Ronaldo Mota
Diretor Científico da Digital Pages
Membro da Academia Brasileira de Educação
***

Circulam na praça um conjunto de vídeos irracionais, irresponsáveis e, socialmente, danosos. A melhor forma para minimizarmos os estragos é propiciarmos educação de qualidade para todos, e, sempre que possível,  tentarmos aprender algo a partir dos absurdos.

Alguns desses vídeos, a título de exemplo, tratam de falsos impactos na glândula pineal causados pelo uso de termômetros de infravermelho na testa. São centenas, talvez milhares, de peças de divulgação similares completamente equivocadas e , deliberadamente, distribuídos por redes de militantes organizados e robôs.

É menos inocente do que parece, explorar o senso comum para convencer alguém de algo sem nenhum  fundamento científico ou base real. Trata-se de preparar seres humanos para serem convencidos de “fake news”, mesmo quando absolutamente inverídicas.

Afirmar que a Terra é plana pode parecer inocente e quase bem-humorado, porém, é a mesma lógica que opera quando se quer, por exemplo, travestir um político, claramente, desonesto e incompetente em alguém, supostamente, honesto e competente.

Quando se espalha, sem nenhuma base científica, que um termômetro infravermelho faz mal à saúde, quando apontado para a testa, é parte do mesmo jogo que visa convencer pessoas a acreditarem em qualquer coisa que a mesma rede organizada transmita.

O termômetro infravermelho faz uso da propriedade física associada ao fato de que todas as coisas (incluindo seres humanos), a uma temperatura acima de zero absoluto (equivalente a -273,15 graus Celsius), emitem calor na forma de radiação térmica.

Os átomos estão em constante estado de movimento, possuindo energia cinética. As transições rotacionais e vibracionais de átomos e moléculas ou quando duas moléculas excitadas colidem, em qualquer dessas situações, energia na forma de radiação térmica eletromagnética é emitida.

O tipo de radiação térmica (infravermelha, luz visível ou ondas de rádio) emitida depende da temperatura da fonte. Além disso, quanto mais alta a temperatura, mais rapidamente os átomos e as moléculas se movem e maior a quantidade de radiação emitida.

Um termômetro infravermelho típico possui as seguintes partes: sensor infravermelho (conhecido como termopilha, que converte energia térmica em eletricidade), laser, lente convergente, sensor de temperatura ambiente, amplificador e outros componentes eletrônicos para converter e exibir os resultados em valores numéricos.

Quando o termômetro é apontado para algo ou alguém, um laser é acionado unicamente com o propósito de localizar bem o objeto, sendo de baixíssima potência, totalmente inofensivo e, o mais importante, não é o laser que mede a temperatura.

A radiação infravermelha, no caso, é emitida pelo próprio corpo humano, a qual é captada pelo aparelho.  A radiação absorvida, passando pela lente convergente dentro da pistola, incide sobra um lado da termopilha. A temperatura da termopilha, no lado onde a radiação infravermelha impacta, aumenta proporcionalmente à intensidade de radiação incidente. O lado oposto da termopilha permanece a uma temperatura mais baixa. Essa diferença de temperatura leva ao desenvolvimento de uma diferença de tensão e, portanto, de eletricidade, o que caracteriza o efeito termoelétrico.

A leitura da temperatura da fonte emissora é propiciada por um circuito típico de aquisição de dados e a leitura final é exibida em um painel de LED. Um sensor ambiental localizado próximo à termopilha ajuda a compensar qualquer outra radiação térmica que entra no aparelho a partir do próprio ambiente ao seu redor.

Em suma, as pistolas de temperatura, se bem calibradas, permitem verificações de temperatura mais precisas, rápidas e absolutamente seguras. Elas têm sido empregadas, sem contestação científica séria, para verificar se há um quadro de febre nas pessoas durante eventos epidêmicos como o da  Covid-19.

O uso de uma pistola de temperatura reduz o risco de contaminação devido à sua abordagem sem contato. Além disso, as leituras de temperatura são obtidas em um ritmo muito mais rápido que os métodos tradicionais. O posicionamento do laser na testa (em tese, poderia ser em qualquer parte do corpo) é porque a temperatura nessa região do corpo é, em geral,  não afetada pelo uso de roupas.

Quando se levanta suspeita sobre esse procedimento, sem nenhuma base científica, é sim parte da preparação explícita para a maldosa arte de convencer pessoas sobre qualquer coisa, por mais inconsistentes e perigosas que elas possam ser.

Via a disseminação de receios sem fundamento e de teorias conspiratórias absurdas, aduba-se o terreno para ofensas à ciência, à educação, à cultura e às artes. É parte de uma estratégia de atacar a democracia, legitimar culpar os pobres pela sua própria pobreza, justificar teorias racistas e estimular, impunemente, o extermínio do que resta de meio ambiente.

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Uma resposta para “Educar para “fake news””

  • Nestor Correia says:

    Muito bem escrito e oportuno. Steve Bannon mantém colégios de formação de opionadores profissionais.

     

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