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José Pastore
O Estado de S.Paulo, publicado em 14 de setembro de 2010
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Numa primeira análise, os dados sobre educação trazidos pela última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) são animadores. O Brasil está evoluindo. No período de 2004 a 2009, a proporção de crianças de 4 a 5 anos matriculadas em escolas subiu de 75% para 87%. Entre as demais, praticamente todas estão na escola. No grupo dos adolescentes de 15 a 17 anos, a escolarização saltou de 85% para 91% e na faixa de 18 a 24 anos, de 30% para 38,5%. A proporção dos que concluíram o ensino médio aumentou de 26% para 33%. Os que se diplomaram em universidades subiram de 8% para 10,5%. São boas notícias. A população brasileira está se educando mais.

Numa segunda análise, quando se comparam os resultados alcançados com as crescentes necessidades do mundo do trabalho, o quadro é desanimador. As novas tecnologias e os novos métodos de produzir e vender correm muito mais depressa do que os nossos avanços educacionais, que já são velozes. Isso explica, em grande parte, a falta de pessoal qualificado em quase todos os setores da economia brasileira nos dias atuais.

O quadro torna-se ainda mais desconcertante quando fazemos comparações com nossos competidores. Na média, os brasileiros com 10 anos de idade (ou mais) têm apenas 7,2 anos de escola. Para as necessidades do trabalho moderno isso é irrisório. Nos Estados Unidos, a média é de 13,5 anos; no Japão, 13; na maior parte da União Europeia, 14.

Ou seja, em relação ao que precisamos para crescer internamente e ganhar a competição externa, estamos muito atrasados. As empresas modernas buscam profissionais que tenham bom senso, lógica de raciocínio, capacidade de se comunicar por escrito e oralmente, tino para transformar informações em soluções práticas e capacidade para trabalhar em grupo. Em suma, as empresas de hoje buscam pessoas que saibam pensar e assim continuarão no futuro.

É verdade que, na força de trabalho, 43% dos brasileiros completaram o ensino médio. Ainda assim, é pouco. Afinal, 57% estão abaixo dessa marca. No Chile são apenas 24%; nos EUA, no Japão e no Canadá, 5%; na Alemanha, 3%; na Dinamarca, 1%; na Inglaterra, 0%. É difícil contar com uma massa crítica qualificada nessas condições.

Para o trabalho moderno não basta ser adestrado. É preciso ser educado, e bem educado. O Brasil ainda tem 20% de pessoas que não completaram os primeiros quatro anos de escola (analfabetos funcionais).

Em resumo, estamos avançando – o que é bom -, mas aquém das necessidades – o que é ruim. É uma corrida em relação a um ponto móvel. Quando se chega lá, descobre-se que é pouco. Vejam o caso do ensino superior, em que o Brasil tem cerca de 10% de formados. No Chile são 18%; na Inglaterra, 25%; nos EUA, 40%; na Coreia do Sul, 51%; e no Japão, 53%. São diferenças colossais.

Tudo somado, concluímos que estamos na rabeira. E quando se considera a qualidade do nosso ensino, o quadro é dramático. Em pleno século 21, o Brasil tem ainda 14 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever. E dentre os que entram na escola, muitos a deixam pela metade. Para os que prosseguem a repetência chega a 20%.

Entre os que se formam, o desempenho é baixíssimo. A maioria dos brasileiros que chegam à 8.ª série tem severas dificuldades para calcular e para compreender o que lê. Estamos nos últimos lugares entre os 56 países pesquisados pelo Pisa (Program for International Student Assessment).

Em suma, a Pnad 2009 mostrou que o copo está enchendo. Ótimo. Mas ele continua meio vazio.

Para que possamos chegar ao limite da nossa potencialidade de crescer e para fazer as pessoas progredirem e bem desempenharem a cidadania temos de acelerar a melhoria do nosso sistema educacional. E precisamos queimar etapas. No passado, isso foi feito em outros países com bons resultados (Coreia do Sul) e vem sendo realizado com sucesso nos dias atuais (China). O Brasil não pode dispensar a maratona educacional.

PROFESSOR DE RELAÇÕES DO TRABALHO DA FEA-USP. SITE: WWW.JOSEPASTORE.COM.BR

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