de relações internacionais, por outro lado demonstram que não será preciso apenas recurso financeiro para o estabelecimento da educação internacional. As novas tecnologias permitem mesmo aulas com professores estrangeiros a, praticamente, custo zero; a velha e boa bibliografia com títulos internacionais pode servir como um despertar para esta realidade; conferências ou mesas de debates por vídeo podem, também, ajudar a baratear custos. Tudo aponta para possibilidades de parcerias internacionais que construam, em rede, uma educação que seja pertinente aos tempos atuais.

___________________________________

*Assessor de Assuntos Internacionais e Institucionais da PUC-SP e ministrará a palestra: “Educação Internacional: desafios e possibilidades” no seminário: Internacionalização nas IES – Caminhos e Perspectivas. O evento acontecerá no dia 05 de novembro de 2013, das 09h00 às 17h30, no Hotel Park Inn, em São Paulo, capital. Para mais informações e inscrições acesse: www.humus.com.br/eventos/internacionalizacao

Avaliar

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics